Trabalho
original de SEMIÓTICA de Henrique Leonor Pina, Aluno
nº 161 do Mestrado em Comunicação Educacional
Multimédia da Universidade Aberta. Lisboa, Janeiro
de 1994. Revisto em 2003.
Investigar,
o que é?
1.
PREÂMBULO
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O trabalho
arqueológico é, essencialmente, o da busca de
significações que os sítios, os espólios
ou os seus vestígios, directa ou indirectamente revelem.
Busca indícios, sinais, signos ou sistemas que procura
entender na sua singularidade ou multiplicidade, estabelecendo
analogias ou oposições, investigando relações
de significação. Quando esse trabalho se efectua
em contextos de sociedades letradas, a significação
dos achados arqueológicos, quer no plano do significante,
quer no plano do significado, pode remeter para a escrita,
cujo entendimento, por sua vez, pode aludir à oralidade
dessas sociedades. Neste caso, mesmo que tais sociedades se
tenham transformado profundamente ou desaparecido, os dados
arqueológicos terão sempre uma tradução
linguística directa ou indirectamente conotada com
referentes escritos e, eventualmente, falados. Mas quando
se trate de sociedades iletradas e desaparecidas, a pesquisa
arqueológica dos referentes da comunicação
linguística extinta terá de socorrer-se de meios
e métodos diferentes se quiser tentar a aproximação
ou o entendimento da realidade evanescente que a oralidade
é sempre.
Não são novas nem sempre recentes as pesquisas
nesse sentido que se têm feito um pouco por todo o mundo,
realizadas ou estimuladas principalmente por antropólogos,
sociólogos, etnólogos e linguistas e a que a
Arqueologia mais tradicionalista tem tido dificuldade de aderir.
Embora a Semiótica tenha comprovado ser um instrumento
pragmático e disponível, a utilização
dos seus métodos ainda está longe de ser frequente.
Mais frequentes e cada vez mais elaboradas têm sido
as metodologias de análise estatística e tipológica
[1], actualmente com recurso a meios informáticos muito
poderosos. Esta metodologia que hoje, com possibilidade de
tratar muito maior número de parâmetros, permite
o que se designa por "análise pericial",
permite uma classificação rápida e clara
de peças arqueológicas. Embora de modo rudimentar,
eu próprio apliquei os princípios básicos
desta metodologia a um corpus de cerca de 200 peças
do Paleolítico, colhidas em Leixões - Matosinhos
- em Agosto de 1961 [2] e, nesse mesmo ano, a outros conjunto
de peças do Eneolítíco, que publiquei
em co-autoria com A. M. Galopim de Carvalho em 1962 [3]. Verifico
agora que parte deste último trabalho pode ser objecto
de um pequeno ensaio de Semiótica, disciplina que tento
pela primeira vez.
Comunidades como as que há cerca de 5000 anos existiram
no Oeste europeu e, mais circunscritamente, no Sudoeste da
Península Ibérica, estão nas circunstâncias
acima referidas: eram iletradas e desapareceram. E, no entanto,
deixaram nesta área um intrincado complexo cultural
que foi designado por cultura megalítica, nomenclatura
que, como se sabe, deriva de elementos e de estruturas ciclópicas,
universalmente conhecidas pelas palavras bretãs dólmen,
menhir ou cromlech. Daí também o nome equivalente
de cultura dolménica para este contexto.
À semelhança do que aconteceu a outros contextos
culturais que a Arqueologia tem investigado, a maior parte
do espólio conservado ou recuperado neste âmbito
refere-se a contextos sepulcrais. No caso português,
estes contextos são, na sua maior parte de antas, mas
também os há de grutas naturais ou artificiais.
Mais recentemente, desde 1964, têm-se assinalado em
Portugal [4] menhirs e cromlechs que, não sendo sepulcrais,
têm importantíssimo carácter ritual.
2.
PRE-TEXTO
Os espaços e os objectos sepulcrais são referentes
privilegiados da memória. O critério que lhes
assegura o privilégio é o de neles e com eles,
estando-se vivo e presente, poder exorcizar-se a morte e a
ausência permanentes. Mas é preciso, de qualquer
modo, dizer aqui jaz, que descanse em paz, porque a palavra
que anima o vivo reanimará o morto. O rito deve manter-se
para todo o sempre. É preciso assinalá-lo.
A lápide da sepultura romana, mesmo modesta, pode ter
pouco mais que o nome pelo ausente mas não deixa, contudo,
de finalizar com o anúncio breve, facilmente identificável,
H.S.E. ( Hic Situs Est = Neste Sítio Está (ou
Aqui jaz) e / ou o voto S.T.T.L. (Sit Tibi Terra Levis = Seja
para Ti a Terra Leve (ou Que a Terra Te Seja Leve). É
a afirmação da presença no lugar da ausência
tal como no nosso jazigo e, de modo geral, no cemitério
(do grego koimêtêrion = dormitório), local
de ausência evanescente.
Pedro, mandando construir, em vida , o seu túmulo e
afrontá-lo com o de Inês em Alcobaça,
"até aa fim do mundo", não só
materializa a presença de ambos como recusa futuras
ausências. Mais do que os corpos ou o que deles reste,
as estátuas jacentes garantirão a permanência
dos amantes, frente a frente, até ao Juízo Final.
Ali estarão ambos, física e iconicamente, atendendo-se
mutuamente, esperando a-presentar-se ante a face divina e
permanecer juntos na Glória. Os arcazes historiados
guardá-los-ão e, durante o sono milenar, falarão
por eles aos presentes e aos vindouros até ao acordar
perante Deus. É essa a sua função de
pedras lavradas. O ícone terá significado, mesmo
que não se decifre a escrita que, eventualmente, o
acompanhe. Ainda que o tempo apague os testemunhos corporais,
ou não permita entender as parcas palavras das legendas,
outros sinais, cujo lavor Pedro vigiou atentamente, cujo rigor
garante , testemunharão por eles. São esses
os poderes dos sinais diversos, das estátuas, dos relevos,
dos gravados que os sepulcros retêm e revelam. Atestam
definitivamente não só a presença mas
também a mensagem, re-presentam não só
os corpos mas também as palavras, que de outro modo
se evolariam. Fixam imagens, cenas, nomes, votos. Negam a
ausência total, esconjuram a redução ao
nada. Para ancorar essa presença eterna, Pedro escolhe
os poderosos mas maternais braços do transepto da igreja,
ladeando cm Inês o altar-mor onde quotidianamente ocorre
o milagre da transubstanciação. E, quando a
trombeta do anjo soar o desejado sinal, ambos acordarão
do longo sono.
Estes locais e objectos preenchem ou completam a função
mnésica opondo-se ao esquecimento, a temida forma de
ausência definitiva, a verdadeira morte. Em tais locais
e com tais objectos a vida permanece na forma virtual enquanto
se mantiverem os ritos propiciatórios. Assim se transformam:
- o local, em campo santo (sacro, sagrado) por oposição
ao profano; - os objectos rituais, em portadores de benefícios
que, quando trespassada a norma ou consumada a profanação
(sacrilégio), reclamam sanções, sacrifícios
e novos actos formais de consagração. Quando
não assegurados, provocarão malefícios;
se abandonados, conduzirão à anulação
do referente.
