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1. Introdução

Os menires da Península Ibérica são, em comparação com outras grandes regiões megalíticas europeias ou com outros tipos de monumentos da Pré-história peninsular, uns ilustres desconhecidos. Há várias ordens de motivos para o "low profile" dos menires ibéricos: uma das mais importantes prende-se com o facto de, na sua esmagadora maioria, terem tombado em épocas antigas, sendo, por isso, muito difíceis de identificar por não especialistas. A verdade é que, depois de terem sido, ainda no séc. XIX, identificados alguns raros exemplares (Ferreira, 1864; Pereira, 1880; Veiga, 1886), foi só já nos anos setenta do séc. XX que os monumentos mais complexos e bem conservados começaram a ser dados a conhecer e o número global de sítios meníricos explodiu. Foi também só por essa altura que se começou a ter uma noção rudimentar da importância relativa e da personalidade das principais regiões meníricas peninsulares.

Com os dados actualmente disponíveis, é possível arrumar os menires ibéricos em cinco grandes regiões, com características mais ou menos coerentes, embora, naturalmente, passíveis de subdivisões internas, por critérios geográficos, tipológicos e/ou cronológicos: O Algarve (sobretudo o Algarve Ocidental), o Alentejo (com uma concentração notória no Antejo Central), o Noroeste Peninsular (Centro e Norte de Portugal e Galiza), a Cornija Cantábrica e os Pirinéus Ocidentais (Astúrias, Cantábria, Palencia, Burgos e País Basco) e a Catalunha.    

A cartografia apresentada não tem em conta, por razões práticas, os diversos tipos e dimensões de monumentos meníricos. O objectivo é, sobretudo, oferecer uma noção da distribuição espacial do fenómeno, sem ter em conta a diversidade, muito significativa, em termos da tipologia e da intensidade relativa do mesmo.

Nas listagens de sítios, indicou-se, a seguir ao nome do monumento, o número de menires; a ausência de número indica tratar-se de um menir isolado; no caso da Cornija Cantábrica/Pirinéus ocidentais, o número que se segue ao nome do sítio refere-se a menires ou cromelechs, conforme, no final, aparece, respectivamente, (M) ou (CR).  

As diferenças cronológicas (um problema fundamental e que, em grande parte, continua a ser um problema por resolver) serão objecto de comentários região a região, sempre que exista informação que o permita.

Com os conhecimentos actuais (cujo sentido geral dificilmente se alterará) podemos afirmar que é no Sul de Portugal (Alentejo Central e Algarve Ocidental) que existem as maiores concentrações de menires da Península Ibérica, em termos de dimensão dos monólitos, quantidade e complexidade dos conjuntos.

Fig. 1: Mapa da distribuição de menires e recintos megalíticos na Península Ibérica.


Fig. 2: Principais sítios referidos no texto. 1: Pedrão; 2: Quinta da Queimada; 3: Vale Pincel 1; 4: Almendres; 5: Vale Maria do Meio; 6: Vale d'El Rei; 7: Monte da Tera; 8: Meada; 9: S.Cristóvão; 10: Pedrafita de Cristal; 11: Sejos; 12: Mendiluce; 13: Sierra de la Tercia; 14: Navalcán.

 

2.1. Algarve

Os menires do Algarve constituem um conjunto muito individualizado no contexto da Península Ibérica e não só: destacam-se, sobretudo, no que diz respeito à morfologia e à decoração dos monólitos, assim como ao contexto arqueológico em que a maioria se insere.

Em termos regionais, os menires apresentam uma concentração marcada no extremo ocidental da província e uma rarefacção progressiva de ocidente para oriente.

A matéria-prima (com apenas duas excepções - menos de 1%) é constituída por rochas sedimentares provenientes do substrato geológico regional: em primeiro lugar, o calcário, seguido pelo arenito, sendo que, muitas vezes, existe discordância entre a matéria-prima e o substrato local, implicando, por isso, algum esforço de transporte.

Os menires algarvios correspondem geralmente a formas subcónicas ou subcilíndricas, muitas vezes com a extremidade distal demarcada. A maioria dos monólitos parece ter sido objecto de afeiçoamento, operação relativamente facilitada pela escassa dureza do material.

A decoração, pouco variada, mas muito frequente (mais de 50%) repete esquemas gráficos/simbólicos geométricos em que os menos originais serão certamente os conjuntos de linhas paralelas ondulantes, longitudinais, com diversas ressonâncias na arte megalítica atlântica (Bueno e Balbín, 1995). Na maior parte, trata-se de motivos geométricos, organizados quase sempre ao longo de linhas longitudinais, sem paralelos imediatos nos restantes sistemas iconográficos do megalitismo europeu (David Calado, 2000a).

Muitos dos menires isolados e dos conjuntos de menires ocorrem associados a vestígios de habitat neolíticos - e, muitas vezes, também mesolíticos (Gomes, 1996; Bicho et al., 2000) -   aspecto que, como referi, constitui um dos traços mais originais dos menires algarvios (David Calado, 2000a, b; David Calado et al., 2003)).

Contrariando uma ideia feita, aparentemente válida em algumas áreas megalíticas peninsulares (Ruiz et al., 1993), os menires do Algarve ocidental concentram-se em territórios virtualmente vazios de megalitismo funerário.

Em termos de dimensões, os menires algarvios são, à escala da Península Ibérica, de tamanho pequeno e médio, nenhum deles atingindo os 4 m de comprimento e com alguns de porte tão reduzido que poderiam talvez ser classificados como bétilos.

Como é habitual com os restantes menires ibéricos, a maioria dos exemplares conhecidos no Algarve, encontra-se tombada (apenas cinco foram descobertos erectos). Para além disso, os conjuntos identificados,   que correspondem a possíveis recintos, apresentam um tal grau de desarticulação que se torna impossível reconstituir a respectiva planta original. Efectivamente, mesmo nos sítios que foram objecto de escavações, não foi, até hoje, possível obter esse tipo de informação. Ainda por esclarecer de uma forma cabal, persiste a questão da relação funcional e cronológica entre os menires e os materiais que, norma geral, lhes estão espacial, ou mesmo estratigraficamente, associados.

