gema
grupo de estudos do megalitismo alentejano

 
 


Resumo

Este pequeno texto propõe uma reflexão sobre três ideias: uma proposta que vê nos arranjos de menires dos recintos, encenações genealógicas simbólicas divinas; uma proposta onde se identifica um padrão dessas mesmas encenações nos 3 recintos de Valverde; e um estudo sobre um dos menires numa dessas encenações (no recinto de Almendres).
Considero genericamente o neolítico enquanto produto da circulação e manipulação de uma retórica que configura uma reforma do Homem.

 

1. Contexto mitológico dos recintos de Valverde

"We need to approach religion as a possible component underlying all the use and meaning of material culture - not only as a term applied to 'ritual objects'. We need to recognise the potentially embedded nature of religion as a key building block, if not sometimes the key building block of identity."
(Insoll, 2004)

Ao contextualizar uma transformação da natureza, entendida como fabulosamente fundada, o menir recria-a mitologicamente e consubstancia um carácter antropomórfico, entendido aqui num quadro de evocação divina, oferecendo ainda aos recintos a particularidade de encenarem genealogias simbólicas divinas.

Este contexto, nos recintos de Valverde, gira em torno de alguns elementos (as serras, os festos e, o sol e a lua), e do potencial simbólico na construção de relações sociais e relações divinas neles assentes.

Na semântica do espaço mitológico dos recintos de Valverde, Évoramonte, cabeço norte da serra d'Ossa sobre o festo Tejo-Guadiana, protagoniza uma via maioritária nas lutas de poder, fundadas na oferta do carácter ancestral alegórico da natureza.

Esse protagonismo, apesar de maioritário, não é consensual, quando o artifício da transferência de uma divindade para outra, através da paisagem - da metáfora do mundo - revela uma complexificação teológica, claramente asssumida em torno do sol e da lua enquanto divindades, e manifesta no incremento da iconografia e num barroquismo escalonável da arquitectura dos recintos de Valverde, evoluindo numa ramificação de génese divina.

É precisamente o estudo da iconografia dos recintos de Valverde o motivo principal deste ensaio e, defendo, elemento incontornável para uma contextualização dos mesmos.

 

2. Os recintos de menires alentejanos e a bacia hidrográfica de Valverde

Sintetizam-se neste capítulo algumas considerações genéricas de Manuel Calado e Pedro Alvim a este respeito.

A bacia hidrográfica da ribeira de Valverde é uma pequena unidade fisiográfica subsidiária da bacia do Sado, que encostando a sua cabeceira ao festo Tejo-Sado, encaixa a nascente da serra de Monfurado.

Em torno da serra de Monfurado existem seis recintos de menires dispostos em pares (Vale Maria do Meio/Portela de Mogos, Cuncos/Sideral e Tojal/Casas de Baixo), segundo relações de proximidade, e um recinto isolado (Almendres), esquematicamente centrado em relação aos pares de recintos. A linha que traça na paisagem a separação entre as bacias do Tejo, Sado e Guadiana, parece conduzir uma espécie de orientação entre o recinto principal e os pares de recintos, bem como entre os recintos de cada par.

Posicionando-se no centro de uma vasta mancha neolítica, estão claramente ausentes da bacia de Valverde monumentos funerários neolíticos, apesar destes ocorrerem em número extraordinário em todo o seu redor. Em contrapartida, existe um significativo número de menires nesta bacia. Dos recintos existentes em torno da serra de Monfurado, o par Vale Maria do Meio/Portela de Mogos e o recinto de Almendres encontram-se na bacia de Valverde. São precisamente os maiores recintos de menires alentejanos, bem como os únicos com gravuras. Simultaneamente, é nesta bacia onde foi identificada, até à data, a maior concentração de povoados do neolítico antigo de todo o alentejo central. Esta diferença na presença de antas e menires, dentro e fora da bacia de Valverde, e a relação verificada com o povoamento no neolítico, tem sido ainda pouco avaliada.
Deixando objectivamente de fora outras considerações igualmente pertinentes, este quadro faz notar e reforça aquilo que Manuel Calado tem vindo a chamar a atenção, ou seja, a forte tendência para situarmos o fenómeno menírico no momento mais recuado do neolítico, no alentejo.