3.
CONTEXTO
As placas de xisto gravadas talvez sejam as peças mais
atraentes e enigmáticas do mobiliário arqueológico
megalítico. O corpus que aqui vou abordar proveio dos
trabalhos de pesquisa realizados numa anta situada a pouco
mais de 10 Km. de Évora.
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Este modesto
mas importante monumento faz parte de uma riquíssima
região da cultura megalítica alentejana onde
se localizam outros diferentíssimos, nomeadamente os
menhirs e os cromlechs atrás referidos. As placas são,
pois, apenas alguns dos elementos significantes deste monumento
que, por sua vez, se relaciona topológica e culturalmente
com muitos outros num complicado sistema de significações
ainda muito mal conhecido.
O corpus é constituído por elementos cuja feitura
e utilização pode ter-se alongado por séculos.
De facto, a anta foi utilizada em múltiplas cerimónias
funerárias, tendo sido deslocados, de cada vez, os
espólios precedentes. As plantas (P1,P2,P3 e P4) e
quadros (Q1,Q2,Q3) em anexo facultam indícios topológicos,
provavelmente significantes, como, aliás, o próprio
monumento.
A anta (P1), por derivação da forma latina antae,
significando "pilares laterais de uma porta", é,
em si mesma, uma construção específica
como a sua nomenclatura reflecte: distinguem-se, desde logo,
as categorias interno/externo e, eventualmente, privado/público.
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Esta construção
tem, um pequeno espaço central bem assinalado como
local de fogo ritual, mas ocupa, ela própria, o interior
de um outro espaço (a mamoa ou tumulus, P2) delimitado
por um murete consolidado.
O objecto global constituído pelo tumulus, agora parcialmente
desfeito, demarcava rigorosamente o espaço não
só sacralizado mas também feminino, avultando
como um ventre e contendo o sepulcro como um útero,
ele também um continente, comunicando codificadamente,
com o exterior. Com efeito, o monumento alonga-se por um corredor
para Leste, dirigindo a estreita entrada não a todo
o amplo espaço circundante, mas oferecendo-a, selectiva
e quotidianamente, à luz vivificante do Sol Nascente.
Este arquétipo que se repete invariavelmente em todas
as construções megalíticas e, de um modo
geral, sacras, remete assim para o Sol, o Criador, o Divino.
No caso concreto deste monumento (P3), aponta também
para indícios revelam dados cronológicos que
se referem à época anual da edificação
. Assim, a erecção da primeira pedra (o esteio
a) e a orientação sua linha com o que viria
a ser o corredor (que constitui o eixo de toda a construção)
apontam para E15ºS. Isto permite situar o início
da construção na metade do ano entre o equinócio
(orientação E) do Outono e o da Primavera. À
nossa latitude, nessa época, as auroras deslocam-se
cada vez mais para Sul atingindo o máximo (cerca de
E28ºS) próximo do solestício (Natal). É
o que sugere a torção nesse sentido do eixo
do corredor, logo a seguir á câmara. Pelo contrário,
a inflexão num sentido ligeiramente inverso, aponta
para que a sua conclusão teria ocorrido durante o Inverno,
quando o nascer do Sol volta a deslocar-se para Leste, o ponto
equinocial da Primavera.
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O monumento
detém toda uma série de referentes (significantes
e significados topológicos e culturais) susceptíveis
de introduzir, por sua vez, significações em
todos os materiais que lhe estão associados, embora
este trabalho não se destine a tratá-los exaustivamente.
Há, porém, que ter em conta que "os objectos
topológicos realizados (como é o caso deste
monumento) são frequentemente complexos e ambíguos",
o que deriva da "solidez durável do seu significante,
do facto de que a sua "mensagem"... é o produto
de uma comunicação mediatizante, por oposição
à palavra imediata" [5].
É, pois, neste contexto próximo, complexo e
ambíguo, que informa todos os materiais arqueológicos,
que se situam os objectos sobre os quais principalmente nos
debruçamos, as placas de xisto gravadas.
4.
AS PLACAS DE XISTO GRAVADAS
A descrição
individual ou o tratamento relacional destas peças
consta dos quadros Q1, Q2, Q3 e das gravuras (no CORPUS, em
anexo) a que me referirei na oportunidade. Por razões
metodológicas aludirei primeiramente à sua posição
no monumento, depois aos aspectos formais dos objectos (como
suportes de decoração) e, finalmente, aos aspectos
decorativos em si mesmos.
4.1
POSIÇÃO
A planta P4 permite uma visão sincrética do
posicionamento das placas. As convenções aí
incluídas constituem, naturalmente, o código
visual parcialmente correspondente ao quadro Q1 no qual introduzi
um novo código alfanumérico: Co1= 1ª parte
do corredor (do lado da entrada); Co2= 2ª parte do corredor;
Câ1= 1ª parte da câmara; Câ2= 2ª
parte da câmara. Podemos, pela planta e pelo quadro,
verificar que, embora a profundidades diferentes, das 34 placas
com localização segura, 30 (88%) se agrupam
no corredor e na metade leste da câmara.
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Alguns
depósitos indiciam mesmo cuidados especiais que têm
que ver quer com o agrupamento, quer com a posição
na horizontal que considero indicador de último depósito
ao mesmo nível estratigráfico, num espaço
topográfico diminuto [6][ Deve ter-se em conta que
o solo (parte inferior do monumento) sofreria frequentes alterações
do seu plano superior, quer por "arranjos " ocasionais
devidos à utilização sepulcral, quer
devidas à acumulação de terras derivadas
de escorrimentos hídricos (chuvadas, por exemplo) ou
de quedas meramente gravitacionais do materiais finos que
eram parte da composição da mamoa . Por isso,
as inclinações das placas são aleatórias
entre 0º e 55º mas a posição horizontal
(0º) parece corresponder a um último "arranjo",
antes da superfície ser, de coberta por depósitos
que "selariam" essa posição. A horizontalidade
é, pois, a meu ver (e nestas circunstâncias)
um significante cronológico relativo]. Foram deixadas
na posição horizontal as placas nº 5, ao
nível mais profundo (cerca de 95 cm.), nº 12,
um pouco mais acima (c. 85 cm), nº 18 e 19 a cerca de
75 cm e, no penúltimo nível arqueológico
(c. 65 cm) , as placas n 25 e 26 (juntas) e 29 e 30 (também
juntas). O facto de estes pares de placas terem sido depostas
cuidadosamente cruzadas e com as superfícies gravadas
voltadas uma para a outra parece ser um novo significante.
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Os maiores
agrupamentos do lado Leste da câmara e, sobretudo, na
1ª parte do corredor, podem ter carácter significante,
sem que o significado seja perfeitamente explícito.