Para além desta associação recorrente, foram obtidas duas datações radiocarbónicas de uma lareira, junto ao menir do Pedrão, com valores calibrados da segunda metade do VI milénio a. C.. O escavador (Gomes, 1996) refere que "a camada arqueológica a que correspondia a ocupação datada pelo 14C cobria as fossas de implantação dos dois menires", o que implicaria alguma anterioridade do monumento em relação às datações obtidas e sugere um modelo para a relação entre os menires e os habitats.

2.2. Listagem

Abrutiais (Silves)
Adreneira (3) (Vila do Bispo)
Afonso Vicente 1 (3) (Alcoutim)
Afonso Vicente 2 (4) (Alcoutim)
Alcalar 1 (Portimão)
Alcalar 4 (Portimão)
Alfarrobeira (Silves)  
Almarjão (2) (Silves)
Amantes I (17) (Vila do Bispo)
Amantes II (10) (Vila do Bispo)
Areia das Almas (11) (Lagoa)
Aspradantas (3) (Vila do Bispo)
Barão de S.Miguel (Lagos)
Barradas (Vila do Bispo)
Bem Parece (Vila do Bispo)
Benagaia (Silves)
Bensafrim (Lagos)
Budens (Vila do Bispo)
Caramujeira (26) (Lagoa)
Carriços (5) (Vila do Bispo)
Casa do Francês (6) (Vila do Bispo)
Castanheiro (4) (Lagos)
Cerro das Alagoas (Loulé)
Cerro das Pedras (3) (Loulé)
Cerro do Camacho (5) (Vila do Bispo)
Colinas Verdes   (Lagos)
Cruzinha (Portimão)
Cumeada (Silves)

Ferrel de Baixo (Lagos)
Ferrel de Cima 1 (Lagos)
Figueira (8) (Vila do Bispo)
Figueiral (8) (Lagos)
Gasga (6) (Vila do Bispo)
Gregórios (Silves)
Guadalupe (Vila do Bispo)
Ingrina (3) (Vila do Bispo)
Ladeiras (2) (Vila do Bispo)
Lameira (Portimão)
Lombos (3) (Lagoa)
Maranhão Novo (Lagos)
Marmeleiros (3) (Vila do Bispo)
Marreiros I (3) (Vila do Bispo)
Marreiros II (4) (Vila do Bispo)
Milrei (21) (Vila do Bispo)
Monte Alto (Lagos)
Monte Branco (Silves)
Monte da Pedra Branca (Silves)
Monte de Roma (Silves)
Montes Juntos (Lagos)
Morgados (Vila do Bispo)
Odiáxere (Lagos)
Padrão (15) (Vila do Bispo)
Palmares (4) (Lagos)
Pedra Branca (Lagos)
Pedra Escorregadia (3) (Vila do Bispo)
Pedra Moirinha (Portimão)

Pedras Ruivas (Loulé)
Pedras Ruivas (Portimão)
Penedo Gordo (Silves)
Pinheiral (2) (Lagos)
Pontais (Silves)
Portela da Vaqueira (Portimão)
Portela do Padrão (4) (Lagos)
Quinta da Queimada (7) (Lagos)
Rocha (2) (Lagos)
Rocha Branca (Silves)
Rochedo (Lagos)
S.Rafael (2) (Albufeira)
Sabrosa (4) (Lagos)
Salgadas (Lagos)
Santo António (2) (Vila do Bispo)
Santo António de Cima   (Vila do Bispo)
Serra da Borges (4) (Vila do Bispo)
Torre (2) (Lagos)
Torrejão Velho (Silves)
Vale da Lama (Silves)  
Vale de França (Portimão)
Vale de Gato de Cima (3) (Vila do Bispo)
Vale de Oiro (2) (Vila do Bispo)
Velarinha (Silves)

 

3.1. Alentejo

O Alentejo é a área peninsular com maior número total de sítios com menires e, ao mesmo tempo, onde se encontram tanto os maiores conjuntos, como os menires de maiores dimensões. Só no Alentejo Central, conhecem-se actualmente 87 sítios, perfazendo um total de 374 menires, enquanto no Algarve, em 80 sítios referenciados, se contam cerca de 259 menires.

A matéria-prima dos menires alentejanos é quase exclusivamente o granito e rochas afins, embora muitos menires isolados e a maioria dos recintos se implantem em locais com outros substratos geológicos (gnaisse ou depósitos terciários).

Note-se que a matéria-prima condicionou certamente a forma dos monólitos da região: de facto, a maior parte deles   não foi objecto de qualquer tipo de afeiçoamento, tendo antes sido seleccionada a partir dos caos de blocos disponíveis na natureza. Por isso, predominam as formas genericamente ovóides, muitas vezes com uma face aplanada, que são, quase sempre, o resultado de fenómenos geológicos como as diaclases e a disjunção esferoidal.

Em termos topográficos, a   implantação de muitos menires e da maioria dos recintos foi feita na parte superior de vertentes expostas a Nascente. Esta orientação a Nascente relaciona-se, pelo menos em alguns casos, com fenómenos astronómicos elementares, nomeadamente o nascer do Sol e da Lua (Alvim, 1996-1997; Silva, 2000), preceito ritual que os dolmens regionais repetem, sem excepções (Hoskin e Calado, 1998).

Os recintos megalíticos alentejanos parecem corresponder, na sua grande maioria, a um padrão aplicado em toda a região, embora obviamente com variantes. As dimensões variam de um modo significativo, conquanto a lógica da implantação, a forma e as próprias proporções tendam a manter-se. Todos aqueles em que a planta se conservou, ou, pelo menos, se conservou razoavelmente, apresentam uma forma de ferradura, aberta a Nascente (Fig. 4); apenas no caso dos Almendres, o maior de todos e aquele que se implanta na cota mais alta, essa forma inicial foi alterada por acrescentos posteriores.