Arquitectonicamente, os recintos de menires alentejanos são estruturas formalmente assentes na reunião de menires guiados segundo um princípio comum: uma planta razoavelmente próxima dum desenho em ferradura; uma orientação longitudinal este-oeste; um acréscimo do volume dos menires de nascente para poente; e uma implantação junto ao topo de encostas expostas a nascente.
A isto importa necessariamente acrescentar o papel de exclusividade que o granito enquanto matéria-prima desempenha, opção para a qual a região é decisiva, pela oferta de um cenário geológico onde o granito, através de afloramentos por vezes fantásticos e inquietantes, ganha a dinâmica de um carácter sobrenatural, potenciando um contexto onde o antropomorfismo é mais susceptível.

 

3. Uma matriz nos recintos de Valverde

Os recintos de Valverde são os únicos recintos de menires alentejanos onde temos a possibilidade de encontrar menires com gravuras e, mais significativamente, as principais gravuras surgem nos 3 recintos posicionadas nos mesmos sítios. Estamos, como se percebe, a falar da existência de um padrão, que apresenta relações interessantes entre arquitectura, iconografia, paisagem e o movimento dos astros, e onde as gravuras são parte vital.
Mais especificamente quanto à iconografia, estão identificados 2 temas fundamentais: báculos; e trapézios com ou sem crescente. A repetição destes temas nos 3 recintos e, precisamente nos mesmos sítios dos 3 recintos, contribui decisivamente para a percepção de uma composição objectivamente encenada.

Comecemos por ver as gravuras existentes e as suas localizações nos recintos. No recinto de Vale Maria do Meio, com cerca de 30 menires, temos um menir com trapézio e crescente, e um menir com trapézio, crescente e báculos. No recinto da Portela de Mogos, com cerca de uma dezena mais de menires que Vale Maria do Meio, existem 2 menires com trapézio e crescente, e um menir com báculo. No recinto de Almendres aumenta significativamente o total de menires - cerca de cem - tal como aumenta o número de gravuras, surgindo um menir com trapézio e crescente, 2 menires com trapézio e um menir com báculos e crescente.

No desenho 1, assinalam-se nos recintos de Valverde estas gravuras, esquematiza-se pela primeira vez o padrão descrito no início deste capítulo e assinala-se um lugar comum nos 3 recintos, registado com o número 1.

As fotos 1, 2 e 3, realizadas durante o poente do sol no equinócio, correspondem respectivamente às vistas tiradas a partir do posição 1 nos recintos de Vale Maria do Meio, Portela de Mogos e Almendres. Nesta posição, um observador tem imediatamente à sua frente, nos 3 recintos, um menir com gravura de trapézio e crescente. A este menir passo a designar menir a.

Nas 3 imagens é visível o sol ligeiramente à esquerda do menir a, menir por trás do qual o sol desaparece nos equinócios. À direita e à esquerda o arranjo de menires difere em número, ficando também o maior menir, de cada um destes 3 recintos, no lado esquerdo. O grande menir observado da posição 1, bloqueia um outro menir com gravura de trapézio e crescente. Esta composição alinha, nos 3 recintos, com o poente do sol no solstício de inverno.
À direita do menir a ocorre o poente do sol no solstício de verão, visível sobre a linha de horizonte a partir da posição 1.

Esta composição encena um protagonismo do so,l e ensaia uma genealogia de divindades, através de uma separação de importâncias entre o sol de inverno e o sol de verão. Este princípio transfigurado através de uma semântica de artifícios simbólicos - o báculo, os festos e a ritualização do espaço - reforça uma importância das questões teológicas. Dado que as gravuras estão directamente relacionadas com os alinhamentos astronómicos que envolvem o sol, é legítimo aceitar que a iconografia presente faz parte de uma simbologia em que este astro é o protagonista principal.

 

4. Uma genealogia para os recintos de Valverde

O movimento e circulação no espaço dos recintos é intrínseco de uma experienciação simbólica da paisagem. Ou seja, a performance permite aos executantes a construção de um sentido social, explicando e legitimando uma ordem existente fundamentalmente através da essência profunda do ritual. As gravuras ao se integrarem ciclicamente nas cerimónias, ajudam a promover a circulação e manipulação de uma retórica - uma ideologia. Nos menires dos recintos de Valverde, as gravuras relacionam-se e, relacionam-nos, regra geral, com posições específicas do sol, particularmente os poentes solsticiais e equinociais. Dessas relações, o poente no solstício de inverno regista as encenações de menires mais espectaculares. Analisemos então de mais perto estas questões nos recintos de Valverde.

