artigos e teses
head
caderno de campo
sitios
mapas
bibliografia

gema
 
 

"(...) e de hi se lyndaram a hum arrife que está na comiada antre a cabeça do circo e as cabeças do meo mundo no qual arrife fezeram duas cruzes (...)" (Carvalhaaes: 1421)


0. Introdução

Desde o início da década de 90 que Manuel Calado tem referido a concentração de menires e recintos megalíticos na linha de festo que separa as bacias do Tejo e do Sado. Baseado no facto de os festos serem, por excelência, vias naturais de circulação actuando simultaneamente como limites territoriais, esse autor tem interpretado o fenómeno à luz do modelo que tem vindo a propor para a neolitização do Alentejo Central (Calado, 1990, 1997, 2000, no prelo 1; Calado e Sarantopoulos, 1995).
Na sequência das investigações que tenho vindo a realizar nos recintos megalíticos e menires da região da serra de Monfurado (Évora e Montemor-o-Novo), direccionadas para a avaliação da estruturação dos monumentos de acordo com eventos celestes e com a paisagem, foi inevitável a abordagem das relações espaciais dos monumentos com o festo Tejo - Sado / Guadiana, visto estas se materializarem frequentemente em relações topológicas directas de visibilidade / invisibilidade, direccionalidade, proximidade / distância e acessibilidade
As observações que fiz, contribuem em alguns aspectos importantes para as leituras anteriores: elas indiciam que as relações espaciais entre monumentos e festos integram importantes aspectos simbólicos na percepção da paisagem terrestre e celeste que podem, em última instância, ser entendidos no contexto das actividades rituais e culturais das comunidades neolíticas que frequentaram o território e o povoaram."Meio-Mundo" é o topónimo pela qual é conhecida uma das mais importantes portelas da serra d'Ossa, entre Castelo e S. Gens (Calado, 2001b:21). Por outro lado, há na região da serra d'Ossa quem afirme que o "Meio-Mundo é a linha que passa pelo cume da serra e que separa as águas do Tejo e do Guadiana".
Na citação em epígrafe, trecho de um texto do séc. XV onde se descreve a dádiva de terrenos, no contraforte oriental da serra de Monfurado (cuja linha de cumes é coincidente com o festo Tejo-Sado) , aos frades conhecidos como "pobres da pobre vida", o termo "cabeças do meio-mundo", tendo em conta a informação relativa à serra d'Ossa, refere-se muito provavelmente aos cabeços que integram a linha de festo Tejo-Sado.
No contexto deste trabalho, não deixa de ser extremamente interessante uma expressão com mais de 500 anos que aparentemente entende os festos como linhas separadoras de "mundos" e como "mundos" as bacias do Tejo, Sado e Guadiana.

 

1. Cromlech dos Almendres

O recinto megalítico dos Almendres (Pina, 1971, 1976; Gomes, 1994, 1997a, 1997c; Alvim, 1997) situa-se num dos locais mais elevados da região de Évora / Montemor-o-Novo (413m), no extremo oriental da serra de Monfurado, na lomba com desenvolvimento Norte-Sul que separa as bacias da ribeira de Valverde, a Este, e S. Brissos, a Oeste; está implantado no topo de uma encosta voltada a nascente e aberta sobre o vale da ribeira de Valverde e a planície, sobre os quais se eleva ca. de 200m. Esta lomba confina a norte com o festo Tejo-Sado no Alto da Abaneja (local onde se encontrava, até há pouco tempo, um par de menires); a distância mínima do recinto ao festo é de cerca de 5 km.
Nos Almendres o festo Tejo-Sado/Guadiana é visível intermitentemente entre S. Sebastião ca. de 5km a NO, o cabeço mais elevado da serra de Monfurado com 441m de altitude, onde se encontra um par de menires, e a serra d' Ossa ca. de 40 km a NE (S. Gens: 653m).

fig. 1: Implantação dos Almendres em relação aos festos, serra de Monfurado e serra d'Ossa