Fig. 4: Plantas comparadas de recintos megalíticos ibéricos. A: Alentejo Central;   B.: Cantábria.

Um dos aspectos mais exclusivos dos menires alentejanos, no contexto peninsular, são as gravuras que alguns ostentam. Executadas, quase sempre, em baixo-relevo, representam, por ordem decrescente, báculos, crescentes lunares associados a figuras rectangulares/trapezoidais, círculos e linhas ondulantes, para além de um ou outro motivo menos frequente. A grande maioria dos monólitos, porém, é anicónica.

Os recintos localizam-se, quase todos, no Alentejo Central (distrito de Évora), excepto dois casos, o Alminho (Martins et al, 1999) e o Torrão (Albergaria e Silva, 1995), ambos já no distrito de Portalegre e um terceiro, menos evidente, no Monte Novo, Sines (Silva e Soares, 1981).

No Baixo Alentejo são, aliás, muitos raros os exemplares conhecidos e, em todos os casos, relacionam-se com as escassas manchas de rochas magmáticas da região; por outro lado, no extremo Norte da Alentejo, apesar da inexistência de recintos, conhece-se um bom conjunto de menires, entre os quais aquele que é, que se saiba, o maior de toda a Península Ibérica: o menir da Meada, com cerca de 7 m de comprimento.

Apesar de escassearem ainda os dados cronológicos directos, vários indicadores apontam para uma cronologia que arranca desde o Neolítico Antigo (Calado, 1990; 1993; 1997b; 2000a; 2002b; Gomes, 1994b; Gomes, 2000; Oliveira, 1997) não sendo, por ora, de descartar a hipótese, certamente mais arrojada, de alguns terem sido erigidos pelas últimas sociedades de caçadores-recolectores mesolíticos.

No entanto, a investigação desenvolvida nos últimos anos permitiu confirmar a existência, no Alentejo Central, de menires datáveis da 1ª Idade do Ferro, configurando estruturas de carácter funerário (Rocha, 2003): um possível círculo de menires enquadrando o túmulo pétreo e um pequeno alinhamento apontado, no exterior, a cerca de 100m, para o centro desse círculo.  

Recentemente, foi descoberto um outro possível monumento do mesmo tipo, os menires do Monte das Flores, nos arredores de Évora, que ainda não foi objecto de qualquer intervenção.

Escavações recentes permitiram identificar outro fenómeno interessante: a reutilização de um recinto (Portela de Mogos) (Gomes, 1997a) e de um par de menires (S.Sebastião), possivelmente como necrópoles, no Bronze Inicial, traduzida na presença de abundantes recipientes cerâmicos (pequenas taças carenadas, sobretudo).

3.2. Listagem

Meada (Castelo de Vide)
Carvalhal (Castelo de Vide)
Água da Cuba (Marvão)
Corregedor (Marvão)
Alminho (4) (Ponte de Sor)
Torrão (12) (Elvas)
Anta do Monte do Cabeço (Ponte de Sor)
Saragonheiros (Nisa)
Casa Nova (Crato)
Carrilha (Monforte)
Reguengo (Arronches)
Vale de Sobral (2) (Nisa)
Campo Maior (Campo Maior)
Carrilha (Monforte)
Patalou (Nisa)
Maria Dias (Nisa)
Castelo Velho (Castelo de Vide)
Abaneja (2) (Évora)
Almendres (90) (Évora)
Alto da Cruz (Mora)
Aresa (Portel)
Azinhal (Évora)
Barrocal (Reguengos de Monsaraz)
Belhoa (Reguengos de Monsaraz)
Cabeça Alta (Reguengos de Monsaraz)
Cabida (Redondo)
Caeira (Mora)
Campo da Mira (Évora)
Carrascal (3) (Redondo)
Casas de Baixo (6) (Montemor-o-Novo)
Casbarra 1 (Évora)
Casbarra 2 (Évora)
Casbarra 3 (Évora)
Casbarra 4 (Évora)
Casinha (Évora)
Cegonheira (3) (Évora)
Chaminé (Évora)
Correia (Évora)

Corval (Reguengos de Monsaraz)
Courela da Casa Nova (Montemor-o-Novo)
Cuncos (11) (Montemor-o-Novo)
Estrada 3 (Reguengos de Monsaraz)
Fontaínhas (7) (Mora)
Fonte do Abade (Évora)
Fragosa (Évora)
Furada 1 (Redondo)
Furada 2 (Redondo)
Gonçala (Mora)
Gorginos (Reguengos de Monsaraz)
Herdade das Fazendas (Montemor-o-Novo)
Malhada do Esbarrondadoiro (Évora)
Mauriz (Évora)
Monte da Ribeira (9) (Reguengos de Monsaraz)
Monte da Ribeira (Reguengos de Monsaraz)
Monte das Casas (Redondo)
Monte das Casas 1 (Redondo)
Monte das Casas 2 (Redondo)
Monte das Casas 3 (Redondo)
Monte das Casas 4 (Redondo)
Monte das Flores (2) (Évora)
Monte da Tera (12) (Mora)
Monte de Santo Estêvão 7 (Arraiolos)
Monte do Álamo (2) (Montemor-o-Novo)
Monte do Aldeão 2 (Arraiolos)
Monte do Outeiro 2 (Arraiolos)
Monte dos Almendres (Évora)
Montinho (Évora)
Murteira de Cima (Évora)
Oliveiras (Évora)
Oliveirinha (Évora)
Outeiro (Reguengos de Monsaraz)

