1. Introdução
Os sítios arqueológicos formados por conjuntos de blocos de rocha são referenciados na bibliografia para o Amapá, estado brasileiro localizado na foz do rio Amazonas, já no final do século XIX, quando Emílio Goeldi realizou uma expedição ao Rio Cunani (Goeldi, 1905), porção Norte do Estado. Porém, foi na década de 1920, através dos registros de Curt Nimuendajú (Nimuendajú, 2000, 2004; Linné, 1928) que estes sítios receberam maior atenção. Na ocasião, Nimuendajú percorreu uma extensa área no litoral do Amapá, registrando ao todo nove conjuntos de megalitos. Posteriormente, Meggers & Evans (1957) também dedicaram parte de seu tempo na região a estas estruturas, porém, realizando pequenas sondagens, não obtiveram muitos dados. Desde então, estas estruturas arqueológicas, de ocorrência única no Brasil e extremamente importantes para a compreensão da pré-história da Amazônia, não mais haviam sido foco de pesquisa.
Desde 2005, um projeto arqueológico está sendo por nós realizado na região, com o objetivo de levantar dados empíricos sobre a ocupação humana relacionada à construção e uso das estruturas megalíticas na Foz do Amazonas.
As prospecções realizadas na área trouxeram novos dados arqueológicos, evidenciando uma maior presença de estruturas megalíticas e outros tipos de sítio na área do que inicialmente esperado. O registro sistemático dos conjuntos megalíticos mostra uma grande diversidade de formas e tamanhos. As informações que coletamos desde o início do projeto, ainda que extremamente fragmentárias, já oferecem novos dados e interpretações sobre o patrimônio arqueológico presente na costa norte do Amapá.
As escavações realizadas no sítio AP-CA-18 mostraram uma grande quantidade e diversidade de deposições, muitas delas claramente de caráter votivo. Esta informação nos oferece novas perspectivas sobre o caráter destas estruturas, contextualizando-as de uma maneira que permita interpretações mais apuradas, anteriormente impossíveis de obter pela falta de escavações controladas. Além disto, indicações de aspectos arqueoastronômicos do sítio escavado também oferecem um campo de pesquisa interessante, na medida em que antigos conhecimentos astronômicos foram solidificados como cultura material.
O presente artigo pretende mostrar alguns aspectos deste trabalho que está sendo desenvolvido na região, com especial ênfase nas estruturas megalíticas.
2. Contexto Geográfico
O presente projeto de pesquisa está focado na costa atlântica do Amapá, ao norte da foz do Amazonas, Brasil. Geograficamente, o Amapá é limitado a oeste pelo Platô das Guianas, a leste pela costa atlântica, e a sul pelo rio Amazonas. A área é dividida pela linha do equador, o que gera algumas implicações para padrões climáticos e ambientais aqui encontrados, como uma estação chuvosa claramente marcada, que inicia em dezembro e dura até o fim de julho. Estas variações são correlacionadas com mudanças no nível de água dos rios e das partes baixas da planície costeira, que inundam durante a estação chuvosa.
A costa atlântica do Amapá é uma área altamente dinâmica, com ocorrência de mudanças dramáticas durante o Holoceno. Esta alta dinâmica é causada por diferentes fatores, tais como o sistema de dispersão hidrológica do rio Amazonas e a ação de macro-maré, que em alguns locais do litoral do Amapá pode chegar a mais de 8 metros de variação (Silveira, 1998).
Estes fatores, aliados às baixas altitudes da região costeira, fazem com que esta paisagem esteja sujeita a constantes mudanças, tais como rápidos aparecimentos e desaparecimentos de bacias hidrográficas. Estas mudanças estão documentadas na cartografia antiga da região, feita pelos colonizadores europeus desde o século XVI, e na existência de lagos residuais e canais secos visíveis nas imagens de satélite (Santos, 2006).
Isto torna a prospecção pedestre e a interpretação da espacialidade de antigos sítios arqueológicos uma tarefa muito difícil. Mais estudos sobre a paleo-paisagem da região ainda precisam ser elaborados para oferecer bases mais ricas para a compreensão de antigas paisagens.
O projeto propriamente dito cobre uma área piloto de 130x110 km (Figura 1), compreendendo quatro principais bacias hidrográficas da costa norte do Amapá, dos rios Flechal, Amapá Grande, Calçoene e Cunani.
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Fig. 1: Localização geral da área do projecto.
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Atualmente, pelo menos três zonas ecológicas podem ser distinguidas na área do projeto (de acordo com Silveira, 1998). Ao longo da costa e cobrindo os cursos baixos dos rios, podem ser encontradas extensas florestas de manguezais, que crescem sobre cabos lamosos. Associados com a floresta de mangue existem parcelas de savanas abertas, que crescem sobre sedimentos holocênicos. Estas savanas podem inundar diariamente devido às marés oceânicas. Somente sítios sobre Mounds (Mamoas) foram encontrados nestes locais (Nimuendajú, 2004; Pardi & Silveira, 2005).
Atrás desta primeira zona ecológica, encontra-se uma larga faixa de savanas que cobrem terrenos do período terciário, periodicamente inundados durante a estação chuvosa. Esta savana baixa e plana é interrompida somente por florestas de galeria ao longo dos cursos d´água ou por áreas naturalmente mais altas, que se tornam ilhas durante a estação chuvosa. A maior parte dos sítios atualmente conhecidos na área do projeto é encontrada no topo destas “ilhas” (Nimuendajú 2004; Meggers & Evans 1957; Coirollo, 1996; Schaan et al, 2005; Cabral & Saldanha, 2006, 2007).
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Fig. 2: Vista aérea das savanas alagadas na estação das chuvas.
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Mais distante do litoral, encontra-se a típica floresta de terra firme amazônica, em áreas mais altas. Esta é a principal zona ecológica onde cavernas naturais, utilizadas como locais de deposição de urnas funerárias, são encontradas (Meggers & Evans 1957; Guapindaia, 1997).
A partir desta descrição das características geomorfológicas da área, correlacionadas com a distribuição de sítios arqueológicos, é possível correlacionar áreas ambientais gerais com diferentes tipos de sítios. Como será discutido abaixo, a localização dos sítios oferece algumas idéias interessantes sobre a interpretação das paisagens arqueológicas.
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Fig. 3: Distribuição dos tipos de sítio na área de pesquisa.
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3. Investigações prévias em sítios megalíticos no Amapá
A primeira descoberta de um sítio megalítico na costa norte do Amapá ocorreu no final do século XIX pelo naturalista Emílio Goeldi e seu assistente Aureliano Guedes. Graças a um monólito eregido no topo de uma colina, eles foram capazes de localizar dois poços funerários com um importante espólio cerâmico (Goeldi, 1905), contendo, entre outros vasilhames, urnas funerárias antropomorfas de um estilo que seria posteriormente conhecido como Fase Aristé (Meggers & Evans, 1957).
No início do século XX, seguindo informações sobre a ocorrência de megalitos na costa norte do Amapá, o etnólogo Curt Nimuendajú realizou prospecções na região entre os rios Cunani e Flechal (Stenborg, 2004). Ele encontrou pelo menos nove sítios compostos por grupos de megalitos, além de alguns abrigos funerários e antigas aldeias. Provavelmente, em função dos poços funerários encontrados por Goeldi estarem associados a monólitos, Nimuendajú chamou estes sítios explicitamente de “cemitérios” (Nimuendajú, 2000).
Em alguns destes sítios megalíticos, Nimuendajú realizou pequenos cortes, usualmente próximos de pedras ainda eretas. Entretanto, Nimuendajú teve resultados frustrantes, encontrando sempre material considerado pouco significativo por ele nas áreas escavadas.