A serra d'Ossa é constituída por uma série de relevos alongados na direcção ONO-ESE, ao longo do festo Tejo-Guadiana, sendo visualizada, de perfil, desde os Almendres, como um conjunto destacado de três elevações escalonadas em altura de N para S: Évora Monte (475m), Caramelo (509m) e S. Gens / Castelo (653 / 642m); os seus relevos imponentes são visíveis desde os Almendres apenas nos dias em que a visibilidade atinge os 40km, que ocorrem normalmente no Outono, Inverno e Primavera, sendo raros os dias de Verão em que se consegue avistá-la.

fig. 2: A serra d'Ossa vista dos Almendres. (Fotografia de Rafael Henriques).


Entre S. Sebastião e Évora Monte (a elevação mais a N do conjunto de relevos da serra de Ossa) o festo Tejo-Sado/Guadiana serpenteia em torno da direcção NE-SO; entre Évora Monte e Castelo (elevação mais a SE da serra d'Ossa) o festo segue a orientação geral NO-SE, acompanhando as linhas de cumeada da serra e inflectindo a direcção para S-N em Castelo, onde deixa de ser visível a partir dos Almendres.
S. Sebastião a NO e a serra d'Ossa a NE definem o arco do horizonte em que o festo é visível, e são os únicos pontos do festo que se recortam no horizonte. Simultaneamente aquelas elevações coincidem com os limites, a norte, do nascente e poente do sol e da lua.

fig. 3: Regiões do poente e nascente do sol (+24º - Solstício de Verão a -24º - Solstício de Inverno) e da lua (+29º a -30º na pausa maior; -19 a +19 na pausa menor) a partir dos Almendres em relação ao festo.


A nascente, o arco em que se pode observar o nascer do sol e da lua coincide com o horizonte mais longínquo, onde a visibilidade é condicionada apenas pelas condições atmosféricas, sendo possível nos dias mais limpos avistar território espanhol.
A região do nascente do sol e da lua é limitada, a NE, pela serra d'Ossa cujas três elevações coincidem com os dois limites lunares e o nascente do sol no solstício de Verão; a linha de vista para a serra d'Ossa e para o extremo NE do nascer do sol, é paralela à direcção geral do festo entre S. Sebastião e Évora Monte.

fig. 4: Regiões do nascente do sol (+24º -SV a -24º -SI) e da lua (+29º a -30º na pausa maior; -19 a +19 na pausa menor) a partir dos Almendres.

fig. 5: Limites a norte do nascente do sol (+24º -SV) e da lua (+29º na pausa maior; +19 na pausa menor) sobre a serra d'Ossa a partir dos Almendres


O horizonte a poente, que só é visível da parte mais elevada do recinto, é formado por relevos da serra de Monfurado, ao longo do festo ocidental da bacia da ribeira de S. Brissos, que dista do recinto cerca de 5-7 km e que confina, a norte, com o festo Tejo-Sado em S. Sebastião.
A região do poente do sol e da lua, inversamente ao lado nascente, é fechada por relevos próximos (5-8km) sendo limitada a NE por S. Sebastião. A skyline formada pelos relevos descai suavemente para sul, com algumas indentações, descobrindo o horizonte a SO na mesma direcção em que o sol se põe no solstício de Inverno.
O Alto de S. Sebastião vê-se desde os Almendres como uma elevação alongada descaíndo de S-N. No ponto mais elevado (441m), visto dos Almendres como o extremo sul da elevação, localiza-se um par de menires, actualmente tombados. O azimute indicado pelo par de menires coincide com o extremo, a norte, do poente da lua durante a pausa menor e com a direcção do troço do festo invisível por detrás de S. Sebastião até ao cabeço do Sideral, no extremo oriental da serra de Monfurado a ca. de 25km a NE, junto do qual se encontra um par de recintos (v. à frente: 3b).
O poente do sol no solstício de verão ocorre sensivelmente a meio da elevação e o extremo, a norte, do poente da lua durante uma pausa maior ocorre a norte da elevação.
O local onde ocorre o poente do sol nos equinócios é indicado por dois cabeços, formando um colo no horizonte, no qual o sol se põe.

