gema
grupo de estudos do megalitismo alentejano

 
 

 

A vinha rugosa e sem vida, no Inverno… desperta na Primavera!
A propósito do Sarcófago das Estações do Monte da Azinheira, Reguengos de Monsaraz

Luís Jorge Gonçalves

 

Resumo
O solstício do Inverno de 2009 e o sarcófago das Quatro Estações, de 270-280 d.C., descoberto em meados do século XIX, no Monte da Azinheira, Reguengos de Monsaraz, levam-nos a uma reflexão sobre como, no século III d.C., os homens e as mulheres, nesse período conturbado do Império Romano, continuavam com a crença pagã que ligava o ciclo da vida ao ciclo anual da natureza. Esta crença pode ter tido as suas raízes num mundo que não nos deixou memórias escritas, mas monumentos megalíticos, cujas estruturas foram organizadas por princípios análogos.

Palavras-chave
Estações, Mitologia, Dionísio, Megalitismo

 

Abstract
The winter solstice of 2009 and the sarcophagus of the Four Seasons in 270-280 AD, discovered in mid-nineteenth century, in the Monte da Azinheira, Évora, lead us to a reflection of how in the third century AD, men and women of that turbulent period of the Roman Empire, continued with the pagan belief that linked the life cycle to the annual cycle of nature. This belief may have had its roots in a world that has not left written memoirs, but megalithic monuments with similar principles embedded in their structures.

Keywords
Season, Mythology, Dionysus, Megaliths

“Dionísio era a vinha (…) durante todo Inverno, à vista, era algo morto, um velho cepo rugoso que parecia improvável vir a reverdejar mais alguma vez, morria com a chegada do frio (…). Sempre restituído à vida, morria e erguia-se de novo. Era a sua alegre ressurreição que se celebrava no teatro. (…) Os seus devotos acreditavam que a morte não é o fim e a ressurreição de Dionísio constituía prova concludente de que o espírito vive para sempre, mesmo depois do corpo ser consumido.”
Edith Hamilton, 1983: 82.

Fig. 1: Cepa

Introdução
No mundo greco-romano, a crença em Dionísio/Baco assentava na valorização da renovação anual da natureza e parece ter sido, de certo modo, a herdeira de antigas crenças que podemos remontar às primeiras sociedades camponesas.
Esta era ainda uma fé na renovação da vida, pois os ciclos anuais e o ciclo da vida faziam parte de um mesmo cosmos; esta ideia foi expressa por Plutarco, num texto dirigido à sua mulher, depois da morte da filha de ambos: “quanto àquilo que ouviste, querida, que, uma vez separado o corpo, o espírito se desvanece e nada sente, não deves aceitar tais afirmações, devido às promessas sagradas e fiéis feitas nos Mistérios de Baco e que nós conhecemos tão bem, pois pertencemos a essa comunidade religiosa” (Hamilton 1983, 83).
Os Génios das Estações ou Tempora Anni (Καιροι) eram as personificações dionisíacas da renovação da natureza e dos seus ciclos anuais, ciclo eterno do rejuvenescimento e da revitalização do Cosmos (Maciel 1996).
O ciclo estacional e o ciclo da vida e da morte conjugavam-se, profundamente, num corpo ideológico que sobreviveu com a mitologia greco-romana e se materializou em artefactos artísticos, como os sarcófagos, executados no século III d.C.

Fig. 2: Dioniso


 
Sarcófago das Estações do Monte da Azinheira: descoberta e seu contexto
Em 1840, numa necrópole da villa romana do Monte da Azinheira, em Reguengos de Monsaraz, foi descoberto o sarcófago com o tema das Quatro Estações.
Num texto publicado em 1867, Eduardo Augusto Allen, refere que o sarcófago foi encontrado num curral de bois, com tampa lisa de mármore, sem inscrições, composta de três elementos colocada sobre barras de ferro chumbadas.
Continha um esqueleto e junto do crânio estava um pequeno vaso de vidro. Foram identificados, na mesma área, outros sarcófagos, em mármore, “…mais ou menos branco e mais ou menos lisos, e urnas em barro, com a capacidade aproximada de 40 a 48 litros.
Parte dos sarcófagos de laje escura, estavam cobertos com ladrilhos argamassados e continham todos um esqueleto e um vaso de barro vidrado de verde. “…existiam nas imediações do local, vestígios de edificações antigas, como arcos de aqueduto, galerias subterrâneas abobadadas, dentro das quaes estavam penduradas pequenas lâmpadas de barro, etc.” (Allen 1867).  