Décadas mais tarde, os arqueólogos norte-americanos Betty Meggers e Clifford Evans (1957; Evans, 1950) iniciaram uma pesquisa na região, trabalhando em um amplo projeto para reconstrução histórico-cultural do povoamento na Foz do Amazonas. Através do método de seriação cerâmica, eles procuraram inserir as estruturas megalíticas em um contexto cultural e cronológico. De acordo com estes autores, os construtores de estruturas megalíticas estariam afiliados ao que eles denominaram de “Fase Aruã”. Esta Fase seria definida, no Amapá, principalmente pela presença de uma cerâmica lisa e temperada com caco moído, encontrada em sítios cerâmicos a céu aberto ou sítios com megalitos (Meggers & Evans, 1957: 43-44). Baseados em seu trabalho de seriação, Meggers e Evans propuseram que a Fase Aruã seria a cultura cerâmica mais antiga no Amapá, resultado de migração da região Circum-caribenha em torno do século XIII d.C. Mais tarde, os produtores da Fase Aruã seriam expulsos do Amapá pelos produtores da Fase Aristé, logo antes da chegada dos conquistadores europeus na região. Estes autores também propuseram uma função às estruturas megalíticas, relacionando-as a culto de ídolos e ritos de fertilidade, como em alguns casos documentados etnograficamente no baixo Amazonas nos séculos XVIII e XIX (Meggers e Evans, 1957: 595).
Trabalhos mais recentes em áreas vizinhas ao Amapá, como a Guiana Francesa, têm, no entanto, criticado a definição e presença da denominada Fase Aruã na região, assim como sua associação aos sítios megalíticos (Rostain, 1994a, 1994b; Boomert, 2000). Estas críticas são principalmente dirigidas a pouca expressividade do tipo cerâmico diagnóstico da fase no Amapá (Piratuba Liso) e sua semelhança com o tipo “Serra Liso” da Fase Aristé. Para Rostain (1994a), as estruturas megalíticas seriam construções dos portadores da cerâmica da Fase Aristé, e a cerâmica lisa foi erroneamente utilizada para inferir contextos cronológicos e culturais.
Além destas discussões metodológicas, culturais e cronológicas, há também problemas empíricos ligados aos monumentos megalíticos da região, devido ao fato que nenhuma destas estruturas havia sido objeto de escavações sistemáticas. Mesmo a funcionalidade destes sítios ainda não foi convincentemente acessada. Consideradas primeiramente como “cemitérios” por Nimuendajú (2000), posteriormente as estruturas megalíticas foram consideradas como “centros cerimoniais” por Meggers e Evans (1957), uma interpretação que foi também seguida por Rostain (1994a, 1994b). Entretanto, a falta de dados empíricos não permite avançar nestas e outras questões. As escavações que realizamos em um destes sítios, que apresentamos aqui, oferecem hoje alguns dados que permitem novas perspectivas para as discussões sobre a ocupação antiga da região.
4. Abordagens ao megalitismo na costa norte do Amapá
Dada a falta geral de dados empíricos nestas estruturas, os esforços iniciais do projeto foram concentrados em entender os sítios megalíticos da região, tentando, ao mesmo tempo, correlacioná-los aos diferentes tipos de sítios presentes no entorno, como cavernas funerárias, deposição de cerâmica a céu aberto, etc. Nosso objetivo principal foi entender, através de análise da paisagem em diferentes escalas, o arranjo e configuração dos sítios na região, a fim de obter uma idéia mais clara sobre a natureza e escala das sociedades envolvidas na ereção e uso das estruturas megalíticas.
Antes do início do projeto, treze estruturas megalíticas eram conhecidas, localizadas principalmente entre os rios Cunani e Flechal na costa norte do Amapá, graças aos trabalhos realizados desde o final do século XIX (Goeldi, 1905; Nimuendajú, 2000; Nimuendajú, 2004; Linné, 1928; Meggers & Evans, 1957; Coirollo, 1996; Schaan et al, 2005). Através de nossos trabalhos na área, outras dez estruturas foram identificadas, além de outros tipos de sítios, como antigas aldeias, cavernas funerárias e deposição de cerâmica em lugares especiais. Atualmente, 55 sítios são conhecidos em toda área do projeto.
Ao contrário de certas expectativas sobre a conservação de estruturas megalíticas (Meggers & Evans, 1957: 44; Neves, 2004: 7), algumas delas estão bem preservadas, sendo ainda possível acessar sua configuração original. De fato, como será mostrado abaixo, as escavações em um destes sítios favorecem esta observação.
A maior parte dos sítios megalíticos é formada pelo arranjo circular de grupos de rochas graníticas em posições horizontais, verticais ou inclinadas, dispostas no topo de colinas. Os tamanhos e composições são variáveis. Algumas estruturas são pequenas, com menos de 10 metros de diâmetro, e formadas por blocos medindo menos de 1 metro de comprimento. Por outro lado, a maior estrutura já encontrada (AP-CA-18) mede mais de 30 metros de diâmetro, sendo formada por grandes blocos, alguns deles medindo mais de 3 metros acima do nível do solo.
Algumas poucas estruturas, no entanto, possuíam formatos lineares, com blocos estendendo-se paralelamente ao longo do leito dos rios. Nestes casos, as colinas onde os sítios foram construídos eram bastante estreitas, restringindo as áreas possíveis de dispor as estruturas, que podem medir mais de 100 metros de comprimento e somente 5 metros de largura. Isto pode mostrar uma interessante característica envolvendo a construção de estruturas megalíticas na área. Parece haver uma relação íntima entre as características naturais da paisagem e os arranjos megalíticos, sugerindo que as pessoas que construíram estas estruturas escolheram diferentes áreas para diferentes monumentos. Limitações naturais utilizadas com propósitos culturais, ressaltando uma relação de complementaridade e não de oposição entre natureza e cultura.
Embora a prospecção na área não tenha sido exaustiva, a alta visibilidade dos sítios megalíticos sugere que a grande maioria destas estruturas na área pesquisada já tenha sido identificada. Aceitando isto, decidimos realizar algumas análises espaciais através de Sistemas de Informações Geográficas (SIG), para compreensão da organização espacial dos sítios megalíticos. Para isto, escolhemos lidar com uma área de 30x30 km no entorno da atual cidade de Calçoene, onde temos melhores dados para realizar análises.
Como apresentado no mapa abaixo (figura 02), os sítios estão agrupados por bacias hidrográficas, e parece haver um espaçamento regular entre eles, com a ocorrência de 1 estrutura a cada 2 km.
Considerando também as diferenças no tamanho das estruturas, e sua distribuição na área, a possível existência de uma hierarquia de sítios pode ser levantada, com a ocorrência de somente duas grandes estruturas (mais de 25 metros de diâmetro) e uma grande maioria de estruturas menores (menos de 18 metros de diâmetro). Esta hierarquia também é notada na visita aos sítios, onde as grandes estruturas possuem grandes blocos rochosos e as pequenas estruturas possuem blocos menores na sua composição.
Se tomarmos esta regularidade no espaçamento e as diferenças de tamanho como significativas, podemos sugerir que as estruturas megalíticas possam ter servido como marcadores de pequenos territórios, talvez mais como centros de encontro do que limites políticos. Entretanto, como esta interpretação é feita somente sobre distribuições espaciais e tamanhos de sítios, e somente um sítio oferece dados detalhados sobre deposições arqueológicas, não avançaremos mais. Escavações em diferentes sítios, assim como comparações entre espólios arqueológicos e cronologia são absolutamente essenciais para interpretações mais detalhadas sobre a natureza das sociedades que produziram estas paisagens.
Contribuindo para esta preocupação em estudar paisagens arqueológicas na região, é também essencial lidar com os diferentes tipos de deposições arqueológicas que encontramos até agora. Como ressaltado acima, como a prospecção foi apenas parcialmente feita, os dados são muito fragmentários.
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Fig. 4: Distribuição dos sítios megalíticos em torno da atual cidade de Calçoene, mostrando uma distribuição regular ao longo das bacias e diferenças emtre o tamanho das estruturas.
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Até agora, entre os 55 sítios arqueológicos identificados na área do projeto, 20 são estruturas megalíticas, 8 são cavernas funerárias, 4 são amoladores de machados polidos e outros 20 são relacionados com diferentes deposições de cerâmica. Entre estes últimos sítios, alguns são claramente depósitos votivos – como arranjos de cerâmica no fundo de rio, deposição de cerâmica no topo de afloramento rochoso, e pelo menos dois tipos de depósitos funerários: enterrado e exposto a céu aberto – e algumas possíveis aldeias, sejam em topo de mounds artificiais, ou sobre colinas naturais. A partir de descrições sobre estas variadas deposições de cerâmica (Goeldi, 1905; Linné, 1928; Hilbert, 1957; Meggers & Evans, 1957; Coirollo, 1996; Nimuendajú, 2004; Pardi & Silveira, 2005), podemos encontrar uma recorrência de estruturas funerárias em possíveis sítios de aldeias. Como poucas escavações foram feitas na área, investigações futuras devem ser feitas nestes sítios para entender sua natureza.