fig. 6: Vista para poente a partir dos Almendres. As elevações integram a extremidade oriental da serra de Monfurado. (Fotografia de Rafael Henriques).

fig. 7: Regiões do poente do sol (+24º -SV a -24º -SI) e da lua (+29º a -30º na pausa maior; -19 a +19 na pausa menor) sobre a serra de Monfurado a partir dos Almendres.

fig. 8: Regiões do poente do sol, nos solstícios e equinócio, sobre a serra de Monfurado a partir dos Almendres.
Montagem digital realizada sobre a fotografia da fig. 6 dos momentos do poente do sol no solstício de Inverno, equinócio de Primavera e solstício de Verão no ano de 2000. (Fotografia e tratamento digital de Rafael Henriques).


Existe, desta forma, uma tetrapartição típica do horizonte em quadrantes nascente, norte, poente e sul, desenhada por características da paisagem e direcções astronómicas:

a) Nascente:
horizonte mais longínquo, limitado a NE pela serra d'Ossa. O seu perfil com 3 elevações coincide com as 2 posições extremas a norte do nascer da lua e a posição extrema a norte do nascer do sol;

b) Norte:
limitado pela serra d'Ossa a NE e S. Sebastião da Giesteira a NO. O quadrante coincide com o arco do horizonte em que o festo é visível;

c) Poente:
limitado a NO por S. Sebastião da Giesteira e a SO onde o horizonte local descai abaixo do horizonte longínquo, descobrindo-o (figs. 6, 7 e 8).
O extremo sul do cabeço de S. Sebastião, onde se localizam os menires coincide com o extremo norte do poente da lua durante a pausa menor.

Todas estas coincidências e particularidades da paisagem não parecem ter sido alheias à escolha deste local para a implantação do recinto - neste sítio elas permitem formular um sistema visual de referência na percepção do tempo e do espaço, associando locais e elementos importantes da paisagem ao tempo, através da observação da posição relativa dos astros.
O ciclo do ano influencia a percepção da paisagem, condicionando-a de acordo com as condições atmosféricas de cada estação. A serra d'Ossa não é visível dos Almendres durante a maior parte do Verão, quando as pressões atmosféricas e as temperaturas elevadas limitam a visibilidade a poucos quilómetros, impedindo eventualmente a visibilidade do nascer do sol na serra d'Ossa no Solstício de Verão.
As neblinas matinais que se formam na peneplanície, particularmente em torno dos locais mais elevados - como a serra de Monfurado ou a serra d'Ossa - podem também impedir a visualização do nascer do sol no horizonte durante quase todo o ano. Actualmente, é normal que as neblinas matinais se dissipem apenas quando o sol atinge considerável altura acima do horizonte. As nuvens, durante as estações do ano mais nebulosas, podem impedir a visualização do horizonte mais distante e, quando estão particularmente densas ou baixas, a dos horizontes mais próximos.
Como contraponto à monumentalidade da arquitectura do recinto, a forma como a paisagem pode ser "lida" a partir dos Almendres, proporcionando um cenário espácio-temporal rico em potencial simbólico, onde o espaço e os ritmos do tempo podem ser integrados num mesmo sistema que pode ser descrito através de limites naturais, de direcções astrais e paisagísticas, de invisibilidades e visibilidades, é uma potencial metáfora do próprio cosmos.

 

2. Outros recintos da região da serra de Monfurado

Os outros 6 recintos megalíticos da região de Évora / Montemor-o-Novo, distribuem-se em torno da serra de Monfurado, agrupados aos pares (fig. 1):

a) Na bacia do Sado: Portela de Mogos (Pina, 1971, 1976; Gomes, 1997b) e Vale Maria do Meio (Calado e Sarantopoulos, 1995; Calado, 2000b) na cabeceira da bacia hidrográfica da ribeira de Valverde (Évora); Monte das Casas de Baixo (Gomes, 1986) e Tojal (Calado, no prelo 2) na confluência das ribeiras da Prata e do Escoural (Montemor-o-Novo);

b) Na bacia do Tejo: Cuncos (Gomes, 1986) e Sideral na bacia da ribeira da Laje (Montemor-o-Novo).