Outeiro da Grade (Portel)
Paicão (Évora)
Patalim (Montemor-o-Novo)
Pedra Longa (Arraiolos)
Perdigões (5) (Reguengos de Monsaraz)
Portela de Mogos (40) (Évora)
Pouca Lã (Évora)
Quinta da Lucena (2) (Évora)
S. Bento (Portel)
S. Sebastião 1 (2) (Évora)
Sideral (9) (Montemor-o-Novo)
Sideral (Montemor-o-Novo)
Sobreiras (Montemor-o-Novo)
Sousa (Évora)
Têra 1 (Mora)
Têra 2 (Mora)
Têra 3 (Mora)
Têra 4 (Mora)
Tojal   (Montemor-o-Novo)
Tojal (17) (Montemor-o-Novo)
Vale d'El Rei (12) (Mora)
Vale de Besteiros (Évora)
Vale de Cancelas (3) (Montemor-o-Novo)
Vale de Cardos (Évora)
Vale Maria do Meio (34) (Évora)
Vale Maria do Meio (Évora)
Veladas (Évora)
Vendinha (Redondo)
Viçosa (Évora)
Vidigueiras (Reguengos de Monsaraz)
Vinhas (Redondo)
Xerez (55) (Reguengos de Monsaraz)
Xerez de Baixo 16 (10) (Reguengos de Monsaraz)
Mau Cabrão (Vidigueira)
Aldeia dos Testudos (Serpa)
Monte Branco (Sines)
Vale Pincel 1 (Sines)

 

4.1. Noroeste Peninsular
Centro/Norte de Portugal e Galiza

O Centro e Norte de Portugal, assim como a Galiza, apresentam uma baixa densidade de menires, sendo a amostra disponível praticamente só constituída por menires isolados. Na verdade, os únicos casos de recintos megalíticos conhecidos nesta área correspondem a realidades muito atípicas, mal conhecidas e de cronologia e funcionalidades indeterminadas.

Refiro-me aos "circos líticos" galegos (Maciñeira, 1929; Ramil, 1997), de que se conhecem referências a três casos: A Mourela (As Pontes); Prao das Chantas (O Valadouro) e O Freixo (As Pontes). As descrições disponíveis não recomendam o enquadramento destes recintos no tema dos menires, pelo que não foram listados neste trabalho.

Mais a Sul, os dois recintos de S. Cristóvão (Resende), atendendo aos resultados até à data publicados, parecem corresponder a necrópoles da Idade do Ferro, com algumas analogias com o monumento do Monte da Tera (Silva, 2003); já na bacia do Tejo, o "monumento" do Couto da Espanhola, foi publicado inicialmente como um recinto megalítico, com muitas reservas (Henriques et al., 1993); no entanto, uma síntese recente, da autoria de um dos subscritores dessa primeira notícia, não o refere (Cardoso, 2002). Efectivamente, as dimensões e características deste recinto sugerem tratar-se de uma estrutura de carácter agro-pastoril de época histórica, semelhante a muitas outras conhecidas no Alentejo Central (Burgess, 1987; Calado e Mataloto, 2001).

Outro caso muito duvidoso é o do suposto recinto da Barreira (Sintra, Portugal), (Vicente e Andrade, 1973), onde uma observação atenta da geologia e dos arredores, aconselha a considerar os "menires" como afloramentos naturais, embora muito sugestivos (Fig. 3).

Fig. 3: Os menires naturais da Barreira (Sintra, Portugal).

Quanto aos menires isolados desta área, caracterizam-se por terem sempre como suporte granitos ou rochas granitóides e, com frequência, se inserirem em áreas com manifestações de megalitismo funerário. Não dispomos, em geral, de qualquer tipo de evidências cronológicas, excepto em dois casos muito interessantes. O primeiro é o da Anta da Granja de S. Pedro (Idanha-a-Nova), onde foram descobertos dois menires soterrados pela mamoa do monumento funerário (Almeida e Ferreira, 1971), pelo que, obviamente, terão que ser mais antigos; o outro, menos explícito, é o caso curioso do menir das Cegonhas (Cardoso et al., 1995), que é na verdade um dormente de mó manual pré-histórica, reutilizado como menir; foi descoberto in situ e a escavação permitiu identificar as respectivas estruturas de implantação.

Em termos de dimensões e morfologia, merece destaque o menir da Pedrafita de Cristal, na Galiza; na generalidade, os menires do Noroeste peninsular, apresentam dimensões modestas, tendo, os maiores, comprimentos na ordem dos 3 m. A maior parte é anicónica, e os escassos motivos reconhecidos são normalmente os cruciformes, motivos de difícil atribuição cronológica e cultural.

4.2. Listagem

Bouça (Mirandela)
Caparrosa (Viseu/Tondela)
Carvalhais (S. Pedro do Sul)
Cegonha (Idanha-a-Nova)
Cepeães (Braga)
Chaves (Chaves)
Feitos 1 (Barcelos)
Feitos 2 (Barcelos)
Ferro (Covilhã)
Folha da Torre (Guarda)
Granja de S. Pedro (2) (Idanha-a-Nova)

Lavadores (Vila Nova de Gaia)  
Luzim (Penafiel)
Marco da Jogada (Cinfães)
Marco d'Anta (Ponte da Barca)
Monte de S. Roque (Viana do Castelo)
Pedreira (Fafe)
Pena (Baião)
Penedo Comprido (Cinfães)
Penedono (Penedono)
S. Bartolomeu (Vila Nova de Gaia)

S. Bartolomeu do Mar (Esposende)
S. Cristóvão (2) (Resende)
S. Paio d'Antas (Esposende)
Santa Luzia (Viana do Castelo)
Senhor dos Aflitos (Arouca)
Serra do Pilar (Vila Nova de Gaia)
Três Irmãos (3) (Arouca)
Turrinheiras (Castelo de Basto)

 

5.1. Cornija Cantábrica e Pirinéus Ocidentais (Astúrias, Palencia, Cantábria, Burgos e País Basco)

O Norte da Península, entre as Astúrias e Navarra, apresenta um número relativamente elevado de menires e recintos com menires, com uma gradação notória de Oeste para Leste, tendo, por isso, sido avaliada como um fenómeno "de corte oriental mais que atlântico" (Ruiz, Diez e Lopez, 1993).