É interessante ressaltar a quantidade de lugares especiais, sejam monumentos construídos ou depósitos sobre elementos da paisagem. Existem 31 sítios que se encaixam nesta categoria: 20 megalitos, 8 cavernas funerárias, 1 depósito funerário, 1 deposição sobre afloramento, e 1 arranjo de cerâmica em fundo de rio. Embora estes tipos de sítios tenham uma visibilidade arqueológica maior que as aldeias, e não sejam necessariamente contemporâneos, eles indicam uma paisagem rica em lugares especiais. A natureza exposta de algumas destas deposições (como sobre afloramentos, cavernas ou a céu aberto), sugere visitas e re-visitas aos depósitos, em atos performativos. Como apresentaremos abaixo, as escavações em uma estrutura megalítica mostram exatamente este tipo de performance, com grande quantidade e variedade de deposições votivas, assim como re-visitas ao monumento.
5. Escavações no sítio AP-CA-18
O trabalho de escavação foi focado principalmente em um sítio megalítico específico, denominado AP-CA-18, que é muito bem preservado e possui monólitos impressionantes, alguns medindo mais de 3 metros acima do solo. A fim de interpretar este monumento, as principais questões levantadas foram as seguintes: Como eram organizados os conteúdos destes sítios, tanto espacialmente, quanto cronologicamente?; e quais processos estão envolvidos na deposição dos artefatos?
O sítio AP-CA-18 está inserido em um complexo de colinas acima da planície sazonalmente alagadiça do rio Rego Grande, uma drenagem que corre em direção ao Oceano Atlântico.O sítio é formado por, pelo menos, quatro áreas arqueológicas. Duas delas são concentrações de fragmentos cerâmicos em áreas baixas. Alguns testes estratigráficos foram realizados em uma destas áreas, revelando a presença de um solo escuro de natureza antropogênica, pequenos buracos de poste e possíveis pavimentos formados com pequenos blocos graníticos, sugerindo que este local possa ter sido uma área residencial ou de atividades restritas (p.ex. processamento de alimentos). Outras duas áreas são caracterizadas pela presença de grandes blocos graníticos (megalitos) dispostos em posições horizontais, verticais ou inclinadas no topo de pequenas colinas. Um deles possui um formato circular, enquanto outro é formado por dois agrupamentos de blocos, sem uma forma definida.
As escavações foram concentradas até agora na estrutura circular (figuras 03 e 04), de 30 metros de diâmetro. Além das principais questões já colocadas acima, tínhamos alguns outros interesses guiando as escavações. Sendo uma estrutura circular, pode-se facilmente definir áreas externas e internas, e estávamos interessados em verificar as possíveis diferenças entre estas áreas. Além disto, tínhamos o interesse de checar a integridade da base dos monólitos, a fim de apoiar interpretações arqueoastronômicas sobre inclinações e alinhamentos de alguns blocos específicos.
Além de poços-teste, escavações foram realizadas em duas áreas: na estrutura megalítica grande (72m2) e no outro agrupamento de blocos (4,75 m2).
Na estrutura circular, escolhemos escavar áreas seguindo dados de prospecções geofísicas realizadas no sítio, além de observações de campo. Enquanto a escavação avançava, dados de áreas abertas nos auxiliavam a guiar outras escolhas de escavação.
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Fig. 5: Visão geral da principal estrutura megalítica no sítio AP-CA-18.
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A escavação foi feita em unidades de 1 m2. Uma ampla área horizontal foi aberta, expondo as estruturas em níveis artificiais de 10 cm de espessura. Cada unidade foi desenhada em escala, e estruturas foram fotografadas. Os vestígios arqueológicos foram coletados após a plotagem individual de cada peça nas unidades e nos níveis. Esta metodologia, na falta de uma estratificação clara, característica dos sítios amazônicos, oferece um registro refinado da distribuição espacial em nível horizontal e vertical dos depósitos artefatuais.
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Fig. 6: Localização do grid de escavação sobre a principal estrutura megalítica no AP-CA-18 (blcos rochosos em cinza).
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O registro gráfico de cada nível de decapagem foi inserido em um Sistema de Informações Geográficas, onde é possível visualizar a distribuição dos artefatos e estruturas. Após a análise do material e remontagem, a informação presente no SIG poderá ser utilizada para definir áreas de atividade ou isolar eventos de deposição, contribuindo para um melhor entendimento da formação dos depósitos arqueológicos no sítio.
5.1. Estruturas encontradas
Sustentação dos Blocos
Um dos principais problemas para a escavação na estrutura megalítica era compreender a forma de inserção dos blocos colocados em posição vertical e inclinada, de forma a saber não só como eles eram sustentados, mas também verificar a possibilidade de deslocamento de suas posições originais ao longo do tempo. Também procuraríamos evidências estratigráficas de possíveis deslocamentos, se ocorridos, de forma a tentar reconstituir a posição original.
Como a pesquisa arqueológica intensiva em megalitos no Brasil não é desenvolvida, devido à pouca freqüência deste tipo de fenômeno, procuramos sustentação em literaturas estrangeiras, procurando metodologia e terminologia adequadas a este tipo de evidência em países que possuem tradição de pesquisa em megalitos. A tese doutoral de Calado (2004), em sítios megalíticos alentejanos, tornou-se uma fonte importante.
Como um dos objetivos da pesquisa arqueológica no sítio AP-CA-18 é subsidiar a abertura do sítio para visitação, a escavação da base das rochas não deveria comprometer a estrutura megalítica, de forma a manter o sítio arqueológico na forma mais próxima possível da época de seu registro. Assim, procuramos trabalhar apenas bases in situ de rochas visivelmente tombadas. Desta forma, a escavação não abalaria a sustentação de rochas que ainda estão em pé. Para isto foi escolhida uma base localizada entre as quadrículas 99/92 e 99/93.
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Fig. 7: Base de rocha escolhida para escavação. Em destaque 8circulado), o topo do bloco caído.
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A área já havia sido escavada até 20cm de profundidade, e havíamos encontrado uma estrutura de deposição de fragmentos cerâmicos junto à base dessa rocha. Na maior parte das quadriculas no entorno, a camada estéril de laterita tornava-se evidente, com exceção da área no entorno imediato do bloco, que ainda possuía um sedimento mais fino contendo fragmentos cerâmicos e placas menores de granito. Com a escavação dessa estrutura, foi possível compreender que este sedimento diferenciado referia-se à fossa escavada (alvéolo) para inserção do monólito.
Mais a sul desta base, na quadrícula 99/92, foi encontrada a base de uma outra pedra caída, permitindo a reconstituição de, pelo menos, duas rochas que originalmente estavam em pé na área. Originalmente elas eram levemente inclinadas para oeste, direcionadas de norte a sul. No entorno delas, aos 20cm de profundidade, foi localizado o solo natural, formado por laterita. Onde não havia a laterita parecia haver a borda da fossa escavada para inserção das rochas colocadas em pé. Junto da borda, havia pequenas placas de granito e fragmentos cerâmicos que mergulham na direção desta fossa.
Primeiramente, foi escavada a quadrícula 98/93 na parte norte do bloco a ser escavado. Foi observado novamente nesta quadrícula uma lente de laterita localizada a oeste de uma rocha, associado a placas de granito menores. Blocos de laterita e placas de granito colocadas a oeste sugerem um apoio para sustentação da pedra em pé.
Na seqüência foi aberto o nível 20-30 cm da quadrícula 99/94, a norte do bloco. A idéia principal foi abrir uma pequena trincheira, medindo 2mx1m no entorno da base de rocha, a fim de entender a estrutura de sustentação, o tamanho da fossa para inserção dos monólitos, e o quanto eles se aprofundam abaixo do solo. Assim, a escavação trabalhou conjuntamente as quadrículas 99/93 e 99/94.