Contudo, o esvaziamento quase completo da parte ocidental
da câmara e a as acumulações de peças
junto aos esteios e à entrada do corredor, poderiam
relacionar-se simplesmente com a necessidade de arranjar espaço
para o depósito dos despojos mortuários e o
desejo de salvaguardar as peças de mobiliário
fúnebre anteriormente deixadas. Com efeito, a associação
ao arquétipo morte-ocidente e à sua oposição
vida-nascente, poderia viabilizar esta interpretação.
4.2
ASPECTOS FORMAIS
Do conjunto de 31 placas completas ou inteiramente reconstituíveis
que constam do quadro Q2 e do CORPUS, é não
apenas possível mas obrigatório anotar significações
no que respeita a características e parâmetros
verificáveis, embora não especificamente decorativas.
O material de que são feitas as nossas placas (e, de
um modo geral, a quase totalidade das placas até agora
referenciadas) é o xisto duro, negro ou de tons de
cinzento, que se designa por ardósia. Só num
caso o material é um xisto diferente, mais brando,
de tom claro, esverdeado, donde resulta a denominação
de xisto clorítico. Deve assinalar-se que a ardósia
é estranha à constituição geológica
da região em causa, embora ocorra a cerca de 60/70
Km. para Oeste, junto ao Guadiana [7] e que o xisto clorítico
é uma forma alterada da ardósia e ocorre com
frequência nas mesmas jazidas. No entanto, este último
material só se revela, nesta anta, em duas peças,
a placa nº 14 e o berloque a que atribuímos o
nº 38 e que julgamos contemporâneo da placa por
corresponder ao mesmo nível estratigráfico.
Ora este berloque tem a forma geral e o tratamento formal
das placas, embora sem decoração. É,
claramente, uma miniatura não decorada das placas mais
frequentes e, atendendo ao tipo de decoração
sobre este tipo de material, nitidamente diferente da generalidade,
poderemos tomar o material como significante provável
e alguns aspectos decorativos como significado de um outro
significado. As placas têm uma forma geométrica
trapezoidal que, independentemente da decoração
ou do tamanho, lhes confere um certo "ar de família".
A forma genérica é, nesta óptica, um
invariante, não obstante a sua oscilação
entre o "tendendo para o triângulo" (nº
2) e o "quase rectângulo" (nº22) ou o
"ovóide" (nº 19) [8]. A forma das placas
opõe-se radicalmente a uma outra que se referencia
no anexo com o nº 40 e que designamos com o nome de báculo.
Esta peça singular, além de ser igualmente de
ardósia, ostenta decoração idêntica
à de algumas placas e por esse aspecto se lhes assemelha.
As
áreas geométricas que definem o tamanho global
das placas são muito variáveis. A menor delas
(nº 5 = 77cm2) é apenas 1/3 da maior (nº
4 = 238cm2). Contudo há grandes probabilidades de serem
coetâneas, se tomarmos como bom o indicador topológico.
Com efeito, a placa nº 5 foi encontrada na posição
horizontal sobre a placa nº 4, ambas a cerca de 90 cm
de profundidade. Parece, assim, que, diferentemente da forma
genérica, a área não teria carácter
de significante.
Já
os orifícios [9] têm, entre outros, o significado
de orientadores. Reforçam a oposição
superior/inferior assinalada igualmente pela distinção
geométrica base maior/base menor que propõe
uma dada leitura do objecto, além da que é proposta
pelos sinais gráficos que adiante referirei.
4.3 ASPECTOS DECORATIVOS
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Os aspecto
decorativos das placas que constituem o nosso CORPUS, constam
do quadro Q3 e das gravuras. As decorações,
no nosso caso, existem apenas numa das faces das placas e
é este o caso largamente mais frequente. Contudo há
vários casos de decoração bifacial que,
por serem de grande importância semiótica, referirei
adiante. Numa primeira abordagem, chamarei parte superior
da placa a que é contígua à base menor
e que contém o(s) orifício(s) quando existe(m).
Esta parte tem normalmente uma zona central, quase sempre
não decorada (se não considerarmos o orifício
como decoração), tendo tal zona a forma geral
de triângulo invertido ou de figura dele derivada. A
esta zona chamaremos, por razões culturais, a cabeça
da placa. A parte superior inclui, portanto, a cabeça
e as decorações limítrofes laterais.
No seu conjunto é decorativamente diferente da parte
restante e ocupa, habitualmente, cerca de 1/3 da altura da
placa, se considerarmos como seu limite o vértice da
cabeça ou qualquer outro elemento de decoração
divisória colocado na posição horizontal.
Ao resto da placa, abaixo da divisória chamaremos,
naturalmente, parte inferior.
4.3.1
A DIVISÓRIA
A divisória entre as partes está claramente
presente em 91% dos casos porque se trata de um significante
muito importante na leitura das placas. Acima e abaixo da
divisória as decorações são diferentes
quer em temos de padrões, quer nas suas formas de associação.
Os próprios padrões das divisórias podem
mesmo variar: mais frequentemente assimilam padrões
da parte superior, mais raramente, padrões da parte
inferior, outras vezes padrões diferentes.
Algumas
vezes são uma simples linha divisória, outras,
faixas não decoradas e outras ainda faixas redobradas
mais ou menos complexas. É uma forma decorativa mais
ou menos redundante mas claramente afirmativa da oposição
superior/inferior. No caso da placa nº 1, em que a divisória
é duvidosa ou não existe, a cabeça e
o orifício orientam ainda a leitura, tal como sucede
na placa nº 14 em que a divisória está
ausente mas a cabeça não. No entanto, no caso
da placa nº 19, em que a divisória e (talvez)
a cabeça estão ausentes, a decoração
é uniforme e a própria forma da placa é
ovóide e, por isso, ambígua (não se pode
dizer que haja base maior ou menor). O único elemento
seguro de orientação, é o orifício.
Vemos, deste modo, que vários indicadores apontam a
oposição superior/inferior e que a sua distinção
parece de grande importância significante.
4.3.2
A PARTE SUPERIOR
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A cabeça
é, seguramente, um dos espaços com maior valor
simbólico. Por isso parece muito interessante que seja
um espaço normalmente não decorado com grafitos
e, por outro lado, sempre ladeado deles. No nosso corpus,
só uma placa infirma esta regra, a nº29, sendo
decorada na cabeça com um triângulo em posição
central ladeado de dois orifícios. Embora não
seja único no universo das placas conhecidas, casos
como este são sempre excepcionais ou muito minoritários
nos conjuntos em que se integram. Este tipo de decorações
assume, pois, carácter denotativo no sistema semântico
que as placas constituem.
Os lados da cabeça são decorados com motivos
sempre simétricos ainda que diversos. A meu ver, tal
simetria confere a toda a parte superior um carácter
de unidade no conjunto, que pode explicar que a zona central
não seja, normalmente, decorada. Por efeito gestáltico
a cabeça destacar-se-ia como forma no fundo decorado.
Parece, pois, duplamente significante, esta zona da placa.
4.3.3
A PARTE INFERIOR
A decoração da parte inferior tem, regra geral,
um carácter mais uniforme e monótono em cada
placa. Contudo, o conjunto das decorações do
corpus é muito diversificado, embora haja casos de
repetição muito aproximada dos motivos e padrões.