Em cada par, os recintos distanciam-se entre 1.3 a 2.1 km e, exceptuando o caso do par das ribeiras da Prata / Escoural, são intervisíveis entre si. Os pares de recintos não são intervisíveis entre eles.
A serra de Monfurado actua como limite de visibilidade entre os pares de recintos e os Almendres, sendo a única excepção a intervisibilidade no grupo da Ribeira de Valverde (Almendres, Portela de Mogos e Vale Maria do Meio); este grupo relaciona-se particularmente entre si através da localização comum na bacia da ribeira de Valverde, pela temática das gravuras (Calado, 1997b), inexistentes nos outros recintos da região, e pelo facto de serem intervisíveis entre os três, apesar do recinto dos Almendres se situar a 9km dos outros dois; o grupo da ribeira de Valverde, é ainda o único de onde é possível avistar a serra d'Ossa.
Os troços do festo entre o cabeço do Sideral, que domina o par da ribeira da Laje e onde se encontra um menir, S. Sebastião, com um par de menires, e Évora-Monte, definem dois eixos na paisagem que se cruzam em S. Sebastião e que parecem regular a implantação dos recintos:

a) serra de Monfurado (Sideral - S. Sebastião): recinto do Sideral sobre o festo com Cuncos associado por proximidade (1.3 km) e visibilidade; Almendres, no prolongamento para SE da direcção deste troço;
b) entre a serra de Monfurado e a serra d'Ossa (S. Sebastião-Évora Monte): Portela de Mogos sobre o festo com Vale Maria do Meio associado por proximidade e visibilidade; Casas de Baixo e Tojal, como par no alinhamento do eixo projectado para SW.

Estes eixos, são coincidentes com direcções astronómicas relacionadas com limites observáveis nos ciclos do sol e da lua, e qualquer um dos pares se insere em uma sobreposição do alinhamento geral do festo com um alinhamento astronómico importante.

Pelo menos 1 recinto em cada par está implantado sobre o festo ou no alinhamento geral de um dos troços; é importante salientar que os recintos que se encontram directamente sobre o festo têm um grande menir central (Portela de Mogos e Sideral) e os outros apresentam menires de tamanhos gradualmente crescentes.
S. Sebastião, no centro do conjunto de recintos, assegura a intervisibilidade entre os pares de recintos e os Almendres, exceptuando o caso do par da ribeira da Lage e os Almendres; neste caso, S. Sebastião e Sideral, ambos elementos destacados na paisagem assinalados por um monumento, actuam como transporte de intervisibilidade entre os Almendres e o par da ribeira da Lage.

fig. 9: O cabeço do Sideral, visto de norte. A elevação situa-se na extremidade ocidental da serra de Monfurado e é atravessada pelo festo Tejo-Sado. No topo da elevação situa-se o menir do Sideral e no seu sopé ocidental (lado direito da fotografia) o recinto do Sideral; a elevação domina o conjunto megalítico da Ribeira da Lage, constituído pelo menir e recinto do Sideral, menir e anta das Sobreiras, recinto de Cuncos e menir da Courela da Casa Nova.

fig. 10: Alinhamentos gerais dos festos e declinações associadas na serra de Monfurado (Sideral - S. Sebastião) e entre a serra de Monfurado e a serra d'Ossa (S. Sebastião - Évora Monte).