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Fig. 8: Detalhe da estrutura de sustentação do monólito no nível 20-30 cm com blocos de laterita e placas de granito inseridas na fossa de forma a manter o bloco em um ângulo específico
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No nível 20-30cm, foram notados grandes blocos de laterita e placas de granito sustentando a rocha. No entorno de grande parte da trincheira neste nível já se percebia que ele era estéril, formado principalmente por laterita. As exceções são: um ponto no sul da quadrícula 99/94, abaixo de uma grande rocha que se prolonga para a quadrícula 99/95, onde foi delimitado o limite da borda de um poço/fosso. Outra exceção é no entorno do bloco caído, onde foi delimitado o alvéolo para inserção da rocha. Foi notado que a fossa escavada para inserção não é muito maior que a rocha que ele sustenta, estando a, no máximo 15cm de distância do bloco. A “folga” entre o a borda da fossa e a rocha é então preenchida com blocos de laterita e pequenas placas de granito, de modo a sustentar o bloco maior em pé e em uma posição específica.
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Fig.9: a esquerda: final da escavação da trincheira no entorno da base de bloco. À direita: detalhe da estrutura de sustentação do bloco ao final da escavação.
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Logo após foram escavados os níveis 30-40cm e 40-50cm da trincheira nas quadrícula 99/93 e 99/94. Foi notado que a maior parte da área escavada é de laterita estéril. A fossa escavada para inserção do megalito é pequena neste nível, medindo 0,6mx1,0m. Já no nível 50-60cm, a laterita torna-se mais consolidada, formando a carapaça.
Aos 70 cm de profundidade, foi encontrada a base do megalito colocada diretamente sobre a laterita consolidada (carapaça). Assim, a base da rocha se encontrava reforçada, não só pelas placas e blocos de laterita colocados como calçamento no alvéolo de sustentação, mas também pelo fato da própria fossa de inserção ter sido escavada de modo a alcançar 20cm abaixo da carapaça laterítica, oferecendo uma fundação mais estável para o bloco.
Os Poços
Poço 1
A estrutura que posteriormente seria denominada “poço 1” iniciou a ser delimitada a partir das quadrículas 98/100 e 99/101, onde, no nível 10-20cm, já podia ser notada uma grande densidade de fragmentos cerâmicos, incluindo uma vasilha quase inteira, e um grande bloco de granito em posição horizontal que possuía um formato circular, intencionalmente formatado através de lascamentos. Esta associação entre placas rochosas deitadas e uma grande densidade de fragmentos cerâmicos no entorno já havia sido encontrada na escavação da Área 2 (Cabral & Saldanha, 2006), onde foram localizadas, abaixo das placas, fossas contendo deposição de vasilhas.
Por este motivo, decidimos deixar o material do nível 10-20cm evidenciado, buscando visualizar de forma mais clara essa deposição. Além disso, optamos por abrir também as quadrículas 98/99, 99/99, 98/101 e 99/100 para ter uma visão mais ampla desse entorno da rocha.
Ao abrirmos estas quadrículas, foi possível visualizar uma enorme deposição no entorno da placa de granito, formada por grandes fragmentos de cerâmica. Ao todo, a estrutura de deposição associada à placa media 3,49mX2,2m de diâmetros. Esta deposição não parece ter sido feita com as vasilhas inteiras, que depois teriam se fragmentado. O que notamos, restritos às observações de campo, é que os fragmentos são de vários vasos e parecem ter sido colocados já quebrados. Também observamos que existe uma correlação entre a presença de muita laterita (principalmente os blocos >5cm) e esses aglomerados de cerâmica, como se tivessem retirado os cacos de um local com muita laterita e depositado ali. Uma possibilidade levantada já de início é a reutilização de poços funerários, com a limpeza (retirada da cerâmica com lateritas) para uma nova deposição.
A maior deposição no nível 10-20cm estava localizada a oeste e sul da placa. Ao norte, notamos uma área levemente deprimida e com menos quantidade de laterita misturada ao sedimento, para onde a deposição parecia estar “mergulhando” em direção ao nível 20-30cm, o que também era indicado pela inclinação dos fragmentos cerâmicos neste ponto.
Após a plotagem e retirada individual das peças do nível 10-20cm, movemos a pedra para fora da escavação, usando uma técnica que Lailson Camelo da Silva (atual vigia da fazenda) conhecia. A rocha foi calçada e foram colocados troncos de madeira para serem usados como trilhos sobre os quais a rocha desliza. Com uma alavanca, a rocha foi elevada alguns centímetros, apenas o suficiente para passar uma corda por ela para puxá-la. Isso permitiu mover a rocha com delicadeza, sem uso excessivo de força e com mínimo impacto no solo.
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Fig. 10: mosaico de fotos mostrando a deposição de fragmentos cerâmicos no entorno da placa de granito.
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Fig. 11: visão geral da estrutura de deposição cerâmica no entorno da placa.
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Sem o bloco de rocha, iniciamos a escavação do nível 20-30cm, quando ficou mais clara a diferença no solo ao norte da rocha, sendo então possível delimitar uma estrutura escavada na laterita (poço), de formato circular, medindo 1,6m de diâmetro. No entorno, foi identificado claramente o substrato natural de laterita, já sem cerâmica, em oposição à parte do poço. Na parte interna da estrutura, havia uma grande densidade de fragmentos de cerâmica, sendo uma continuidade da deposição evidenciada no nível anterior. Deve-se ressaltar que a rocha não estava colocada exatamente sobre esse limite do poço, mas sim um pouco mais ao sul, apenas parcialmente sobre esta estrutura. Se tal bloco de rocha serviu como uma “tampa” da estrutura de poço (como referenciado na bibliografia; i.e. Goeldi, 1905), ela estava deslocada em relação à estrutura.
A escavação ficou concentrada, então, nas quadrículas 98/100, 98/101, 99/100 e 99/101, permitindo a delimitação da estrutura escavada na laterita. Decidimos escavar apenas o interior da estrutura, deixando exposto o solo natural, o que permite identificar a forma original do poço. A estrutura ficou bem evidente nos níveis inferiores, de forma circular, preenchida com os vasos, notando-se que há algumas peças quase inteiras, mas também muitas fragmentadas, inclusive urnas antropomorfas.
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Fig. 12: mosaico de fotos mostrando a delimitação do poço e a deposição de fragmentos cerâmicos no seu interior.
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Na quadrícula 99/100, que abarca a maior parte desta estrutura, foram encontrados, no nível 30-40cm, fragmentos ósseos, situados na concavidade interna de uma vasilha que parece estar completa, ainda que muito fragmentada. Os fragmentos tinham várias marcas da ação de fogo, indicando sua cremação. Foi observado que os fragmentos ósseos estavam agrupados na região do pescoço de uma vasilha tombada de lado, dentro da concavidade interna que ficou mais próxima ao chão. A parte superior da borda já havia sido coletada em níveis superiores, na posição original (ou seja, com a superfície externa voltada para cima). Isso parece indicar que a vasilha foi jogada na estrutura ainda inteira, com os ossos dentro, misturados ao sedimento. Ao ficar tombada de lado, os ossos depositaram-se ao fundo. Após isso, ela foi sendo preenchida de terra, talvez já durante este mesmo evento, pois os fragmentos superiores da borda não caíram sobre os inferiores. A vasilha ficou apenas um pouco achatada, indicando que quando ela quebrou havia sedimento no seu interior, impedindo seu colapso. No mesmo nível foi encontrada outra concentração de pequenos fragmentos ósseos, também situados ao fundo de uma outra vasilha tombada de lado, situação semelhante à vasilha anterior. Desta vez, porém, havia fragmentos ósseos um pouco maiores.
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Fig. 12: visão geral da delimitação do poço e da deposição de fragmentos cerâmicos no seu interior (a seta tem 20cm de comprimento).
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Até este nível escavado, notou-se que algumas vasilhas, apesar de fragmentadas, estavam completas e preenchidas de terra. Isto parece indicar que elas foram jogadas (ou colocadas) dentro do poço inteiras, ou praticamente inteiras, e continham sedimento em seu interior ou foram preenchidas com o sedimento talvez já dentro da estrutura. Isto é bem interessante porque, lado a lado com estas vasilhas quase inteiras, notamos também a deposição de fragmentos, atirados já quebrados, muitas vezes encontrados na escavação como se fossem camadas de uma cebola, amontoados.