 

Iconografia
O sarcófago é monolítico (dimensões pelo exterior: H- 59 cm ; L- 195 cm ; T – 63 cm ; dimensões pelo interior: L – 180 cm), em mármore, com forma de lenós, tem no centro da composição um clypeus, com um busto ad-hoc para o falecido.
O busto apresenta um tratamento plástico genérico e outro que se pretendia individualizado. A parte genérica do busto tem torso com túnica e toga, com as pregas tratadas com minúcia, segura na mão esquerda um volumen, tem a mão direita em frente do peito e apresenta a cabeça virada para a direita, com o cabelo curto e ondulado e as orelhas à vista. O tratamento que se pretendia personalizado tem uma fisionomia da face que não foi terminada, apresentando em vez disso rasgos a marcar os olhos, o nariz e a boca. de forma muito esquemática.
O clypeus é sustentado por duas Vitórias, com chitton sem mangas, a olhar para trás. Sob o clypeus é retratada uma cena da vida rural, com um camponês a lavrar com uma junta de bois e, em segundo plano, vê-se um ramo.
De cada um dos lados da composição central, estão as figuras, com atributos, que representam as estações do ano. Na esquerda, o Inverno (Hiems) e o Verão (Aestas).
O Inverno com túnica e calças largas, uma cana na mão direita e dois patos na esquerda. O Verão com clamide, um cesto de espigas, na mão direita, e, na esquerda, uma foice.
No lado direito, a Primavera (Ver) e o Outono (Autumbus). Mais próxima do centro, a Primavera, com túnica e clamide, um cesto de flores, na mão esquerda, e uma foice, na direita. O Outono, com clamide, tem uvas, na mão direita, e um tirso, na esquerda.
Entre a Primavera e o Outono está o Oceano, deitado e semi-nu, representado com barba e dois cornos na cabeça e com a mão esquerda no colo. Entre a cabeça da Primavera e a mão direita do Outono vê-se o torso de uma figura pequena, identificada como um Amor.
No topo esquerdo, dois Erotes pisam uvas e no topo direito um Erote toca flauta e segura um pau. Todas as figuras olham para o centro da composição.
A sua datação, segundo Robert Turcan (1966: 300), tendo em conta o facto de ser um sarcófago cujo clypeus é seguro por Vitórias, pode corresponder a cerca de 270-280 d.C.

Fig. 3: Sarcófago romano séc. III (inglaterra)