Na verdade, a forte incidência de manifestações megalíticas no País Basco, que ultrapassam largamente os exemplares listados e cartografados neste trabalho, merece um primeiro comentário: a maioria esmagadora dos chamados cromlechs ou cronlechs

tem pouco ou nada a ver com os recintos megalíticos (muitas vezes referidos com o mesmo termo bretão) da Europa Atlântica: trata-se de monumentos funerários da Idade do Ferro, muitas vezes sem incorporarem verdadeiros menires (Vegas, 2001).

Em todo o caso, existem nesta região alguns raros menires isolados cuja funcionalidade é certamente diversa e cujas dimensões se destacam radicalmente dos pequenos monólitos que integram os referidos cromlechs. Merecem, nesse sentido, referência os menires de Argintzo e de Arrizabala (Navarra), ambos com cerca de 5 m de altura, monumentos cuja cronologia pré-histórica parece defensável.

Mais para ocidente, sobretudo na Cantábria, mas com um número considerável mais a Sul, na Província de Burgos, existem muitos menires isolados e um número menos significativo de recintos megalíticos, alguns dos quais podem ser da família dos cromlechs bascos. No entanto, existem outras situações muito distintas, de que se destaca o recinto de Sejos (Bueno et al., 1985), com duas lajes decoradas com iconografias que, segundo os escavadores, remetem para cronologias calcolíticas e funcionalidade eventualmente ritual.

Essa datação é, aliás coerente com outra obtida no recinto de Peña Oviedo, (Diaz, Diez e Robles, 1991) centrada nos inícios do III milénio a.C., onde se recolheram, aliás, alguns artefactos microlíticos e escassa cerâmica.

Alguns menires cantábricos atingem dimensões próximas ou superiores a 3 m , como El Cabezudo, El Peñuco e La Llaneda, em Valdeolea. Exceptuando o caso de Sejos, a decoração mais recorrente dos menires desta região, é constituída por motivos cruciformes ou por covinhas.

Em termos de matéria-prima, os monólitos desta região megalítica são quase todos constituídos por arenitos, provenientes, com raras excepções, do contexto geográfico imediato.

5.2. Listagem

Abade Kurutz (3) (Berastegi) (CR)
Aguiña I (Navarra) (CR)
Aguiña III (3) (Navarra) (CR) Aitzazate I (2) (Donostia) (CR) Aitzpikoarri (Otxandio/Dima) (M)
Akarte (Entzia) (M)
Alitzia (Navarra) (M) Almendruitz (Navarra) (CR) Alto Telleta (Alava) (CR)
Altxista (8) (Elduain/Hernani) (CR)
Argibelgo Lepoa (Baztán) (M)
Argintzu (Quinto Real) (M) Arleorko Zabala (4) (Urnieta) (CR)
Arluze (Deba/Zestoa) (M)
Arramalta (4) (Navarra) (CR)
Arriatara Ugarane (2) (Bermeo) (CR)
Arritxulangaña (10) (Oiartzun) (CR)
Arritxurrieta (Oiartzun) (CR)
Arrizabala (Navarra) (M) Arroyal (Burgos) (M)
Arrubi (Enirio-Aralar) (M)
Artxubieta Norte (Baztán) (M)
Artxubieta Sul (Baztán) (M)
Ata (Huarte-Arakil) (M)
Atauro Gañe (Enirio-Aralar) (M)
Ayurdin (Alava) (M)
Azpegi (7) (Navarra) (CR)
Bagordi (Baztán) (M)
Basate (6) (Oiartzun, Guipuzkoa) (CR)
Belate ou Velate (17) (Navarra) (CR)
Bercedo (Valdeolea) (M)
Betarte (Baztán) (M)
Bianditz (4) (Navarra) (CR)
Biroleo 1 ( (Cantábria) (CR)
Biroleo 2   (Cantábria) (CR)
Burga (Baztán) (M)
Cabañal (Saja-Nansa) (M)
Callejos (Saja-Nansa) (M)
Camponuera   (Liébana) (CR)
Cantohito (Palencia) (M) Cuquillo (Polaciones) (M)
Délica (Amurrio) (CR)
Dobro (Burgos) (M)
Las Dos Hermanas (2) (Peñahorada, Burgos) (M)
Egiar (7) (Oiartzun) (CR)
Eguirriñao (Vizcaya) (M)
Eihartzeko-Munoa (Baztán) (M)
El Cabezudo (Valdeolea) (M)
El Cañón (Valdeolea) (M)
El Henal (Cantábria) (M)
El Hitón (5) (Polaciones) (M)
El Peñuco (Valdeolea) (M)
Elokorri (Navarra) (M)
Elorritaku Gaña (Oiartzun) (CR)
Elorta (7) (Navarra) (CR)
Elurzulo (Urnieta) (CR)
Errekalko (11) (Navarra) (CR)
Errenga (8) (Oiartzun/Lesaka) (CR)
Erroldan Arriya (Urrotz) (M)
Estrankalai (Navarra) (M)
Etnera I (2) (Urnieta) (CR)
Etnera II (4) (Andoain) (CR)
Etzela (16) (Elduain) (CR)
Etzelako Arritxuriak (2) (Elduain) (CR)
Etzela Oeste (Elduain) (CR)