Nos níveis 40-50cm e 50-60cm, foi encontrada uma estrutura formada por duas vasilhas com forma de tigela, uma emborcada sobre a outra, intencionalmente colocadas desta forma. Entre ambas vasilhas havia um sedimento extremamente fino e sem laterita, contrastando com o sedimento que preenche o resto do poço, com muita laterita e uma granulação grossa. O fato desse sedimento no seu interior estar ainda isolado do sedimento do poço, e também o fato de as duas estarem encaixadas uma sobre a outra sugere que elas não foram jogadas no poço, e sim colocadas lá dentro com algum cuidado. É possível que a vasilha de baixo tenha se quebrado com o peso das outras vasilhas depositadas sobre elas até entulhar todo o poço.
Lado a lado com esta micro-estrutura, outras vasilhas inteiras ou semi-inteiras estavam depositadas. Notou-se que havia uma sensível diminuição na quantidade de fragmentos na parte inferior do nível 40-50cm, com o aparecimento de vasos mais completos.
Nos níveis abaixo destas micro-estruturas, voltou a aparecer uma quantidade maior de fragmentos de cerâmica, em detrimento das vasilhas inteiras ou semi-inteiras que estavam sendo encontradas.
No nível 120-130cm, a situação mudou. Houve diminuição na densidade de cerâmica e voltaram a aparecer grandes fragmentos de vasilhas semi-completas e grãos relativamente grandes de carvão vegetal. Houve um estreitamento do poço, na direção leste, o que indicava a proximidade do seu fim.
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Fig. 12: micro-estruturas nos níveis 40-50cm e 50-60cm de profundidade.
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No nível 150-160cm, vasos inteiros apareceram, tendo diminuído sensivelmente a quantidade de cacos. O sedimento estava bem compacto, e notou-se um prolongamento do poço para norte e oeste, formando o início de uma câmara lateral.
Com o rebaixamento do nível 160-170cm, foi iniciada a escavação da câmara lateral do poço funerário, onde foram encontradas três urnas inteiras, todas com pintura vermelha. Com esta escavação, foi possível identificar o final do poço, com uma pequena câmara (não oca) para norte e oeste, totalmente preenchida de sedimento. As três vasilhas inteiras estavam colocadas uma ao lado da outra, formando um triângulo, todas no mesmo nível, depositadas com cuidado nesse local.
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Fig. 13: o Poço 1, aos 170cm de profundidade, a situação das três vasilhas depositadas na câmara lateral.
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Fig. 14: à direita, últimos momentos da escavação do Poço 1. À esquerda, a estrutura como foi escavada por seus construtores, com pequena câmara lateral para Norte e oeste (a seta tem 20cm de comprimento e aponta para o Norte).
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Nos níveis da base do poço, desde o ponto em que as bordas das vasilhas inteiras começaram a aparecer, apenas raros fragmentos cerâmicos estavam misturados ao sedimento. Abaixo da base das vasilhas, havia ainda aproximadamente 20cm de sedimento também com raros cacos, além de uma placa de bloco de rocha, até alcançar a base original no poço.
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Fig. 15: Gráfico mostrando a quantidade de fragmentos cerâmicos ao longo dos níveis escavados das quadrículas sobre o poço 1 (nível 0-10cm no topo).
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Isso parece indicar que as vasilhas não foram colocadas logo após a escavação da estrutura. Uma hipótese é que o poço, da forma como o encontramos, seja uma re-utilização. Originalmente, então, talvez houvesse uma situação semelhante ao poço do Monte Curu – Cunani (Goeldi, 1900), com vasilhas antropomorfas inteiras depositadas ao fundo. Então, teria havido uma abertura desse poço. Deste contexto primário as urnas seriam retiradas, e uma nova utilização seria feita, com a deposição destas três vasilhas inteiras ao fundo e o posterior entulhamento do poço, inclusive com urnas antropomorfas quebradas com fragmentos ósseos no interior. Uma análise da cerâmica, voltada para morfologia, marcas de uso e alterações pós-deposicionais, associadas à intensiva remontagem e posterior análise espacial (vertical e horizontal) dos fragmentos que saíram do poço deve nos ajudar a compreender melhor o processo de formação desta estrutura.
Poço 2
A área onde posteriormente foi delimitado o poço 2 está localizada junto a uma grande placa de granito em posição horizontal, que media 3,4mx2,6m, junto a um conjunto de megalitos em posição inclinada. A hipótese era de que esta rocha servia também como uma possível tampa de poço funerário, semelhante à que havíamos escavado anteriormente (poço 1).
Foi delimitada uma área de 4mx2m, que cobria totalmente a placa de granito. Foi notado que, nos primeiros 10cm, o depósito era diferente daquele encontrado na escavação do poço 1, principalmente devido a menor densidade de cerâmica e à pouca espessura da camada arqueológica (aproximadamente 20cm no entorno da placa). Em comparação com a densidade de cerâmica encontrada anteriormente no poço 1, foi levantada a hipótese de que, se neste local existisse um poço, ele seria pouco ou não re-utilizado, sem cerâmica concentrada no entorno da “tampa” como no caso do primeiro poço.
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Fig. 16: à esquerda: grande placa de granito antes da escavação. À direita: a mesma placa depois de rebaixados 10cm de profundidade.
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Após escavar todo o entorno da grande placa de granito, ela foi removida de seu local. O sistema para retirada da pedra foi semelhante ao utilizado no poço 1, com a utilização de trilhos de troncos de madeira e movimentação da rocha com alavancas e cordas. Mesmo usando um sistema com alavancas em uma rocha extremamente pesada (a estimativa, baseada na geologia da rocha, é que ela pese cerca de 1,78 toneladas), o impacto foi mínimo às camadas arqueológicas. Apenas pouca perturbação em alguns pontos localizados onde as alavancas forçaram o solo.
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Fig. 17: placas de granito formando uma área levemente circular no nível 10-20 cm.
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A escavação do nível 10-20cm das quadrículas localizadas abaixo da placa de granito removida já permitiram observar uma área levemente circular delimitada por placas de granito, possivelmente relacionadas à abertura de um poço. Entre as placas, foram encontrados grandes fragmentos cerâmicos, sugerindo a existência de duas vasilhas quebradas no local.
Como a maior parte da área aberta já se encontrava no nível estéril por volta dos 20 cm de profundidade, as escavações foram concentradas apenas nas quadrículas 107/93, 107/94, 108/93 e 108/94, onde foi delimitada a estrutura circular formada pelas placas e fragmentos cerâmicos, rebaixando o nível 20-30 cm. Aos 30 cm de profundidade já era possível evidenciar o solo laterítico estéril no entorno da estrutura de rochas.
Após retirarmos todas placas de granito que formavam esta estrutura abaixo da grande laje, no nível 40-50cm, foi possível delimitar a borda de uma estrutura circular escavada na laterita, em cujo interior já era possível identificar as bordas de duas vasilhas cerâmicas, que pareciam estar inteiras. O limite entre a borda do poço e seu posterior preenchimento com sedimentos e vasilhas foi extremamente difícil de delimitar no princípio da escavação. Isto se ocorreu principalmente devido ao fato que o sedimento de preenchimento continha uma grande quantidade de laterita, o que o tornava muito semelhante à parte superior da borda do poço, escavado pelos ameríndios em laterita desagregada. Entretanto, à medida que aprofundávamos os níveis a delimitação se tornou mais clara.
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Fig. 18: a borda do poço e as vasilhas cerâmicas evidenciadas no nível 50-60cm.
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Já no nível 50-60cm, foi possível liberar uma tigela localizada junto a parede sul do poço. Conseguimos, escavando este nível, também evidenciar uma grande tigela com borda incisa. Ao todo, quatro vasilhames já apareciam no nível 60-70cm. Além destas peças, encontramos alguns poucos cacos soltos, alguns visivelmente pertencentes aos mesmos vasos.
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Fig. 19: nível 60-70cm do poço 2, com a exposição de mais vasilhas inteiras e alguns fragmentos.
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Após a retirada destas quatro vasilhas no nível 70-80cm, outras quatro surgiram nos níveis de baixo, uma delas com uma tigela emborcada servindo de tampa. Uma outra tigela carenada estava caída ao lado de uma grande vasilha. É possível que também fosse uma tampa deslocada durante o fechamento do poço, ainda que outra vasilha do mesmo tipo tenha sido encontrada em posição semelhante neste mesmo poço. Também encontramos ao lado de uma das vasilhas grandes um fragmento de machado polido em “pedra verde”.