A serra d’Ossa, um dos trechos na paisagem mais desconcertantes para os recintos de Valverde, é-o indubitavelmente pelas relações celestes que potencia. Na sua crista, Évoramonte relaciona-se com os recintos da Portela de Mogos e de Vale Maria do Meio, entre outros aspectos, através do nascente do sol no solstício de verão, transmutando-se Évoramonte, no recinto de Almendres, para um contexto lunar.

No recinto de Almendres existe uma gravura directamente envolvida com o padrão estudado no capítulo anterior, e os seus menires e alinhamentos, com uma particularidade iconográfica curiosa e uma leitura interessante.
O recinto de Almendres apresenta um refinamento desse padrão, ao adicionar um meio-arco aberto a sul, em torno da posição 1. Neste meio-arco existe um menir (58), com gravura, visível para quando nessa posição viramos a nascente, ficando deste modo o menir no alinhamento de Évoramonte, cabeço norte da serra d'Ossa.

Os menires, gravuras e alinhamentos que nos conduziram à posição 1, mostram que essa posição, no recinto de Almendres, constitui-se como centro de uma ábside de menires, levando-nos a olhar e pensar estes, também, enquanto parte evolucionada do padrão. É neste processo que o menir 58, adicionado originalmente a esta estrutura dos recintos de Valverde, no recinto de Almendres, é tornado parte da semântica morfológica do padrão observado, donde o seu alinhamento com Évoramonte se torna altamente significativo.
Évoramonte é o limite norte do nascente da lua (cheia), visto a partir do recinto de Almendres (Alvim, gema 2002). E este facto é determinante na leitura da gravura do menir 58, dado que os círculos nela representados são iguais aos desenhos observáveis a olho nu na superfície da lua, a que se lhe acresce, na gravura, um serpenteado de linhas abaixo dos círculos, muito interessantes, como vim a perceber.

Acontece que "o maciço da serra d'Ossa (...) intercepta os ventos húmidos do noroeste e desencadeia localmente chuvas orográficas" (Daveau, 1985: 29), ou seja, a serra d’Ossa tem um papel activo no comportamento regional das chuvas. Dadas as relações do menir 58, o desenho das serpentiformes na gravura remete essa figuração para uma representação das chuvas. A convergência entre a lua, a serra d'Ossa e os ventos de noroeste, define uma origem mitológica das chuvas na região. Esta evocação no menir 58 sustenta, com razoável credibilidade, uma convicão na faculdade da lua em interferir no comportamento das chuvas.

Esta problemática levanta outras questões. Os recintos de Vale Maria do Meio e Portela de Mogos têm relações com as serras, os festos e os astros (sol e lua fundamentalmente), sendo que no recinto de Almendres a lua passa a disputar uma espécie de protagonismo, tal como o menir 58 claramente revela. Aquilo que estamos a assistir, no recinto de Almendres, é a uma espécie de ascenção de carácter teológico, assumida numa negociação de poderes (é evidente uma proliferação de menires e gravuras), e através de um entrosamento morfológico de menires, gravuras e alinhamentos, com vista à evocação e legitimação de uma mitologia lunar divina.

Dos 3 recintos de Valverde, o recinto de Almendres aponta para um enfoque do simbolismo lunar, pelo que a semântica do simbolismo lunar pode recuar do neolítico alentejano final e médio, onde a simbologia deve muito ao protagonismo da lua (Marciano & Calado, gema 2005), até pelo menos ao recinto de Almendres, deixando de fora os recintos de Vale Maria do Meio e Portela de Mogos, ou seja, num momento anterior ao primeiro.

Creio que a problemática teológica, bem como o crescendo da complexidade arquitectónica, e o aumento do número de gravuras e temática iconográfica por recinto, se aliam numa só via, dando sentido a um lugar descendente do recinto de Almendres, de entre os recintos de Valverde.

 

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