Por estas razões, a decoração da placa
nº 22 avulta como excepção.
Com efeito
esta placa apresenta na parte inferior uma faixa lisa de subdivisão
que, por sua vez, apresenta dois pequenos sinais que não
mais voltam a encontrar-se. Por outro lado, os motivos de
decoração (triângulos invertidos) são
também anómalos relativamente ao padrão
triângulos que se apresentam, na generalidade, direitos.
Noutro
caso, o da placa nº 15, aparecem igualmente triângulos
invertidos mas por oposição triângulos
direitos subjacentes o que sugere, aqui também, uma
subdivisão da placa, neste caso por uma linha. Um último
caso de subdivisão clara é o da placa nº
12, com uma faixa que repete, com menor altura, os motivos
do triângulo direito da parte de cima e da parte de
baixo. Ao contrário do que sucede com a divisória
entre a parte superior e a parte inferior, esta apenas distingue
dois campos que parecem não ser antitéticos.
Alguns conceitos operativos estritos que parecem de carácter
normativo condicionam o trabalho de decoração,
em geral, mas nesta parte inferior da placa em particular.
São eles a repetição, a simetria e a
orientação.
A repetição e a simetria são invariantes.
A orientação da disposição dos
motivos, embora com variantes, excepções e combinações
indicia significação notória. Essa orientação
é definida pela oposição vertical/horizontal.
Com duas excepções radicais, a disposição
dos motivos, independentemente da natureza dos padrões,
é horizontal (78,4%). No caso específico da
placa nº 3 com o padrão xadrez (único =
2,7%, no corpus e raro no universo conhecido = menos de 10%)
é evidente que não podemos decidir entre horizontal
e vertical porque as linhas de apoio da composição
são ortogonais. Em 5 outros casos (13,5%) há
ocorrência de linhas verticais de apoio para linhas
quebradas mas estas desenvolvem-se em continuidade horizontal.
Nas placas que assentam a sua decoração em linhas
de apoio de traçado linear e horizontal, ou seja, em
20 (54%) das ocorrências, os motivos são sempre
triângulos que apresentam algumas variantes.
Nas decorações sem linhas de apoio horizontal
ou vertical (5 casos = 13,5%) os motivos são sempre
dispostos na horizontal e constituídos por faixas contínuas
em zigzague, também com variantes. Considerando que
as linhas quebradas poderão ser igualmente variantes
das faixas em zigzague, teríamos 10 ocorrências
deste padrão ou seja 27% dos casos.
As duas excepções à regra são
de orientação vertical inequívoca e os
seus padrões são também singulares: a
placa nº 14 com faixas largas preenchidas com trama cruzada,
alternando com faixas lisas (não decoradas); a placa
nº 35, de que só há um fragmento da parte
inferior, decorada com faixas continuas de tracejado simples
(não cruzado) formando um conjunto em espinhado.
4.4
CONSIDERAÇÕES SOBRE A DECORAÇÃO
Seria possível uma análise muito mais aprofundada
das decorações. Essa tarefa parece descabida
neste trabalho. Desejaria, contudo, chamar ainda a atenção
para alguns aspectos cuja natureza significante deve ser realçada.
Um caso limite é protagonizado pela placa nº 19
que, de certo modo, é a antítese de todas as
outras. Além de ser a única cujo material é
o xisto clorítico que lhe confere uma cor e uma dureza
completamente diferentes das restantes, a sua forma ambígua
e a sua decoração simultaneamente ambígua
e fruste tornam-na singular no corpus e, por isso mesmo, de
importante significação no sistema sígnico
que estas placas constituem. Acresce que foi deixada na câmara
a muito curta distância da placa nº 22 que acima
referi pela forma e decoração anómalas
ambas deixadas na posição horizontal.
Ambas as placas apontam para transgressões da norma,
no que respeita à forma trapezoidal, ao material, aos
padrões decorativos. A transgressão não
é ainda completa. O material não é completamente
diferente e está lá o orifício e, talvez,
a cabeça. Mas as formas e as composições
decorativas infringem o que parece serem os cânones.
A dinâmica destas transformações está,
aliás, patente em todo o corpus. Em conjuntos similares
do ponto de vista decorativo com o motivo triângulo
(por exemplo nº 2, 5, 6 e 7, ou 23, 24, 25, 26, e 27)
há enormes diferenças no tamanho das placas,
no número de fileiras de triângulos, nas faixas
de separação e das decorações
da parte superior e, se considerarmos a placa nº 29,
de padrão semelhante, a própria cabeça
decorada e dois orifícios. Todos estes factores são,
seguramente factores de comunicação intencional
dentro do que reputo ser um sistema elaborado e complexo de
significações que, a 5000 anos de distância,
ou se perderam ou são difíceis de descodificar
e, sobretudo, de compreender.
Podemos, no entanto e desde já, enumerar algumas constatações
que resultam objectivamente da análise até agora
feita.
1. A natureza do suporte e a forma do registo revelam iniludivelmente
a preocupação da duração da mensagem
inscrita na placa.
2. A forma do suporte, cuidadosamente trabalhado, recusando
as formas e as superfícies naturais para os gravados,
boleando os ângulos e as arestas e conferindo-lhe a
feição regular que ostenta, alude a um estereótipo;
é variável mas não é totalmente
arbitrária.
3. A execução do gravado obedece a normas gerais
mínimas de composição; desenvolve-se
com alguma liberdade mas parece submeter-se a regras ainda
não descodificadas.
4. O desenvolvimento da composição faz-se de
cima para baixo, a partir da base menor do suporte e da zona
central para as laterais; a linearidade é a regra geral
.
5. Os ritmos dos motivos são regulares, repetitivos
e breves.
6. Os motivos, na sua maior parte, parecem arbitrários;
a escolha, porém, é limitada.
7. Os orifícios foram abertos posteriormente à
gravação (por isso não estão centrados
relativamente à cabeça; noutros exemplares que
não os do corpus há testemunhos de destruição
de gravações já feitas); quase sempre
apresentam vestígios de uso em suspensão que
indiciam outro uso além do de espólio funerário.
8. Algumas peças do corpus apresentavam indícios
de desgaste das decorações e, pelo menos num
caso (nº 25), de "afeiçoamento por afago
frequente" da fractura, antes de novo depósito.
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5.
ALGUMAS CORRELAÇÕES
O tratamento relacional e o enquadramento cultural das placas
de xisto é um tema muito mais amplo, complexo e controverso
do que o seu estudo descritivo, como o que até agora
fiz, salvo algumas referências introdutórias.
Não cabe aqui trabalho desse fôlego, mas parece-me
indispensável estabelecer breves correlações
com outros materiais similares, quer deste monumento, quer
de outros do mesmo contexto cultural. Permaneceremos na região
arquelógica eborense embora seja indispensável
fazer uma ou outra referência um pouco mais longínqua
.
Para viabilizar o entedimento da leitura, fui mostrando pequenas
figuras ao longo do texto. Mas juntei em anexo cópias
da documentação gráfica pertinente de
que disponho, além das necessárias notas bibliográficas.