 

3. Sítios, caminhos, limites, direcções e astros: uma leitura possível

"[...] ritual-like action is activity that gives form to the specialness of a site, distinguishing it from other places in a way that evokes highly symbolic meanings. Such activities differentiate a sacred world - however minute or magnificent - in the midst of a profane one, thus affording experiences of this sacrality that transcend the profane reality of day-to-day life." (Bell, 1997)

A implantação dos recintos megalíticos da serra de Monfurado permite-nos postular uma relação estreita destes com o festo Tejo-Sado/Guadiana, visto que todos se situam sobre o festo ou sobre alinhamentos projectados a partir das direcções principais dos seus troços, na serra de Monfurado e entre esta e a serra d'Ossa.
A coincidência natural do alinhamento dos troços do festo com as direcções de nascentes e ocasos do sol e da lua em momentos de mudança de estação, permite-nos ainda postular que este facto foi percebido pelos construtores dos recintos e que os monumentos materializaram este fenómeno, naturalizando os monumentos e culturalizando a paisagem.
O festo é, pela sua característica linearidade, espaço hodológico - espaço de movimento (Norberg-Schulz, 1971) - só podendo ser percebido na sua totalidade, exceptuando métodos cartográficos, através da circulação no território e sobre o próprio festo, o que eventualmente permitiria aos construtores dos recintos a consciência dos fenómenos astronómicos acima descritos; se isso é fácil de admitir no que respeita ao ciclo anual do sol, em relação ao ciclo de precessão dos nodos lunares que origina a oscilação da região de nascente e ocaso da lua (pausas menores e maiores) num período de 18,6 anos, a problemática é mais sensível. Recorde-se, no entanto, que têm sido vastamente documentados nas ilhas britânicas alinhamentos lunares deste tipo em épocas pré-históricas (Ruggles, 1998) e que eles revelam, aparentemente, preocupações de ordem religiosa e ritual; é provável que este tipo de alinhamentos astronómicos marcasse os limites das regiões azimutais onde ocorre o nascente e poente dos astros (Ruggles, 1998). Ainda nas ilhas britânicas, o Dorset Cursus, um monumento neolítico de óbvias características hodológicas que evoca a ideia de "caminho ritual" parece incorporar também alinhamentos solares e lunares (Penny e Wood,1974; Heggie,1981;Tilley, 1994)
No caso dos recintos da serra de Monfurado, a experiência de estar num dos monumentos, olhar na direcção de um elemento orográfico (S. Sebastião ou a serra d'Ossa, por exemplo) e ter a consciência que se olha na mesma direcção em que o festo (o caminho / limite) "corre" e na mesma direcção em que o sol nasce ou se põe num momento extraordinário e liminar como o solstício de Inverno ou Verão, e que nessa direcção, sobre o festo, por detrás da serra, se encontra mais um par de monumentos, é uma experiência grandiosa que amplifica à escala dos limites da visibilidade a monumentalidade do sítio.
Esta monumentalidade da paisagem natural sugere que ela seria essencial nos rituais que eram praticados nos recintos, sendo provavelmente descrita e simbolizada através de gestos e discursos mítico-rituais. Por seu lado, a evidência dos alinhamentos astronómicos associados à paisagem sugere que os rituais eram calêndricos, celebrando a renovação do tempo e do mundo, e que ocorreriam provavelmente ao amanhecer ou ao pôr do sol em momentos de mudança de estação, principalmente nos solstícios. É ainda provável que os rituais ocorressem em períodos de lua cheia quando esta nasce e se põe no mesmo momento e em direcção oposta ao nascer ou pôr do sol, o que se adicionaria à importância das orientações naturais do festo e à espectacularidade dos rituais e explicaria a existência de alinhamentos lunares.
Os rituais calêndricos, segundo Catherine Bell (1997), "tendem a impôr esquemas culturais na ordem da natureza, que a podem parecer influenciar e controlar, tal como quando os rituais fazem referência à quantidade de chuva ou à fertilidade da terra, ou podem simplesmente tentar harmonizar as actividades e as atitudes das comunidades com os ritmos sazonais do meio-ambiente e do cosmos" .
A evidência arqueológica disponível sobre os recintos tem permitido avançar a hipótese de os construtores dos recintos terem sido essencialmente pastores de gado ovi-caprino (Calado, 1997b; np1); os rituais calêndricos nos recintos estariam então provavelmente associados aos ritmos sazonais das actividades pastoris.
A sobreposição de limites temporais e espaciais experienciada nos recintos, materializada em associações entre a paisagem celeste e terrestre através de limites astronómicos, hidrográficos e visuais, é, na nossa opinião, sintomática; provavelmente ela reflecte um dos aspectos dos rituais e da monumentalização neolítica daquela região, nomeadamente a definição e negociação de limites territoriais e rituais através da integração da cultura e da natureza. Alguns dos aspectos que contribuem para esta leitura são a forma como os monumentos parecem disputar a arquitectura, as bacias hidrográficas de ribeiros e dos grandes rios, o posicionamento em relação à serra de Monfurado e à serra d'Ossa e os "privilégios" sobre as particularidades paisagísticas decorrentes dele.