Ezioko Soroa (4) (Hernani) (CR)
Ezioko Tontorra (5) (Hernani) (CR)
Fresno (Campo de Enmedio)(M)
Galtzarrieta (3) (Navarra) (CR)
Gorramendi (Navarra) (M)
Henal (Castro-Urdiales) (CR)
Igaratza III(Enirio/Aralar) (M)
Igaratza II (Enirio/Aralar) (CR)
Beaskin (Enirio/Aralar) (CR)
Ilso Chiquito (Castro-Urdiales) (M)
Ilso de Anguía (Castro-Urdiales/Guriezo) (M)
Ilso de Cerdigo (Castro-Urdiales) (M)
Ilso de Herrera (Castro-Urdiales/Trucios)
Ilso de Linares (Castro-Urdiales) (M)
Ilso de Linares (Castro-Urdiales/Guriezo) (M)
Ilso de Lodos (Cantábria) (M)
Ilso de Mello (Castro-Urdiales/Músques) (M)
Ilso del Alto Guriezo (Ampuero) (M)
Ilso de Perutxote (Castro-Urdiales/Trucios) (M)
Ilso Grande (Castro-Urdiales) (M)
Irazustako Lepoa (Eniria/Aralar) (M)
Irumugeta (5) (Navarra) (CR)
Iruñarri (Erasun) (M)
Itaida (Entzia) (M)
Iturrieta (S. Sebastián) (M)
Izkoa (4) (Navarra) (CR)
Jaizkibel I (2) (Hondarribia) (CR)
Jaizkibel II (5) (Hondarribia) (CR)
Jentillarri (Enirio/Aralar) (M)
Kapitarte (Entzia) (M)
Kauso I (2) (Oiartzun) (CR)
Kauso II (2) (Oiartzun) (CR)
Korleta (Vizcaya) (CR)
La Corona de Campóo (52) (Campóo de Suso) (CR)
La Cuadra (2) (Valdeolea) (M)
La Llaneda (Valdeolea) (M)
La Matorra I (Valdeolea) (M)
La Matorra II (Valdeolea) (M)
Langagorri (Donostia) (M)
La Puentecilla (Valdeolea) (M)
La Serna (Burgos) (M)
La Tejeria I (Xabier) (M)
La Tejeria II (Xabier) (M)
Las Atalayas (Burgos) (M)
Lerate (Baztán) (M)
Lizarrozko (4) (Navarra) (CR)
Lorengoz (Burgos) (M)
Los Cuetos (Liébana) (CR)
Los Lagos (3) (Campoo de Suso) (M)
Luurzu (Quinto Real) (CR)
Maistrugain (6) (Navarra) (CR)
Mataporquera (Valdeolea) (M)
Maya (Cantábria) (CR)
Mendizorrotz (Donostia) (CR)
Mojón de Estremedillo (Valdeporres) (M)
Mongarrido (2) (Cantábria) (M)
Monte Adi (7) (Navarra) (CR)

Moyon de la Corrala (Astúrias) (M)
Mugako Arriya (Sierra Urbasa) (M)
Mugarriluze (Eskoriatza-Barrundia) (M)
Mugarriaundi (Oñati-Donemiliaga) (M)
Mulisko (Urnieta-Hernani) (M)
Mulisko Gaina (4) (Urnieta-Hernani) (CR)
Munerre (5) (Oiartzun) (CR)
Oianleku Norte (7) (Oiartzun) (CR)
Oianleku Sul (2) (Oiartzun) (CR)
Oiza (Navarra) (CR)
Pagolleta (Navarra) (M)
Pagozarreta (Alava) (M)
Palmedian (Liébana) (CR)
Pedresites (Liébana) (M)
Pedruecos (Luena) (M)
Peña Lada (Burgos) (M)
Peña Oviedo 2 (Liébana) (CR)
Peñahincada (Valdeolea) (M)
Peruchote (Castro-Urdiales) (CR)
Piedra del Fraile (Burgos) (M)
Piedras Mormas (3) (Urantzia) (M)
Canto de Piedrahita (Atapuerca, Burgos) (M)
Pikuda Hego (2) (Navarra) (CR)
Pikuda Ipar (2) (Navarra) (CR)
Piruquito (Cantábria) (CR)
Quintalanara (Burgos) (M)
Robredo de las Pueblas (2) (Burgos) (M)
Rolán (Navarra) (M)
Salegar (Burgos) (CR)
Saltarri (Enirio/Aralar) (M)
Sansón (Palencia) (M)
Saroiko-Bixker (Baztán) (M)
Sejos (Polaciones) (CR)
Sejos 2 (Polaciones) (CR)
Soalar (Baztán) (M)
Supitaitz (Enirio/Aralar) (M)
Tontortxiki 1 (Guipuzkoa) (CR)
Tontortxiki 2 (Guipuzkoa) (CR)
Tontortxiki 3 (Guipuzkoa) (CR)
Tontortxiki 4 (Guipuzkoa) (CR)
Tximistako Egia (6) (Urnieta) (CR)
Txoritokieta (Astigarraga/Errenteria) (M)
Unamene (3) (Hernani-Arano (CR)
Urdiales (Castro-Urdiales) (M)
Urdintz (Baztán) (M)
Urlegi (3) (Navarra) (CR)
Urkulu Txiki Egia (4) (Oiartzun) (CR)
Usobelartza (Andoain) (M)
Villaescusa (2) (Burgos) (M)
Villanueva de Gumiel (Burgos) (M)
Xanxoten Arria (Navarra) (CR)
Yelso de Hayas
(Limpias/Liendo/Ampuero) (M)
Zorrotzarri (Urbia) (M)


 

6.1. A Catalunha

A metade setentrional da Catalunha é também relativamente fértil em monumentos meníricos (Tarrús, 2002), sendo alguns de dimensões apreciáveis, como a Pedra Dreta de Can Ferrer (com cerca de 3.5 m), La Murtra de S. Climent de Sescebes (com 3.45 m) ou Los Palaus (com cerca de 3.20 m).

Não se conhecem recintos megalíticos.  

A matéria-prima mais frequente é o granito e outras rochas granitóides.

Tal como na maior parte das áreas peninsulares, com as raras excepções acima referidas, não dispomos de dados de natureza cronológica, embora a generalidade dos autores se incline para uma atribuição cronológico-cultural genericamente coerente com os dados disponíveis para o megalitismo funerário regional, com cronologias que arrancam no Neolítico Medio.