5.1
TRÊS PEÇAS DO CONTEXTO PRÓXIMO
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Em 4.2
fiz referência a uma placa miniatural, de xisto clorítico,
sem decoração e com dois orifícios no
topo superior. Consta do inventário e das gravuras
com o nº 38 e foi encontrado ao meio do corredor pouco
depois da entrada, muito perto das duas outras peças
que quero referir, mas a nível ligeiramente diferente
(c. 75cm). A identidade tipológica com as restantes
placas é incontroversa. O material é o mesmo
da placa nº 19 e a ausência de decoração
pode ser entendida com ou como um passo mais e extremo na
transgressão da norma da figuração ou
(o que parece mais provável) como representante de
um signo diferente, talvez do mesmo sistema. De facto, na
Anta 1 do Passo (Reguengos de Monsarás) surgiu igualmente
um pequeno berloque, inteiramente decorado, como uma placa
miniatural (PA 17) [10].
A nível superior (c. 65cm) surgira já uma outra
pequena peça de ardósia (VE 39) com fracturas
nos topos mas permitindo a sua interpretação
total por analogia com outras do contexto dolménico,
como adiante veremos.
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É
um elemento estranho aos contextos em que aparecem as placas,
eventualmente oriundo da Andaluzia Oriental ou da região
de Huelva, onde é relativamente frequente. O material
é o mesmo da generalidade das placas mas, com este
material, raríssima (até 1962, apenas eram conhecidas
duas ocorrências, uma OP 76 [11] e apenas mais uma [12])
num contexto em que as placas de xisto trapezoidais se contam
por milhares). VE 39 não tem decoração
gravada mas assume (quando completo) uma forma antropomórfica
com cabeça destacada (neste caso em falta, por fractura,
mas com os ombros bem marcados). A chamada cintura é
bem acentuada, o que, no conjunto, explica a terminologia
analógica que lhe é tradicionalmente aplicada.
No plano formal esta peça alude a vários signos
que se relacionam quer com o corpus, quer com o universo dos
espólios megalíticos ou dolménicos. Além
do material de que é feito, pode esclarecer a forma
anómala da placa nº 22, no que se refere à
cintura apontada no contorno e traduzida numa faixa lisa a
esse nível da decoração, qualquer que
seja o sentido que possam ter os dois enigmáticos grafitos
rectangulares que, cumulativamente, comporta. Também
a cabeça, simbolicamente representada pelo triângulo
liso (ou trapézio?) invertido no topo superior das
placas é correlata com a do ídolo. Embora no
nosso corpus a cabeça tenha sempre essa forma virtual
relativamente ao contorno das placas nas placas do Alto Alentejo,
esse elemento da composição, na sua forma saliente
ou apontada com recortes no topo superior, revela-se em cerca
de 8% das ocorrências [13]. É, pois, independentemente
de qualquer relação anatómica, um significante
de interesse.
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A última
peça desta anta a que me referirei é designada
por báculo e correlaciona-se com as placas sob várias
perspectivas, além da do local de depósito.
O material é ainda o xisto ardosiano e as decorações
são tipicamente semelhantes e só numa face.
A forma é radicalmente diferente. O seu número
não está contabilizado, mas calcula-se que não
ultrapasse os 5%, relativamente ao total de placas e não
há regularidade de ocorrências nos contextos
que contêm placas. Umas vezes simplesmente não
ocorrem, outras vezes ocorrem em espólios relativamente
pequenos [14], outras em espólios numerosos e variados
[15]. Quase sempre surgem em contextos dolménicos alentejanos
mas também se estende à Andaluzia ou espaços
sepulcrais coevos de grutas naturais ou artificiais do litoral
atlântico. São peças notáveis de
grande variabilidade dimensional e decorativa. Quando completos,
a extremidade oposta à ansa, não é decorada,
e , por isso, designada como punho. Como o báculo deste
espólio (VE-40) estava já fracturado, só
conhecemos a parte da ansa. Foi encontrado a cerca de 85 cm
de profundidade, junto à entrada do corredor, não,
exactamente, ao nível do primeiro depósito,
mas imediatamente acima, no mesmo estrato das placas nº
12, 13, 14 e 15, numa pequena zona que já servira de
depósito a peças mais "antigas" e
onde vieram a ser depositadas ainda peças mais "recentes".
Este lugar "privilegiado", não teria sido,
porém, o do primeiro depósito. Vários
indícios sustentam esta hipótese. Um deles é
exactamente a sua localização em sítio
de acumulação, outros são também
a ligeira inclinação dos depósitos e,
eventualmente, a fractura antiga.
A associação do báculo ao ídolo
e, talvez, ao berloque poderá ser igualmente significante.
A lição da Anta 1 do Passo, acima referida a
propósito do berloque pode ser elucidativa. O espólio
desta anta forneceu exactamente 2 báculos miniaturados
(PA-03 e PA-04) cada um com um orifício na extremidade
do chamado punho e (não menos interessante) com a decoração
executada a partir deste topo ficando não decorada
a ansa. A associação parece, pois, razoável
e neste exemplo parece, uma vez mais, estar-se em presença
de transgressões à norma da decoração
ou à sua aplicação inversa o que talvez
seja mais o caso [16]. As relações ampliam-se
e complicam-se e com elas as significações com
evidentes significados cujo conteúdo ignoramos.
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5.2
OS MODELOS
A oposição cumprimento/transgressão a
que nos referimos anteriormente implica directamente os conceitos
operativos de padrão, de norma, de lei, de regularidade
(de um modo geral), mas também (e entre outras) para
a oposição semelhança/diferença,
que por sua vez, implica os conceitos de identidade, de originalidade,
de homologia, de homotetia, etc., etc., e propõe a
questão do modelo qualquer que ele seja.
Independentemente do problema da relação cronológica
(prioridade, simultaneidade ou posteridade de tal ou tal tipo
de placas) que sempre tem dividido os arqueólogos e
suponho não ser relevante para a busca das significações,
limitar-me-ei a apresentar alguns exemplos de peças
exteriores ao corpus que, não obstante, tomo como seus
denotadores.
A hipótese é a seguinte: se for possível
apresentar outros exemplares de placas que possam transformar-se
em significados do nosso corpus, operacionalmente considerado
uma forma de expressão como a linguagem, poderemos
afirmar que os novos elementos, indepentemente das relações
que possam ter entre si, são elementos de tipo metalinguístico
relativamente aos primeiros [17]. Tentemos o ensaio.
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A placa
de xisto da Gruta do Cabeço da Ministra, região
de Alcobaça (G15 [18] e G16,nº 4) [19], não
obstante alguns aspectos esquemáticos, assume um claro
significado icónico relativamente à figuração
humana. Enquadrada em contexto de mobiliário arqueológico
equiparado ao chamado megalitismo, esta placa apresenta elementos
formais e decorativos que permitem descrevê-la como
um busto humano, com pormenores significantes. A cabeça,
onde as sobrancelhas cerradas definem os espaços oculares
marcados por dois orifícios simétricos sublinhados
por traços sobre ambos malares, está bem destacada
do tronco. Dos ombros cai, sobre o peito e as costas, uma
banda decorada. A parte inferior do busto é rematada
por uma orla de triângulos de vértices apontados
para o centro figura, quer no peito, quer nas costas. Outro
exemplar, da Gruta da Galinha, concelho de Alcanena [20],
apresenta caracteres semelhantes.