 

4. O contexto

Desde as primeiras descobertas de recintos megalíticos e menires nos anos 60 até ao final dos anos 80, o fenómeno do megalitismo aberto, não funerário, foi considerado um fenómeno do Neolítico-Final / Calcolítico; no entanto, a investigação arqueológica nos monumentos megalíticos não funerários da região da serra de Monfurado e de Reguengos de Monsaraz, desencadeada na década de 90, tem permitido a inserção do fenómeno no Neolítico Antigo ou Médio, portanto, num momento globalmente anterior à construção de antas.
No que respeita ao conjunto da serra de Monfurado, é necessário admitir uma diacronia de qualquer espécie: o sistema de monumentos que descrevemos acima não deve ter sido, concerteza, executado de uma só vez, sendo antes o resultado de uma sequência de ocupação de locais que foram inicialmente concebidos em relação a uma paisagem essencialmente "virgem", enquanto os últimos se referenciaram a uma paisagem já culturalizada por monumentos e povoamento em conjunção com a paisagem natural. Provavelmente a construção dos monumentos mais recentes foi desencadeada quando os anteriores estavam já desactivados em termos de actividades rituais ou desencadearam eles mesmo o abandono dos monumentos mais antigos.
É provável que o simbolismo dos festos tenha perdurado durante a fase de construção dos recintos, provavelmente com transformações na forma como o sistema era entendido e reproduzido, mas sempre em torno de um mesmo tema central; é, no entanto, significativo que a implantação das antas da região não pareça seguir o mesmo interesse pelo sistema festos-astros, indiciando a decadência, a partir do Neolítico Médio, da ideologia que o manteve. Fica a questão de perceber se este sistema é uma criação do Neolítico da região ou se terá raízes em anteriores culturalizações desta paisagem.

Lisboa-Rio de Moinhos-Lisboa, Primavera - Verão de 2001

 

5. Bibliografia

Alvim, P. (1997) - "Sobre alguns vestígios de paleoastronomia no cromlech dos Almendres". A Cidade de Évora, nº2, 2ª Série. Évora: CME

Bell, C. (1992) - Ritual theory, ritual practice. New York: OUP

Bell, C. (1997) - Ritual: Perspectives and dimensions. New york: OUP

Bradley, R. (1993) - Altering the earth. Monograph series, 8. Edinburgh: Society of antiquaries of Scotland

Calado, M. (1990) - "Aspectos do Megalitismo Alentejano". Jornal "O Giraldo", Julho e Agosto. Évora.

Calado, M. (1997a) - "Vale Maria do Meio e as Paisagens Culturais do Megalitismo Alentejano". in Sarantopoulos, 1997 (ed.).