Renascer estacional
Neste sarcófago, as ligações ao cosmos dionisíaco começam na forma de lenós do sarcófago, ou a tina onde se pisavam as uvas, que é representada, no topo esquerdo, com dois Erotes a pisá-las.
As Vitórias eram um dos símbolos da Pax Romana que teve uma forte conotação ideológica na época de Augusto, significando ainda a abundância, pois somente com a paz é que se tornam possíveis as boas colheitas. Passados dois séculos, as guerras nas fronteiras e as perturbações internas tinham desvanecido esse sentimento de Pax Romana, que o império garantira na época de Augusto.
No século III, por analogia, na arte funerária, as Vitórias são sobre a morte, na perspectiva dionisíaca, ou seja, das forças permanentes da renovação da natureza sobre as forças do mal.
Os Génios das Estações ou Tempora Anni (Καιροι) simbolizavam a renovação da natureza e os seus ciclos anuais: Inverno (Hiems); Verão (Aestas); Primavera (Ver); Outono (Autumbus). Note-se que a ordem em que aparecem as estações, no sarcófago - da esquerda para a direita: Inverno, Verão, Primavera e Outono - não corresponde à sucessão normal do ciclo das estações, uma vez que as estações do renascimento anual, Verão e Primavera, estão mais próximas do defunto. Trata-se de uma relação simbólica: o clypeus, com o retrato do defunto, está elevado no centro da composição, povoado de personificações mitológicas, tendo a sustentá-lo duas Vitórias, numa alusão à Vitória sobre a morte; mais próximas, as personificações do Verão e Primavera, as estações do renascimento anual (Maciel 1996).  
Temos ainda as personificações do Oceano, deitado e semi-nu, entre o Inverno e o Verão, e o Amor, entre a cabeça da Primavera e a mão direita do Outono: são imagens icónicas desprovidas de referências a uma estação concreta.
O sarcófago do Monte da Azinheira integra-se numa atitude perante a morte, em que esta não é o fim mas parte dum processo contínuo de renovação, como o ciclo estacional, que se filia nas crenças dionisíacas que a sociedade romana amadureceu ao longo do século III. Era, provavelmente, uma resposta a um contexto político/militar mutável, ou seja, perante a instabilidade quotidiana, valorizava-se a estabilidade anual da natureza, garantida por Dionísio/Baco, mas também através dos Mistérios de Elêusis, com Demeter/Ceres e Perséfone/Proserpina (Gonçalves 2007).

Fig. 4: Imagem de Victória

O megalitismo pode ter incorporado, nas orientações dos monumentos, de uma forma “artística”, as concepções das sociedades neolíticas sobre a ligação metafórica entre os ciclos estacionais e o ciclo da vida. Compreender o ciclo das estações foi essencial para a sobrevivência das sociedades primitivas que dependiam da renovação anual da natureza. Na verdade, o Sol não nasce nem se põe todos os dias nos mesmos pontos. Observar os solstícios do Inverno e do Verão era testemunhar os momentos em que o Sol nascia mais a Sul ou mais a Norte e que correspondiam respectivamente ao dia mais curto e ao dia mais longo. O solstício do Inverno era o momento em que muitas plantas parecem mortas, como a própria vinha dionisíaca que parecia “algo morto, um velho cepo rugoso” e, no solstício de Verão, estava “restituída à vida”. Esta observação tinha de ser transposta para a vida dos homens, vista como um ciclo de contínua renovação entre a vida e a morte. O culto ao Sol, nos solstícios, seria pois um duplo culto, aos defuntos e às colheitas. Para o famoso recinto megalítico de Stonehenge, Mike Parker Pearson (2008) apresenta um modelo interpretativo em que aquele monumento seria o centro de um vasto complexo, onde os ciclos estacionais e ciclo da vida eram o âmago da actividade simbólica, com dois possíveis momentos centrais de celebração: os solstícios de Inverno e de Verão. Em Portugal, no Alentejo, os trabalhos de Cândido Marciano da Silva (2005), Manuel Calado (2005) e Pedro Alvim (2005) contribuíram para esclarecer as relações entre o recinto megalítico dos Almendres e o ciclo solar, embora, naturalmente, não existam dados objectivos que permitam sustentar a relação simbólica, altamente plausível, entre o ciclo das estações e o ciclo da vida: o mito do eterno retorno.O culto de Dionísio, como muitos outros aspectos da cultura clássica - entre os quais os Mistérios de Elêusis - pode ter sido o repositório de crenças longínquas no tempo, como as que ergueram os monumentos megalíticos da Europa. A iconografia do Sarcófago das Estações do Monte da Azinheira, como outros da mesma narrativa mítica, ao juntar o ciclo estacional ao ciclo da vida, está-nos a dar uma porta, para olhar na direcção de um passado ainda mais longínquo. Como afirmou Cícero estas crenças “durante séculos ajudaram os homens a viver com alegria e a morrer com esperança”.

 

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