A tampa que cobria uma das vasilhas quebrou-se, permitindo a observação da vasilha maior. No seu interior, havia um sedimento preenchendo cerca de ¾ do vaso. No topo, este sedimento era avermelhado, enquanto abaixo ele era mais cinza, contendo pequenos ossos calcinados. Não escavamos este sedimento, que ficou no interior da vasilha até o laboratório, seguindo um procedimento padrão utilizado em todas as vasilhas completas encontradas.
No nível 100-110cm, foi notado que as paredes do poço já se fechavam para o fundo, não havendo, portanto, uma câmara lateral. Retiramos, então, as últimas vasilhas depositadas no fundo do poço, realizando a limpeza e a topografia da estrutura, identificando um fundo côncavo.
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Fig. 20: final da escavação do poço 2 com a exposição das vasilhas depositadas no fundo.
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Esta é uma estrutura absolutamente diferente do poço 1, escavado anteriormente, com as peças colocadas com cuidado, umas sobre as outras, sem quebrá-las. A quantidade de fragmentos também é muito menor do que encontrado dentro e no entorno do poço 1. Assim, as observações realizadas desde o início da escavação (como pouca deposição de cerâmica nas áreas externas do poço, pouca cerâmica misturada no sedimento, e vasilhas colocadas inteiras dentro dele) contrastam fortemente com a situação encontrada no poço 1 (onde havia uma grande deposição de fragmentos, urnas funerárias com ossos remexidas e quebradas nos níveis superiores, e deposição de poucas vasilhas inteiras no fundo). Estas observações sugerem que o poço 2 é uma estrutura não re-utilizada, ou seja, ele foi construído, as vasilhas foram depositadas e ele foi fechado, não sendo mais re-aberto e mexido, como o poço 1.
Deposições, Placas e Fossas Possivelmente Relacionadas à Delimitação de Outros Poços.
Em alguns pontos da área escavada foram delimitadas estruturas como deposições de fragmentos cerâmicos, placas formatadas de granito e bordas de fossas escavadas na camada estéril de laterita que, pela sua associação, muito provavelmente se configuram como o topo de poços funerários, semelhantes às estruturas denominadas poço 1 e poço 2 escavadas pela equipe.
A primeira destas estruturas foi delimitada parcialmente nas quadrículas 97/95, 98/94 e 98/95, estendendo-se muito provavelmente para as quadrículas 97/93 e 97/94, que não foram escavadas. Sobre estas duas últimas quadrículas existe uma grande placa de granito formatada depositada em posição horizontal. No final do nível 0-10cm das quadrículas escavadas, foram encontrados muitos fragmentos cerâmicos grandes, cuja configuração e boa preservação fez lembrar a deposição junto ao poço 1. Esta situação continuou no nível seguinte. A grande concentração se adentrava abaixo da rocha formatada presente nas quadrículas 97/93 e 97/94. No canto oeste das quadrículas, foi delimitada uma borda de fosso/poço escavado na laterita, cujos limites precisos não foram passíveis de delimitação por se estenderem abaixo da rochas. Entretanto, no final do nível 10-20cm já era possível delimitar a borda de uma vasilha inteira que se adentrava para o próximo nível, reforçando ainda mais a idéia desta estrutura se tratar de um poço. A estrutura não foi escavada, apenas delimitada até os 20 cm de profundidade e depois tapada novamente para futuras intervenções.
Outra estrutura deste tipo foi identificada nas quadrículas 95/90, 96/90, 97/90, 97/91 e 97/92, onde, durante a escavação do nível 0-10cm, foi evidenciada uma densa concentração de cerâmica no entorno de uma placa formatada de granito. A estrutura também lembra a deposição no entorno da tampa do poço 1. A seqüência da estrutura foi preservada, pois a escavação foi finalizada aos 10cm de profundidade.
Uma última estrutura deste tipo foi delimitada na quadrícula 99/94, onde, no setor sul da quadrícula, foi delimitada, entre os níveis 20-30cm e 30-40cm, a borda de uma fossa escavada na laterita, que se prolongava para baixo de uma grande placa de granito depositada em posição horizontal nas quadrículas localizadas ao norte. A estrutura foi apenas evidenciada e não foi escavada, ficando, desta forma, preservada para futuras intervenções.
Vasilhas depositadas em pequenas fossas
Em diversos pontos da área escavada foram localizadas vasilhas depositadas inteiras em fossas rasas, parcialmente escavadas na laterita estéril, que posteriormente eram forradas com fragmentos cerâmicos antes da deposição das vasilhas.
Uma primeira destas estruturas foi localizada na quadrícula 98/99. No nível 0-10cm, a quadrícula continha uma grande densidade de cerâmica, relacionada à deposição do entorno da tampa do poço 1. No nível 10-20 cm, abaixo da deposição de cerâmica, começou a ser evidenciada uma vasilha de forma globular, boca restringida e apêndices zoomorfos. O que se observou ao escavar esta vasilha foi a existência de uma pequena cova, escavada na laterita, formando uma estrutura onde foi colocada a vasilha inteira. Esta pequena cova foi preenchida nos lados e embaixo por alguns cacos cerâmicos. Sua profundidade máxima foi de 31cm. A estrutura era difícil de ser observada e só foi identificada “na ponta da colher”, ou seja, na retirada das peças, enquanto era escavada. É possível que no nível anterior (10-20cm) a estrutura já estivesse aparecendo, mas sem ter sido notada. A estrutura apenas ficou evidente ao alcançar o nível estéril, quando a base da cerâmica e a fossa se tornaram claras.
Entre as quadrículas 96/98 e 96/99 também foi encontrada uma vasilha inteira. Neste local havia sido evidenciada uma grande deposição de cerâmica nos níveis 0-10 e 10-20 cm. Aos 20 cm foi possível começar a delimitar uma vasilha cerâmica inteira colocada sobre uma pequena cova, sem cacos na volta, e que tinha como profundidade máxima 37cm. No entorno, com o pincel, foi possível encontrar ainda alguns cacos que penetravam no nível inferior (30-40cm).
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Fig. 21: deposição de vasilhas inteiras nas quadrículas 99/94 (esquerda) e 96/99 (direita).
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Na quadrícula 99/94, foi encontrada uma grande densidade de fragmentos cerâmicos grandes no entorno de uma vasilha depositada neste local. A vasilha estava cercada por uma “proteção” de cacos de um mesmo vaso, como se um tivesse sido depositado dentro do outro. Foi notado que a estrutura era formada por uma pequena fossa escavada, com profundidade de 20cm, e recheada de cerâmica antes da deposição da vasilha emborcada.
Deposições de Fragmentos Cerâmicos
Durante as escavações também foi possível delimitar algumas densas concentrações de fragmentos cerâmicos que sugerem deposições intensivas em alguns locais do sítio. Algumas destas deposições são bastante extensas, podendo chegar a mais de dois metros de diâmetro máximo, e 30cm de espessura, enquanto outras são pequenas e restritas, dando a impressão de serem pequenos “caches” de fragmentos envoltos em algum tipo de recipiente orgânico não preservado. Apesar dos trabalhos de remontagem ainda não terem sido feitos, as observações em campo permitem afirmar que estes depósitos foram feitos com o material já fragmentado e misturado, e não vasilhas inteiras depositadas e posteriormente fragmentadas.
Uma primeira deposição foi localizada nas quadrículas 96/99, 97/98 e 97/99. Ela possuía uma extensão de 2,1mx1,5m metros de diâmetros e 30cm de profundidade, tendo uma forma de bolsão, com uma maior densidade de fragmentos localizada entre as quadrículas 96/99 e 97/99. Entre o material cerâmico encontrado destacam-se fragmentos de apêndices em forma de cabeças humanas, macacos e pássaros. Abaixo desta estrutura estava localizada outra, caracterizada pela deposição de uma vasilha inteira em uma pequena cova escavada na laterita, que se aprofundava 12 cm abaixo do nível estéril (a descrição desta estrutura encontra-se na seção acima: Vasilhas depositadas em pequenas fossas).
Outra deposição estava localizada junto à quadrícula 100/97, medindo 1,2mx0,8m e com uma espessura máxima de 8cm, estando localizada quase na superfície do solo atual. Também possuía um formato de bolsão, sendo, porém, com uma espessura mais homogênea que a da estrutura anterior.