Calado, M. (1997b) - "Cromlechs Alentejanos e Arte Megalítica". Actas do III Colóquio Internacional de Arte Megalítica. La Coruña: Museo Arqueolóxico e Histórico. pp 287-297

Calado, M. (2000a) - "Neolitização e megalitismo no Alentejo Central: uma leitura espacial. Actas do III Congresso de Arqueologia Peninsular. (Vila Real)

Calado, M. (2000b) - "O Recinto megalítico de Vale Maria do Meio (Évora, Alentejo)". Muitas antas, pouca gente ? - Actas do I Colóquio Internacional sobre Megalitismo (Reguengos de Monsaraz, Outubro de 1996). Trabalhos de Arqueologia, 16. Lisboa: IPA. pp. 167-182

Calado, M. (2001) - Da serra d'Ossa ao Guadiana: um estudo de pré-história regional. Trabalhos de Arqueologia, 19. Lisboa: IPA.

Calado, M. (no prelo 1) - Standing Stones and Natural Outcrops.

Calado, M. (no prelo 2) - "Megalitismo, megalitismos: o conjunto neolítico do Tojal (Montemor-o-Novo)".

Calado, M. e Sarantopoulos, P. (1995) - "Cromeleque de Vale Maria do Meio (Évora, Portugal): Contexto Geográfico e Arqueológico". Rubricatum Revista del Museu de Gavà, Actas do I Congrés del Neolitic a la Peninsula Ibérica, Vol. 2, Gavà-Bellaterra. pp. 493-503

Carvalhaaes, P. (1421) "Doação de terras para usufructo aos pobres da pobre vida, na serra de Montemuro. O Castello de Giraldo Sem Pavor." in Gabriel Pereira: Documentos Históricos da Cidade de Évora. Lisboa: INCM, 1998. pp. [247]-[248]

Cunliffe, B e Renfrew, C. [eds.] (1998) - Science and Stonehenge. Proceedings of the British Academy, 92. Oxford: OUP.

Gomes, M.V. (1986) - "O Cromeleque da Herdade de Cuncos (Montemor-o-Novo, Évora)". Almansor, 4. Montemor-o-Novo: CMMN. pp. 7-41

Gomes, M.V. (1994) - "Menires e Cromeleques no Complexo Cultural Megalítico Português - Trabalhos Recentes e Estado da Questão." Actas do Seminário o Megalitismo no Centro de Portugal. (Mangualde, Nov.1992). Viseu: CEPHBA. pp.317-342

Gomes, M.V. (1997a) - "Cromeleque dos Almendres: Um dos Primeiros Grandes Monumentos Públicos da Humanidade" in Sarantopoulos, 1997 (ed.) pp.25-38

Gomes, M.V. (1997b) - "Cromeleque da Portela de Mogos: Um Monumento Socio-Religioso Megalítico." in Sarantopoulos, 1997 (ed.) pp.25-38

Gomes, M.V. (1997c) - "Estátuas-menires antropomórficas do Alto-Alentejo. descobertas recentes e problemática." Actas do III Colóquio Internacional de Arte Megalítico. La Coruña: Museo Arqueolóxico e Histórico. pp. 255-288

Heggie, D.C. (1981) - Megalithic Science. London: Thames & Hudson

Hoskin, M. e Calado, M. (1998) - "Orientations of Iberian Tombs: Central Alentejo Region of Portugal". Archaeoastronomy, 23. Cambridge. pp. S77-82

Norberg-Schulz (1971) - Existence, space and architecture. London: Studio Vista

Penny, A. e Wood, J.E. (1973) - "The Dorset Cursus complex - a Neolithic astronomical observatory ?", Archaeol. J. 130, pp. 44-76

Pina, H.L. (1971) - "Novos Monumentos Megalíticos do Distrito de Évora". Actas do II Congresso Nacional de Arqueologia, Vol. I. Coimbra. pp. 151-161

Pina, H.L. (1976) - "Cromlechs und Menhire Bei Évora in Portugal". Madrider Mitteilungen, 17. Heidelberg. pp.9-20

Ruggles, C. L. N. (1998) - "Astronomy and Stonehenge". In Cunliffe, B. e Renfrew, C. (eds.), 1998

Sarantopoulos, P. [ed.] (1997) - Paisagens arqueológicas a Oeste de Évora. Évora: CME

Tilley, C. (1994) - A phenomenology of landscape: places, paths and monuments.