Uma placa
da Anta do Couto de Vale Magro - Crato (G17, nº1) [21]
assume a forma geométrica genérica trapezoidal,
com a cabeça destacada do tronco, mas não decorada,
salvo dois orifícios simétricos no topo superior.
Os ombros não estão decorados mas todo o resto
do tronco está monotonamente coberto de filas de triângulos
direitos. Este modelo de placa de cabeça recortada,
repete-se com pequenas variantes decorativas, mas com a cabeça
inteiramente lisa e sem orifícios PA-05, na Anta 1
do Passo (Reguengos de Monsaraz) [22]. Nestes exemplares,
o carácter eventualmente icónico, sendo ainda
claro em termos formais, já nem sempre o é em
termos decorativos tomando, por isso, carácter meramente
simbólico.
Ainda no concelho do Crato, na Anta do Couto dos Enchares,
uma outra placa (G18, nº1) [23] virá introduzir
novas variantes decorativas que estabelecem pontes de significação
dos motivos eventualmente lidos como aparentemente abstractos
e meramente geometrizantes das placas do nosso e de outros
corpus. Para além dos pormenores da cabeça saliente
e dos olhos perfurados, esta placa introduz não só
uma faixa contínua na região facial mas acrescenta-lhe
um triângulo decorado e invertido, raro em tal posição.
Por outro lado, ao nível do peito o tema do triângulo
liso invertido ladeado de faixas oblíquas, que, nas
placas trapezoidais sem recorte surge sempre no topo superior
e se identifica com a cabeça, aparece aqui em posição
e com conotação obrigatoriamente diferentes.
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A placa
da Anta da Tapada das Lages das Peles [24] (G17,nº2),
também do Crato, coloca uma situação
inversa às anteriores: a cabeça não está
destacada do tronco mas está separada dele por uma
faixa lisa (não decorada). Os ombros não assinalados
e a decoração do tronco apresenta apenas quatro
filas de triângulos direitos. A cabeça, porém,
está decorada: dois orifícios simétricos
substituem os olhos e a face está dividida por uma
linha vertical ladeada dos traços sobre os malares.
Esta cabeça cuja decoração está
drasticamente reduzida a sinais simbólicos revela ainda
com clareza a figura humana. Também a decoração
do tronco é esquemática. Apenas os triângulos
das faixas superior e inferior estão decorados a traços
largos não cruzados e os das duas faixas intermédias
estão vazios.
Um outro
tipo de placas, as placas "oculadas", contribuem
com novos significados que enriquecem enormemente a função
metalinguística deste novo sistema.
Para regressarmos à área geográfica próxima
da Anta da Velada das Éguas, o concelho de Évora,
referirei agora a placa da Anta de Cabacinhos, São
Mansos - Évora (G19). Trata-se de uma pequena placa
que, por razões diferentes das deste trabalho, publiquei
em 1971 [25]. É uma placa de forma trapezoidal, não
recortada e decorada em ambas as faces. A decoração
é particularmente cuidada com motivos cujo fundo é
reforçado por uma densa trama quadriculada.
A face anterior apresenta a cabeça não só grande relativamente ao tronco (quase 1/2 da placa) mas perfeitamente
destacada deste por uma faixa separativa horizontal e o tronco
subdividido por uma faixa lisa e com temas diferentes.
Os grafitos da cabeça são simétricos
relativamente ao nariz, já sugerido na placa da G17,
nº 2 e aqui reforçado com as narinas triangulares.
Convergem para o nariz espessas sobrancelhas que se sobrepõem
a dois olhos "solares", radiados, com pestanas recurvas
e as pupilas reforçadas com incisões profundas.
Do nariz divergem três faixas sobre a região
malar. Como elemento de novo significante devemos considerar
os dois orifícios no topo superior que aqui não
substituem os olhos, nem os reforçam; sobrepõem-se
às sobrancelhas, juntam-se à faixa que prolonga
o nariz e foram abertos após a decoração
gravada que, em parte destruíram.
Os motivos gráficos do tronco dispõem-se na
horizontal e são de tipos diferentes uns dos outros
acima, uma faixa larga de linhas quebradas em aspas apoiadas
numa linha mediana. Em baixo duas filas de triângulos
invertidos e na orla inferior uma bordadura, uma faixa larga
quadriculado que se repete homologamente na face posterior.
A face posterior é, basicamente, decorada em forma
de moldura com faixas largas quadriculadas. Aqui, porém,
surge um elemento novo: da banda superior, no eixo vertical,
duas faixas estreitas e paralelas pendem até meio das
"costas".
Este "modelo" exógeno ao nosso corpus, qualquer
que seja a relação temporal com ele, parece-me
particularmente importante do ponto de vista semiótico.
Para melhor entendimento, devo referir que também ele
tem variantes que lhe potencializam a significação.
Georges Zbyzewsky [26] publicou em 1957 um breve estudo sobre
duas placas muito semelhantes que constam da G20 , nº 1 e 2 e que passo a referir.
A placa nº 1, A-B, é oriunda de Rosal de la Frontera,
província de Huelva, região igualmente dolménica,
contígua e próxima da região alentejana.
A placa nº 2, C-D, proveio de um areeiro da Quinta da
Farinheira, no Vale de Chelas, na região de Lisboa,
onde foi encontrada em contexto não esclarecido, mas
com vestígios de enterramentos eneolíticos.
O que importa, para o nosso caso, assinalar é a semelhança
formal e decorativa de espécimes tão dispersos
que, não obstante algumas diferenças, parecem,
elas sim, terem um protótipo comum. Revelam-no os gravados
das cabeças e os orifícios superiores e as faixas
pendentes das costas, mas também os triângulos
invertidos, independentemente de algumas outras diversidades.
As placas de Huelva e de Lisboa, esclarecem mesmo que as fitas
pendentes devem derivar de uma faixa de cabeça não
assinalada à frente. Do mesmo modo, a placa de Huelva
repete o tema das narinas triangulares da de Évora
e o tema das três faixas faciais, que na de Lisboa são
apenas duas. Nas três placas o campo inferior é
sempre delimitado em baixo, com temas que se repetem nas costas
mas há diferenças assinaláveis. Enquanto
a placa de Huelva apresenta um padrão contínuo
de faixas de triângulos invertidos, a de Lisboa, apresenta
faixas separativas ao nível do troco ainda que os motivos
principais sejam os mesmos triângulos. A de Évora,
como já se disse, mantendo, embora, os triângulos
invertidos, ostenta também outro motivo.
A análise sumária dos pormenores decorativos
deste último conjunto de placas permite fazer novas
constatações.
1. As placas surgem aqui como sendo o suporte de uma figuração
antropomórfica, limitada à cabeça e ao
tronco.