Também foi encontrada uma densa concentração de cerâmica no entorno de uma placa de granito em posição vertical, localizada no centro-sul da área escavada, entre as quadrículas 98/94, 98/93, 99/94 e 99/93. A estrutura de deposição de cerâmica cercava a base da rocha, possuindo um formato ligeiramente circular. A deposição media 1,8mx1,7m de diâmetro, possuindo uma espessura máxima de 15cm. Entre o material cerâmico, chamam a atenção fragmentos de vasilhas antropomorfas estilo Cunani, além de muitos apêndices com formas zoomorfas, especialmente répteis, tais como sapos, cobras e lagartos.
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Fig. 22: deposições de fragmentos. À esquerda parte da estrutura localizada nas quadrículas 96/99, 97/98 e 97/99. À direita, estruturas bem delimitadas, semelhantes à caches, na quadrícula 109/93.
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Uma última deposição de cerâmica identificada nas áreas escavadas estava localizada junto à borda do poço 2, abaixo da placa que o cobria, na quadrícula 109/93. Tratavam-se de dois pequenos aglomerados de cerâmica, medindo cerca de 20cm e 15cm de diâmetro. A extrema compactação dos cacos, aliada à perfeita delimitação das estruturas sugerem tratar-se de pequenos “caches” envoltos em algum tipo de recipiente orgânico que se decompôs, como um cesto.
Vasilhas Fragmentadas In Situ
Pelo menos dois pontos na área escavada do sítio AP-CA-18 evidenciaram cerâmicas quebradas in situ. Em ambos os casos estas cerâmicas pareciam estar intimamente relacionadas com placas rochosas em pé.
Nas quadrículas 98/96, 97/96 e 96/96, no entorno de uma placa rochosa que possui um orifício, foram encontrados numerosos fragmentos, formando uma espécie de “tapete” na base da rocha. Estes fragmentos eram claramente remontáveis, indicando a existência de, pelo menos, 3 potes que haviam se quebrado neste local. Foi notado que os fragmentos estavam fortemente erodidos, contrastando com outros fragmentos soltos encontrados no entorno, talvez indicando a exposição das vasilhas às intempéries antes de sua deposição final.
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Fig. 23: à direita, vista para norte da situação da escavação nas proximidades da rocha do orifício. À esquerda, detalhe da deposição de cerâmica nessa área (fragmentação das peças ocorrida in situ).
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Na quadrícula 97/93 foram encontradas mais três vasilhas quebradas in situ, depositadas em um pequeno nicho formado por duas rochas em pé. A posição dos fragmentos sugere que eles foram colocados intencionalmente neste local, já quebrados.
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Fig. 24: deposição de vasilhas entre placas em pé na quadrícula 97/93.
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De forma a sumarizar as principais estruturas descritas acima, nos vários itens apresentados, segue uma tabela com as informações mais importantes de cada estrutura, facilitando o dimensionamento das informações obtidas durante as escavações neste semestre. Em seguida, é apresentado um croqui de localização de cada uma delas na malha de escavação.
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Fig. 25: localização espacial das estruturas nas áreas escavadas.
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Uma Nota Sobre a Cerâmica Encontrada no Sítio AP-CA-18
A cerâmica encontrada é predominantemente temperada com antiplástico mineral, composto por diferentes proporções de quartzo hialino e branco, sendo denominado aqui de areia fina. Alguns exemplares foram ainda temperados com granito moído, dando uma textura bastante grosseira à cerâmica. Fragmentos com antiplástico de caco moído foram também observados.
Uma quantidade considerável dos fragmentos são decorados com apliques, incisões, ponteados e engobo vermelho, mas a grande maioria é simplesmente alisado. Alguns fragmentos policrômicos foram encontrados. Esta vasilha policrômica possui pintura vermelha e preta aplicada sobre um engobo branco.
Os apliques são predominantemente modelados com formas zoomorfas, como pássaros, mamíferos e répteis. Entre estes últimos, destaca-se uma figura de um lagarto, muito semelhante a algumas encontradas em urnas da fase Marajoara. Outro motivo recorrente é o denominado “tema da serpente e do sapo” (Rostain, 1994a), amplamente disseminado na fase Aristé. Foram também encontrados apliques com formas de humanos ou de macacos. A modelagem também foi utilizada para dar forma a rostos humanos aplicados junto à borda das vasilhas, em um estilo bem conhecido para a fase Aristé.
As incisões são comumente associadas com o uso do ponteado e algumas vezes também com o engobo vermelho. Os motivos são incisões paralelas retas e/ou curvas, formando gregas, entrecruzados e espirais. Tais motivos têm ampla dispersão ao longo das bacias do Amazonas, do Orenoco e no Caribe, e foram tentativamente agrupados em uma tradição de “linhas incisas paralelas” (Zucchi, 1991).
Quanto às formas encontradas, foi observado que algumas são muito semelhantes às encontradas por Emílio Goeldi nos poços funerários do Cunani. Entretanto, no sítio AP-CA-18, as vasilhas não possuem pintura policrômica, e sim as incisões, associadas com ponteados e engobo vermelho.
Assim, tendo em vista as características tecnológicas, morfológicas e estilísticas do material, a cerâmica encontrada no sítio megalítico AP-CA-18 é claramente ligada à fase Aristé, contrariando a ligação destas estruturas com a fase Aruã, feita por Meggers e Evans (1957).
Na ausência de datações absolutas para o sítio, podemos, através das características das cerâmicas encontradas, sugerir uma datação relativa baseados na cronologia da fase Aristé proposta por Rostain (1994a) para a Guiana Francesa. A cerâmica encontrada no sítio AP-CA-18, em seus atributos como antiplástico, formas e decorações, é em tudo semelhante à classificada por Rostain como o tipo “Ouanary Encoché”, datado entre os séculos I e X D.C. Assim, tentativamente, sugerimos esta margem cronológica para o uso da estrutura megalítica do sítio AP-CA-18, enquanto as datações não são feitas.
É interessante aqui destacar que em outra estrutura megalítica, no sítio AP-CA-02: Rio Novo 01, a cerâmica coletada junto ao poço saqueado é predominantemente policrômica e com uso de caco moído como antiplástico, ligando-a com o tipo “Enfer Polichrome”, de cronologia mais recente (entre séculos X e XVIII D.C., de acordo com Rostain [1994a; 1994b]). Datações por carbono 14 de ambos sítios possibilitarão verificar a aplicabilidade da cronologia da fase Aristé da Guiana Francesa para as estruturas megalíticas no norte do Amapá.
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Fig. 26: peças cerâmicas do sítio AP-CA-18. Topo e centro, à direita, urnas antropomorfas.
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Fig. 27: peças cerâmicas do sítio AP-CA-18. Incisões a apliques.
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Fig. 28: peças cerâmicas do sítio AP-CA-18. Pinturas e apliques e incisões com figuras zoomorfas.
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Fig. 29: peças cerâmicas do sítio AP-CA-02. No topo, urnas antropomorfas.
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6. Relações entre os blocos de rocha e aspectos astronômicos
Uma das primeiras observações sobre o sítio AP-CA-18, realizada pelo meteorologista José Elias Ávila (COT-IEPA) durante sua primeira visita à área, em Novembro de 2005, relacionava a inclinação de um bloco de rocha com o fenômeno solar do solstício. A sensibilidade deste pesquisador permitiu o desenvolvimento de uma linha de pesquisa que dificilmente seria seguida sem sua percepção.
A partir dos estudos preliminares de Elias, já na primeira visita dos arqueólogos responsáveis por este projeto ao sítio arqueológico foi realizada a primeira observação do comportamento da estrutura em relação ao solstício de Dezembro. Posteriormente, também foram realizadas observações durante o solstício de Junho, e os equinócios de Março e Setembro. Porém, até o momento, as únicas correlações de fato observadas entre a estrutura de blocos de rocha e fenômenos celestes relacionam-se ao solstício de Dezembro.
Ainda que a linha de pesquisa em arqueoastronomia não seja uma especialidade da equipe, os registros realizados até o momento permitem algumas interpretações muito interessantes sobre a utilização deste sítio por seus construtores como um marcador temporal ou observatório astronômico. Neste item, serão apresentadas as observações feitas e as interpretações decorrentes.