6.2. Listagem

Ardèvol (Pinos)
Cal Camat (Vilassar de Dalt , Alt Empordà)

Camp de la Matalena (Agullana, Alt Empordà)

Can Llaurador (Santa Cristina d'Aro)

Cardona (Cardona)
Casa Cremada I (Roses, Alt Empordà)
Casa Cremada II (Roses, Alt Empordà)
Castellar (Espolla, Alt Empordà)
El Home Encantat (Alt Urgell)
Estanys I (La Jonquera, Alt Empordà)
Estanys II La Jonquera, (Alt Empordà)
La Murtra (2) (Sant Climent Sescebes, Alt Empordà)
La Murtra (Romanyà de la Selva, Alt Empordà)
La Pedra Dreta de Can Ferrer (Penedès)
La Pedra Dreta del Grau (Osona)
La Pedra fita de Su (Solsonès)
La Pedra Llarga de Sant Hilari (La Selva)
La Pedra Ramera (Baix Empordà)

La Pedrafita de Santa Madrona (Osona)
La Péira de Mig Aran (Val d'Aran)
La Pedra de les Goges (Vallvanera, Baix Empordà)
La Piedra del Diablo (La Garrotxa)
La Roqueta (Cardona)
L'Avi (Tossa de Mar)
Mas Ros (Platja d'Aro, Alt Empordà)
Menhir dels Palaus (Agullana, Alt Empordà)
Menhir d'En Llach (Llagostera)
Menhir de Vinya Monera (Capmany, Alt Empordà)
Montagut (Llagostera)
Motllor (Tossa de Mar)
Ortoneda (Solsona)
Pedra Aguda (Platja d'Aro, Alt Empordà)
Pedra Dreta d'Agullana (Agullana, Alt Empordà)
Pedra Dreta de Cervera (Cervera de Marenda)
Pedra Dreta del Mas Roqué (Rabós, Alt Empordà)
Pedra Dreta de Maçanet de Cabrenys (Alt Empordà)

Pedra Dreta de Riutort (Pau, Alt Empordà)
Pedra Dreta de Sant Sadurni (St. Sadurni de L'Heura)
Pedra Dreta de Sant Salvador (Cervera de Marenda)
Pedra Dreta de Vilartolí (Sant Climent Sescebes, Alt Empordà)
Pinós (Pinós)
Puig Ses Forques (Calonge, Alt Empordà)
Quer Afumat I (Campany, Alt Empordà)
Quer Afumat II (Campany, Alt Empordà)
Roc del Frare (Alt Empordà)
Rocs Blancs ((Espolla, Alt Empordà)
Terme de Beliu (Calonge, Alt Empordà)
Terme Gros o de La Creu d'en Barraquer (Santa Cristina d'Aro)
Vilatoli (Alt Empordà)

 

7.1. Outros

Para além destas cinco áreas que, genericamente, possuem alguma coerência geográfica e arqueológica, existe, na Península Ibérica, um conjunto de manifestações pontuais, difíceis de integrar em conjuntos e cujo isolamento pode, por hipótese, corresponder a lacunas da investigação.

O menir da Sierra de la Tercia, dado recentemente a conhecer, na Província de Murcia (Ayala et al, 2000) é um monólito de calcário, com cerca de 4 m de comprido, em cuja base foram recolhidos materiais arqueológicos de tipologia neolítica (pontas de seta, lâminas de sílex e instrumentos de pedra polida) e cujo significado cultural se desconhece, tanto mais que se trata de um fenómeno sem paralelos conhecidos. Os dados publicados, pouco explícitos, parecem evocar um depósito votivo.

Mais a ocidente, importa referir alguns menires recentemente identificados na Sierra de Huelva (Dominguez et al., 1996), alguns ainda inéditos (Leonardo Garcia, com. pessoal), para além de um conjunto publicado no início dos anos 90 (Berrocal, 1991). Trata-se de monólitos para os quais, mais uma vez,   não se conhecem dados cronológico-culturais relevantes.

Também recentemente, foram dados à estampa os menires de La Cerca, na Alta Extremadura, cuja particularidade reside no facto de ostentarem gravuras incisas, em zig-zag, repetindo um dos motivos comuns da arte megalítica dolménica, mas pouco ou nada representado nos menires da Península Ibérica (onde o motivo serpentiforme é muito mais frequente).

Um destaque especial merece o menir incluído na estrutura do dolmen de Navalcán (Bueno et al., 1999), na Província de Toledo, com gravuras que se aproximam da   temática e da técnica patentes nos menires do Alentejo Central. Pode, por hipótese, tratar-se de um menir reutilizado em contexto arquitectónico funerário, fenómeno bem conhecido na Bretanha e recentemente observado em vários casos e de várias formas, em Portugal (Calado, Alvim e Henriques, n.p.).  

Por último, outras ocorrências desgarradas das principais manchas de menires peninsulares e onde, à partida, não se esperavam, são o Hito de Fuenteliante, em Salamanca ou os menires del Cañal, entre   Madrid e a serra de Guadarrama.

7.2. Levante/Andalucia/Extremadura/Meseta

La Cerca (3) (Malpartida de Plasencia)
Navalcán (2) (Oropesa)
Guadyerbas (Oropesa)
La Laguna del Conejo (Velada)
Pepina (3) (Fregenal de la Sierra)
Rabano (Fregenal de la Sierra)
Palanca del Moro (Fregenal de la Sierra)
Sierra de la Tercia (Lorca) (Ayala et al. 2000)
Hito de Fuenteliante (Salamanca)
El Cañal (Madrid)

 

8. Menires da Peninsula Ibérica: um primeiro balanço

Os menires da Europa Ocidental e, dentro deles, os menires ibéricos, correspondem a momentos e movimentos diferentes.