2. A distinção cabeça/tronco é sempre bem marcada.
3. A figuração da cabeça pode resultar
do contorno parcial do suporte e/ou de motivos descritores
da face, quaisquer que eles sejam.
4. Os motivos decorativos do tronco, ainda que pouco variados,
não são constantes e indiciam modos de adorno
e/ou cobertura do corpo.
5.3
OS SIGNIFICADOS
Quer o protótipo da placas de xisto gravadas tenha
sido mais figurativo ou mais geometrizado é perfeitamente
possível estabelecer entre estes "extremos"
relações de dependência e de conotação/denotação.
Algumas comunidades megalíticas homenageavam os seus
mortos com esta belas e enigmáticas peças de
xisto. Escolhiam o material, davam-lhe uma forma determinada
que, só por si, lembrava um busto humano. Não
está claro se, ao decorá-las, pretendiam representar
pessoas concretas mas o mais provável é que
não. Quer a geometrização, quer o esquematismo
da figuração, quando existe, apontam no sentido
do genérico e, portanto, do abstracto. É verdade
que a mesma comunidade restrita utilizou decorações
muito diversas e que, por vezes, ocorre a particularização
de certos motivos ou padrões mas também há
que ter em conta que se o local de enterramento era colectivo,
a comunidade alargada seguramente admitiria diferenciações
familiares, sociais, ou outras. Esta diversificação
grupal parece, aliás, conotada quer com a semelhança
quer com a diferença dos padrões, portanto,
muito mais ao nível da decoração do tronco,
ou seja da parte que revela mais comummente as diferenças
sociais, quaisquer que eles fossem.
As marcas laterais simétricas ao nível da cabeça
parecem corresponder a tatuagens ou pinturas, fossem elas
um distintivo étnico ou social, marca de origem ou
de estatuto. A sua ocorrência mais frequente na posição
horizontal assinala o sentido originário, que a multiplicação
das faixas altera no sentido do abstracto e que as variantes
oblíquas ou o simples preenchimento das partes laterais
da cabeça a tracejado transformam em simbólico.
Fenómenos de "contaminação"
da execução gráfica, relativamente a
elementos adjacentes reforçariam, eventualmente, a
natureza da transformação e induziriam o grafismo
tornado arbitrário e, portanto, simbólico.
Os orifícios que a maior parte das placas ostentam
revelam, por vezes, sinais de uso fora do contexto sepulcral
onde, de resto, não teriam função clara,
salvo quando se identificam com os olhos. Poderá admitir-se
a suspensão da placa ao peito do morto, mas essa única
função nunca justificaria a fricção
verificada além de que nem todas as placas têm
orifício. E estas últimas poderiam igualmente
ter sido usadas fora do local da sepultura.
As peças que designámos por berloques, algumas
das quais simbolizam placas e outras báculos, deveriam
ter sido objectos de adorno qualquer que tivesse sido o seu
significado social. Parece-me provável que as placas
o tenham sido também ainda que o seu uso pudesse ser
limitado a certas circunstâncias. Um carácter
de uso excepcional (o mais provável, tendo em conta
as dimensões) conferir-lhe-ia, aliás, uma significação
particularmente distintiva que justificaria a sua presença
no espólio fúnebre. O báculo, tendo em
conta a sua raridade, deveria ter tido uso ainda mais limitado
e, eventualmente, mais importante. Os motivos da sua decoração
são de tal modo semelhantes aos das placas que conferem
também a estas um novo grau de importância correlativa.
Tendo em conta a escolha do material duradoiro de que são
feitas as placas e a superfície cuidadosamente polida
onde se lançou a gravação, é perfeitamente
claro o desejo de comunicar, por meio de uma composição
sincrética, uma mensagem que se desejaria permanente.
Há grande probabilidade de que essa mensagem se traduzisse
em linguagem cuja língua nunca conheceremos, mas a
trama das composições e o seu carácter
convencional sugerem, antes de mais, um símbolo, ou
seja o signo de um signo; e o mais provável é
que o significante deste último signo designasse o
poder como significado atribuível ao próprio
símbolo e ao seu portador. Por isso se desejaria duradoiro
e ostentatório. Porque há ostentação
na dimensão e no gravado da peça e mesmo na
sua utilização última, na permanência
no túmulo.
A deposição no túmulo é um acto
ritual particularmente significante a que correspondem múltiplos
significados. Para além das manifestações
de carácter protocolar que os cânones da comunidade
exigiria, o acompanhamento dos corpos de espólios específicos,
eventualmente com funções diferentes, indiciadores
de ritos e de convicções. No nosso caso, as
placas constituíram as peças mais importantes
e o cuidado com que continuaram a ser tratadas de cada vez
que ocorria uma inumação, colocando-as, embora,
em locais diferentes dos originais, revelam preocupações
com a permanência. Nunca saberemos se se aceitaria a
permanência definitiva com a bênção
solar quotidiana ou se esperava o regresso ao seio dos vivos.
De qualquer dos modos, talvez a placa, como sinal, permitisse
a identificação e declarasse os atributos. Não
longe desta anta uma outra [27] [A anta-capela da freguesia
de S.BRISSOS - MONTEMOR-O-NOVO , a cerca de 20 Km da Anta
da VELADA DAS ÉGUAS] agora cristianizada foi consagrada
a Nª. Sª. do Livramento, advogada dos partos felizes.
Para retomarmos o tema por que iniciámos este ensaio,
recordemos que a anta é um jazigo subterrâneo,
uma forma de gruta artificial. O simbolismo da gruta e da
sepultura em geral, que as equipara ao ventre materno é
atestado pelos enterramentos desde o Paleolítico pela
posição fetal dos cadáveres, do mesmo
modo que a deposição dos corpos voltados para
Leste indicia a ideia de ressurreição, atestada
quotidianamente pelo re-nascer do Sol. No Mitraísmo,
religião assumidamente solar, ou no Cristianismo que
o é do mesmo modo, a gruta é local de nascimento
do próprio Deus, feito Homem, como pode ser também
local do sepulcro donde, aliás em estado glorioso,
se regressa à vida [28] [Uma das capelas da igreja
matriz da freguesia das ALCOBERTAS - RIO MAIOR do lado Oeste,
é um dólmen .A capela está consagrada
a Sª MARIA MADALENA , uma das testemunhas da ressurreição
de Cristo ( conforme o NOVO TESTAMENTO : S. MATEUS , 27 ,
57-66 e 28 , 1-10 / S. MARCOS , 15 , 42-47 e 16 , 1-8 / S.
LUCAS , 23 , 49-56 e 24 , 1- 10 / S. JOÃO , 19 , 38-42
e 20, 1-18 )]. É perfeitamente aceitável que
este simbolismo da anta, enquanto tal, se transmitisse às
peças de que era depositária, nomeadamente aquelas
cuja conotação com os defuntos e os vivos é
mais evidente. E estas são as placas. É, pois,
muito natural que, às múltiplas significações
que as placas teriam no contexto dos vivos, se acrescentasse
um sentido mágico-religioso que eventualmente se transmitisse
ao seu detentor ou guardião.
6.