Inicialmente, por orientação de Elias, as observações estiveram bastante centradas nos horários precisos de ocorrência dos fenômenos solares em questão: os solstícios e equinócios. Desta forma, a equipe restringiu-se a presenciar curtos períodos de tempo nestas datas. Posteriormente, no contato com literatura especializada, assim como por sugestões do etnoastrônomo Dr. Márcio D´Olne Campos, optamos por fazer observações prolongadas, do nascer ao pôr-do-sol. O que acabou resultando em novas informações.
De acordo com as observações realizadas até o momento, há pelo menos duas correlações entre determinados blocos de rocha e o solstício de Dezembro.
A primeira relação observada foi proposta por José Elias Ávila em Novembro de 2005. Naquele momento, a partir da observação sobre a inclinação de um dos blocos de rocha, Elias propôs que durante o solstício de Dezembro o bloco poderia ficar sem sombra, indicando seu perfeito alinhamento com o sol naquele momento.
A observação desta situação foi então acompanhada pela equipe em Dezembro de 2005, 2006 e 2007, durante o fenômeno do solstício, resultando na confirmação da posição perfeitamente alinhada do bloco de rocha com o sol neste período.
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Fig. 31: durante o solstício de Dezembro de 2005 (21/12/2005), às 14:30, as duas faces do bloco de rocha estavam iluminadas. Note a projeção da sombra para Leste, na espessura do próprio bloco.
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A observação do perfeito alinhamento deste bloco de rocha com o sol favoreceu a interpretação de que este sítio arqueológico teve um uso também como local para a observação deste fenômeno. Considerando ainda o caráter cíclico do solstício, é possível também imaginar que esta data marcasse uma temporalidade para o grupo que utilizava este sítio, servindo também como um marcador temporal concreto.
A continuação da observação sobre a relação entre este bloco de rocha e o sol durante a tarde do período do solstício levou ainda à percepção de que o inclinamento do bloco indicava também a trajetória do sol em direção ao poente. Esta situação pode ser observada na seqüência de fotos apresentada abaixo.
A segunda observação realizada entre o solstício de Dezembro e a estrutura de blocos de rocha surgiu da própria experiência de estar no sítio ao longo dos meses que antecederam o fenômeno. Como a equipe esteve realizando escavações de Agosto a Dezembro de 2006, passando temporadas de aproximadamente 15 dias por mês, foi possível acompanhar o movimento do sol em direção ao sul do Equador. Ainda que estas observações não fossem sistemáticas nem formais, com a proximidade do solstício, começamos a observar em campo que havia grandes possibilidades de outro bloco de rocha (o bloco com o furo) estar voltado para o nascer do sol deste período. De tal forma que quando o momento chegou, estávamos já preparados para conferir essa relação.
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Fig. 32: à esquerda: projeção da sombra do bloco de rocha, durante a tarde do dia 21 de Dezembro de 2006, demonstrando o perfeito alinhamento do bloco com o sol (a sombra parece uma continuação do bloco). À direita: os dois blocos de rocha que se alinham com o nascer do sol no solstício.
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Fig. 33: à tarde do dia 21 de Dezembro de 2006, a trajetória do sol segue a inclinação do bloco de rocha.
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Porém, quando o amanhecer começou a surgir, pareceu óbvio que havia outro bloco de rocha justo em frente ao bloco do furo, o que impedia uma visualização direta. Para surpresa da equipe, no entanto, quando o sol subiu um pouco mais no horizonte, ele apareceu exatamente onde os pontos mais altos dos dois blocos de rocha ficavam alinhados.
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Fig. 34: no dia 21 de Dezembro de 2006, o alinhamento de dois blocos de rocha marca o ponto onde o sol nasce durante o solstício de Dezembro. À direita, os blocos foram delimitados para destacar o alinhamento.
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Apesar da congruência das duas observações, relacionando a estrutura de blocos de rocha com o solstício de Dezembro, conectando ao menos três blocos de rocha nessa relação, consideramos necessário averiguar as possibilidades de deslocamento pós-deposicional dos blocos. Considerando a precisão de suas posições atuais na relação com este fenômeno, optamos por não escavar a base de blocos que estão de pé, de maneira a impedir qualquer movimentação pela fragilização do solo que os sustenta.
Escolhemos, então, escavar a base de um bloco quebrado (uma descrição detalhada encontra-se no tópico 5.1). O resultado foi a identificação de uma estrutura de sustentação do bloco bastante cuidadosa, com a utilização de blocos menores para calçar e posicionar o bloco em pé. Esta situação reforçou a interpretação de que os blocos relacionados com o solstício de Dezembro foram assim colocados propositadamente, e a precisão de seus posicionamentos decorre justamente da intencionalidade em marcar este fenômeno.
Também contribuiu para esta interpretação a escavação realizada no entorno da estrutura que sustenta um dos blocos alinhados com o nascer do sol durante o solstício. Ainda que a escavação nesta área tenha sido restrita aos 10cm de profundidade, foi possível observar a construção da estrutura com o uso de vários blocos menores fixando a inclinação dos maiores.
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Fig. 35: à esquerda: vista sul da estrutura – o bloco mais alto é um dos que está alinhado com o nascer do sol do solstício. À direita: vista norte de detalhe do posicionamento de blocos para sustentar estrutura (note o papel dos pequenos blocos).
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O cruzamento das informações de escavação com as observações em campo no sítio fortalece a interpretação sobre o uso deste sítio arqueológico por seus construtores como um local de observação do solstício de dezembro. Portanto, ainda que o conhecimento de fenômenos celestes seja difundido entre grupos ameríndios, portadores de amplo conhecimento astronômico (Green & Green, 2006, Campos, 2006, entre outros), este sítio arqueológico oferece condições diferenciadas para o estudo do conhecimento sobre o céu por grupos amazônicos antigos. Isto ocorre porque este tipo de conhecimento foi aqui, mais do que utilizado, transformado em cultura material. Este sítio é, desta forma, a concretização de um conhecimento, a transformação de algo tão efêmero como a observação da natureza em uma estrutura sólida e duradoura.
Conclusão
A pesquisa ainda está sendo desenvolvida, mas algumas colocações finais podem ser feitas. As escavações mostraram que o sítio AP-CA-18, como o encontramos hoje, é formado por um intenso palimpsesto de diferentes tipos de deposições e re-trabalhamento de estruturas dentro do recinto megalítico. Uma cronologia precisa de cada um destes eventos é difícil de definir. Estes eventos podem ser assim listados: episódios de abertura de fossas para implantação e fixação de monólitos em específicos alinhamentos e inclinações; diferentes tipos de oferendas de cerâmica no entorno dos blocos (ritualmente mortas, deposição de fragmentos cerâmicos dentro de containers orgânicos não preservados, vasilhas inteiras colocadas aos pés dos blocos); abertura de pequenas fossas para deposição de vasilhas inteiras, abertura de poços de diferentes tamanhos para deposição funerária e o fechamento deles com blocos rochosos em posição horizontal; re-abertura destes poços e re-trabalhamento do material no seu interior, juntamente com a deposição de novas cerâmicas.
Algumas questões continuam não respondidas e devem ser trabalhadas através de mais análises dos dados coletados e também através de futuras intervenções, não só no sítio AP-CA-18, mas também em outros sítios da região. No nível de sítio, uma cronologia da construção da estrutura megalítica deve ser trabalhada, a fim de entender se estes recintos foram construídos em episódios curtos ou se são o resultado de agregação de diferentes monólitos e deposições ao longo de um tempo maior. Isto ofereceria pistas importantes para uma melhor compreensão da escala das sociedades envolvidas na construção destes sítios.
Outras questões só poderão ser trabalhadas após extensivas prospecções e escavações em outros sítios na região. Há uma grande necessidade de entender as ligações entre os sítios megalíticos, enquanto lugares de deposições de mortos e de rituais, e outros tipos de sítios funerários, como cavernas e urnas a céu aberto. Em relação à prospecção, uma distorção na nossa amostragem deve ser corrigida, pois poucas aldeias foram encontradas, contrastando fortemente com a grande quantidade de sítios especiais. Investimentos num futuro próximo devem estar voltados para a datação intensiva da maior quantidade de sítios possível, a fim de obter uma base cronológica precisa para a região. Tudo isto proverá dados para elaboração de um modelo geral para entender os processos culturais que levaram à emergência de uma cultura megalítica na costa norte do Amapá.
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