A origem do fenómeno megalítico europeu, deste sempre procurada no seio do megalitismo funerário, parece confundir-se, cada vez mais, nos últimos anos, com o aparecimento da arquitectura menírica. As reutilizações de menires em dolmens, os contextos arqueológicos associados e a própria releitura da iconografia megalítica, têm tornado cada vez mais plausível, como hipótese de trabalho, a alta antiguidade de alguns destes monumentos.

No extremo oposto, não nos restam actualmente quaisquer dúvidas de que, em vários contextos peninsulares, foram erguidos menires em época tão tardia como, pelo menos, a 1ª Idade do Ferro, em contextos, desta vez, claramente funerários. Essa prática está amplamente atestada no país basco e, de uma forma menos recorrente, mas indiscutível, no Alentejo Central e, ao que parece, talvez também no centro deste país.

Pelo meio, temos evidências de que alguns menires neolíticos foram reinterpretados/reutilizados, sempre no âmbito de rituais funerários, no final da Idade do Bronze - como parece ser o caso, por exemplo, da estela de Alfarrobeira, no Algarve (Gomes, 1994a) - ou no Bronze Antigo, como foi recentemente atestado nas escavações do recinto da Portela de Mogos (Gomes, 1997a) e do par de menires de S.Sebastião 1 (Évora, Portugal), este último ainda inédito e escavado pelo signatário.

Se a funcionalidade dos menires mais tardios parece desvendada, sendo parte integrante dos monumentos funerários, os monumentos neolíticos (menires ou recintos megalíticos) permanecem mais problemáticos.

Recentemente, na óptica do significado ritual dos monumentos, novas observações (Alvim, n.p.; Silva e Calado, n.p.) demonstraram satisfatoriamente a orientação astronómica dos menires neolíticos alentejanos (e, sobretudo dos recintos), a qual se revelou bastante consistente, integrando observações relativamente elaboradas como as pausas maior e menor da Lua, para além dos nascentes e ocasos solsticiais e equinociais.

Por outro lado, mesmo estando estabelecida a função funerária dos monumentos tardios, também estes parecem ter, com frequência, integrado orientações astronómicas na respectiva construção, como foi defendido em relação ao recinto de S. Cristóvão 1 (Silva, 2003) ou ao cromlech alavês de Mendiluce (Vegas, 2001).

A forma e dimensões dos menires, assim como a planta dos conjuntos, pode, por hipótese, ter implicações cronológico-culturais. Na verdade, tomando como referência o Alentejo Central e, dentro desta região, os monumentos que foram escavados e para os quais se possuem informações de teor cronológico, podemos afirmar que, nos menires mais antigos (atribuíveis ao Neolítico Antigo/Médio),   são raras as formas angulosas, dominando largamente os perfis arredondados e bojudos (variando entre as formas ovóides e as cilindróides, eventualmente achatadas) (Fig. 5, A e B). Pelo contrário, os menires mais tardios, atribuíveis à 1ª Idade do Ferro, apresentam formas muito mais angulosas e esguias; note-se que os monumentos do Vale d'El Rei (Fig. 5, B) e o Monte da Tera (Fig. 5, C), se localizam a menos de 2 Km um do outro, estando, portanto, sujeitos aos mesmos condicionalismos, em termos de matéria-prima.

Fig. 5: Morfologia comparada dos menires. A: Vale Maria do Meio (Évora, Portugal); B: Vale d'El Rei (Mora, Portugal); C: Monte da Tera (Mora, Portugal); D: Menires isolados da Cantábria (seg. Molinero, 2000).

Por outro lado, os menires isolados cantábricos correspondem, genericamente, ao modelo mais tardio (Fig. 5, D), aspecto que deve ser conjugado com as cronologias calcolíticas que lhes têm sido atribuídas, sendo que alguns podem mesmo ser posteriores. Note-se que as diferenças entre as matérias-primas alentajenas (granitos) e cantábricas (arenitos e calcário) não bastam para explicar as diferenças observadas, uma vez que os menires algarvios, de manifesta antiguidade, apresentam formas arredondadas e bojudas e têm como matéria-prima os calcários e os arenitos.

Não deixa de ser curioso que, na Bretanha, os famosos alinhamentos de Carnac, geralmente considerados os menires mais tardios na sequência regional (Sherratt), apresentem maioritariamente formas irregulares e angulosas, quando os grandes menires-estelas se assemelham morfologicamente aos menires neolíticos alentejanos.

Como se sabe (Calado, 2002b), existem outras semelhanças notáveis, entre os menires alentejanos e bretões, pelo menos entre os que, numa e noutra área, são, aparentemente, os mais antigos.

Na verdade, essa semelhança verifica-se, entre outros aspectos, na planta dos recintos: trata-se, com efeito, das duas únicas áreas meníricas europeias em que os recintos apresentam, por norma, plantas "em ferradura" (Fig. 4, A). Na Grã-Bretanha e Irlanda, pelo contrário, existem centenas de recintos megalíticos, praticamente todos de planta circular e, todos eles, certamente mais tardios (Burl, 1979, 1999).  

Esse aspecto, ao nível da Península Ibérica, suscita   não só a hipótese de os recintos cantábricos (Fig. 4, B) (para não falar já nos cromlechs pirenaicos) serem posteriores aos alentejanos, o que as propostas cronológicas em uso confirmam, mas também a vinculação de ambas regiões a áreas culturais distintas: numa primeira fase, uma "proximidade" cultural, resultante de contactos privilegiados de longa distância, entre o Sul de Portugal e a Bretanha, sem incidência noutras áreas peninsulares e, numa segunda fase, uma "proximidade" cultural dominante entre o Norte de Espanha e as Ilhas Britânicas. Este modelo que, certamente, necessita de ser melhor estruturado, pode, desde logo conjugar-se com as analogias ao nível dos concheiros mesolíticos entre o Tejo/Sado e a Bretanha, mas também integrar alguns reconhecidos pontos de contacto entre a Arte Rupestre do Noroeste da Península Ibérica e das Ilhas Britânicas.

 

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