PÓS-TEXTO
Este trabalho, que fiz com labor mas sem temor, deu-me um
grande prazer.
Mais de quarenta anos após ter estudado estes materiais,
voltar a retomá-los com minúcia e ensaiar com
eles uma abordagem quase inteiramente nova, foi um trabalho
aliciante, quase obsessivo. Radicou-se-me a convicção
de que a Semiótica pode ser um excelente modo de análise
e investigação no domínio do que se convencionou
chamar a história material, a que pertence a Arqueologia,
humanizando o seu campo de investigação e discutindo
sem carácter dogmático o resultado das pesquisas,
sem abdicar do necessário rigor científico mas,
igualmente, sem o temor, mais ou menos instalado nos meios
académicos de propor entendimentos onde haja matéria
para eles.
Depois de feito, perguntei-me se alguma (talvez excessiva)
minúcia a que não fui capaz de me furtar, seria
indispensável ou mesmo necessária para este
trabalho, mas a deformação (talvez o preconceito)
do arqueólogo coarctou o "semiólogo".
De qualquer modo, após as críticas, as observações
ou sugestões, é sempre possível refazê-lo.
CORPUS
DAS PLACAS DE XISTO GRAVADAS DA ANTA DA VELADA DAS ÉGUAS
Abreviaturas:
BJDE - Boletim "Junta Distrital de Évora"
BMLMGFC - Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico
e Geológico da Faculdade de Ciências (de Lisboa)
CCI - Centre de Création Industrielle
CSGP - Comunicações dos Serviços Geológicos
de Portugal (Direcção Geral de Minas e Serviços
Geológicos)
E. E. - Enciclopédia Einaudi
IAC - Instituto para a Alta Cultura
II CNA - II Congresso Nacional de Arqueologia (Actas do Congresso)
II CPA - II Colóquio Portuense de Arqueologia
INCM - Imprensa Nacional - Casa da Moeda
RG - Revista de Guimarães (Sociedade Martins Sarmento,
Guimarães)
RTAEFLUP - Revista Trimestral da Associação
de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
SEC - Secretaria de Estado da Cultura
TAE - Trabalhos de Antropologia e Etnografia (Sociedade Portuguesa
de Antropologia e Etnografia - Faculdade de Ciências
do Porto)
(01) - A.A. V.V. - Pour une Sémiotique Topologique
, in La construction d'objects sémiotiques Fotocópia
(s.d. mas após 1974), pág. 129/157
(02) - A.A. V.V. - Anthropologie de l ' écriture, CCI,
Centre Georges Pompidou, Paris, 1984
(03) - A.A. V.V. - Mythos /Logos, in E. E., nº 12 - INCM,
Lisboa, 1987
(04) - A.A. V.V. - As pedras e a escrita ( Stonehenge e Glozel
) - Edições 70, Lisboa,s. d.
(05) - Albuquerque e Castro, L. de, - A figura antropomórfica
e as placas de xisto, comun. ao II CPA 1962, Actas do II CPA
in LVCERNA, vol. III, Porto,1963
(06) - Audin, A. - Les fêtes solaires, Presses Universitaires
de France, Paris, 1945
(07) - Babo, M. A. - A escrita do livro, Vega (Passagens,
14), Lisboa,1993
(08) - Baratta, G., - Ritmo, in E. E., nº 11 - INCM,
Lisboa, 1987
(09) - Barthes, R. - Elementos de Semiologia, Edições
70 (Signos, 43) , Lisboa, s. d.
(10) - Barthes, R . - Mitologias, Edições 70
(Signos , 2), Lisboa, 1988
(11) - Barthes, R. e Marty, E. - Oral/Escrito, in E. E., nº 11 - INCM, Lisboa, 1987
(12) - Barthes, R. e Mauriès, P. - Escrita, in E. E.,
nº 11 - INCM, Lisboa, 1987
(13) - Camarate França, J. e Veiga Ferreira, O. da,
- Algumas considerações sobre os chamados "Ídolos
Almerienses", da Península de Lisboa - TAE, vol.
XVII, Porto, 1959
(14) - Bidermann, H. - Civilizações megalíticas
- Editorial Verbo (Ars Mundi), Lisboa, 1971
(15) - Chevalier, J. e Gheerbrant, A. - Dictionnaire des symboles
- Éditions Robert Laffont / Jupiter, Paris , 1982
(16) - Daniel, G. - The megalith builders of Western Europe
- Penguin Books (Pelican, A 633),1963 .
(17) - Eco, U. - O Signo - Editorial Presença, Lisboa,
1990
(18) - Eliade, M. - Tratado de História das religiões
- Edições Cosmos, Lisboa, 1977
(19) - Eliade, M. - O sagrado e o profano (A essência
das religiões) - Livros do Brasil , s. d.
(20) - Eliade, M. - O mito do eterno retorno - Edições
70 (Perspectivas do Homem , 5) , Lisboa , 1981
(21) - Foucault, M. - As palavras e as coisas (Uma arqueologia
das ciências humanas)- Portugália Editora, Lisboa
, 1968
(22) - Foucault , M. - L ' archéologie du savoir -
Gallimard, Paris, 1969
(23) - Gardin , J. C. - Análise documental e análise
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Semiologia - Edições 70 (Signos , 18), Lisboa,
s. d.
(24) - Goody , J. - A lógica da escrita e a organização
da sociedade - Edições 70 (Perspectivas do Homem,28),
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(25) - Guiraud, P. - A Semiologia, Editorial Presença,
Lisboa, 1993
(26) - Gonçalves, V. S. - A neolitização
e o megalitismo da região de Alcobaça - SEC,
Lisboa, 1978
(27) - Isidoro, A. F. - Escavações em dólmenes
do concelho do Crato (Alto Alentejo ) ,TAE, vol. XX, fasc.1-2,
Porto , 1966
(29) - Isidoro , A. F. - Escavações em dólmenes
do concelho do Crato (Alto Alentejo) - IV ,TAE ,vol. XXII,
fasc. 1, Porto, 1971
(30) - Jorge, V. O., - Evolução das teorias
explicativas do megalitismo, in HUMANIDADES Nº3, Abril/83,
(RTAEFLUNP ), Porto, 1983
(31) - Jung, C. G .- Psychologie et Religion - Buchet/Chastel,
Paris, 1968
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(33) - Le Goff, J. - Memória, in E. E. , nº 1
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(34) - Le Goff, J. - Calendário, in E. E. , nº 1 - INCM, Lisboa, 1984
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(36) - Leroi-Gourhan, A. - L ' homme et la matière
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(37) - Leroi-Gourhan, A. - O gesto e a palavra - 1 - Técnica
e linguagem - Edições 70 (Perspectivas do Homem,
16) , Lisboa , 1990
(38) - Leroi-Gourhan, A. - O gesto e a palavra - 2 - Memória
e ritmos - Edições 70 (Perspectivas do Homem
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- Edições 70 (Perspectivas do Homem , 17) ,
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(41) - Leisner, G. e V. - Antas do concelho de Reguengos de
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(42) - Martinet , J. - Chaves para a Semiologia - Publicações
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