|
1.
Introdução e Metodologias
Quando
Leonor Pina apresentou ao II Congresso Nacional de Arqueologia
a descoberta em 1964 do Cromelech dos Almendres (Pina, 1971),
já se tinha instalado na comunidade dos estudiosos da
Arqueologia a controvérsia sobre o possível significado
astronómico de alguns monumentos megalíticos.
Alexander Thom acabara de publicar a síntese duma extensa
campanha de observação de largas centenas de monumentos
megalíticos na Grã-Bretanha (Thom, 1967), onde
acumulou informação susceptível de sustentar
a existência de direcções astronómicas
em monumentos megalíticos, bem como a utilização
de conhecimentos elementares de geometria e aritmética
na sua construção.
Muitos cromelechs visitados apresentam formas elípticas
e circulares simples, ou constituídas por arcos elípticos
ou circulares construidos com base em triângulos pitagóricos.
Dado que estes são realmente triângulos rectângulos
em que os lados têm comprimentos representados por números
inteiros, naturalmente se conjecturou a possibilidade de ter
sido usada nessa época uma unidade de comprimento, que
veio a ser designada por jarda megalítica (aprox. 0.83
m).
Alternativamente, a análise aprofundada de casos singulares
específicos é também susceptível
de propor interpretações elaboradas, dos respectivos
monumentos, com recurso ao especulado conhecimento dos povos
construtores. A validade destas interpretações
repousa pois na acumulação de circunstâncias
particulares que diminuam a possibilidade dos arranjos direccionais
ocorrerem por acaso, e sobretudo na possibilidade de, com os
conhecimentos actuais, podermos rigorosamente utilizar o respectivo
monumento para o fim conjecturado.
É o caso de Stonehenge, principalmente Stonehenge-I,
em que Hawkins (Hawkins, 1964) interpreta o círculo dos
"Aubrey Holes" como um verdadeiro computador (no sentido
de ábaco) megalítico para a previsão de
eclipses.Posteriormente, o célebre cosmologista Fred
Hoyle, desafiado por um seu amigo arqueólogo, reinterpreta
(Hoyle, 1966) o trabalho de Hawkins, e apresenta de forma inequívoca,
a possibilidade de se usar o círculo de 56 buracos como
previsor da totalidade dos eclipses (Hoyle, 1972). Esta reinterpretação
foi feita com ênfase nos pormenores que se podem observar
no próprio monumento. Efectivamente a conjectura, consiste
em interpretar o círculo de 56 buracos como uma representação
da eclíptica sobre a qual se podem mover, com regras
muito simples, de buraco para buraco, três marcas; uma
que representa o Sol, outra que representa a Lua, e uma terceira,
na realidade duas diametralmente opostas, que representam os
nodos celestes da Lua. A coincidência das três marcas
num mesmo buraco, ou em proximidade suficiente, definiria a
ocorrência dum eclipse.
Embora, de longa data (Lockyer, 1906), se considerasse o significado
astronómico de Stonehenge-I, foi a possibilidade de simular
em computador esta conjectura que permitiu a Hawkins demonstrar
a sua plausibilidade. Além da controvérsia que
gerou entre os arqueólogos e os astrónomos, focou
de forma
acentuada a atenção de grande número de
cientistas que posteriormente examinaram deste ponto de vista
variados monumentos megalíticos, interpretando em termos
astronómicos, as suas feições apropriadas.
Independentemente da contovérsia que se instalou neste
seguimento, entre o método de observação
e análise utilizado pela arqueologia, e o método
de observação e análise utilizado pelas
ciências da Natureza, existe também o confronto
entre ciência e conjectura. Não é de facto
possível confirmar hoje o raciocínio que os construtores
megalíticos poderiam ter utilizado para o desenho e implantação
dos objectos que hoje designamos por monumentos megalíticos,
nem a sua motivação para o fazer. Tudo o que podemos
é fazer hipóteses (conjecturas), e mostrar como
elas podem ser compatíveis ou não com a realidade
observada. Se ainda é possível mostrar hoje como
se poderia utilizar o objecto megalítico para mostrar
a sua compatibilidade ou não com a hipótese formulada,
já não é, em geral, possível comprovar
por experimentação, pois o seu desenvolvimento
não seria feito estrictamente com os conhecimentos intelectuais
da época, mas seria sempre influenciado pela concepção
actual do mundo. Também não existem em geral suficientes
réplicas do mesmo tipo de construções para
que o seu estudo comparativo comprove a conjectura. Isto sem
questionar se, desde a construção inicial até
ao presente, não terá havido rearranjos, já
em épocas mais recentes, isto é, com conhecimentos
científicos mais avançados.
Curiosamente são as conjecturas associadas aos monumentos
megalíticos únicos as que mais estimulam e fascinam
os cientistas que têm dedicado atenção às
suas interpretações astronómicas, geométricas
e aritméticas. Quando há um grande número
de monumentos megalíticos semelhantes são as interpretações
estatísticas que, fornecendo uma base segura para estudos
comparativos, mais podem contribuir para o avanço do
conhecimento dessa época.
Existirá sempre uma controvérsia entre o rigor
do método científico e o que será sempre
uma conjectura por impossibilidade de confirmação
ou prova conclusiva. Ciência ou Conjectura será
sempre o mote das interpretações astronómicas
dos monumentos megalíticos.
A acumulação do elevado número de observações
de natureza objectiva, cuja interpretação pode
requerer conhecimento especializado (astronómico, geométrico
ou aritmético), bem como a sua interpretação,
terá apanhado de surpresa a comunidade arqueológica,
ao mesmo tempo que suscitou o interesse e o entusiasmo de muitos
intrusos, cientistas de outras áreas do conhecimento,
fascinados com a perspectiva de se poder reconhecer a existência
de registos megalíticos do desenvolvimento intelectual
da espécie humana. Embora este desenvolvimento esteja,
via de regra, associado aos registos, isto é, associado
ou dependente da "escrita" como forma simbólica
de representar o conhecimento, não pode ser descurada
ou ignorada a necessária observação continuada
da natureza envolvente sobre a qual ocorre a "formalização"
de conceitos que naturalmente precede essa evolução.
Desta forma se pode supor que a invenção da escrita
foi antecedida duma longa fase de observação e
experimentação capaz de estimular a evolução
intelectual. Assim, a pesquisa de possíveis registos
anteriores à escrita toma a forma duma verdadeira arqueologia
do pensamento humano, um pouco na linha do que Carl Sagan descreve
no seu livro "Dragons of Eden" relativamente a "sinais"
que ainda hoje perduram e podem, ou poderão, ser reconhecidos
na fala e no comportamento humano, aprendidos no tempo em que
os seres humanos viviam nas árvores e nas cavernas.
Não será de todo inverosímil que a simples
observação do nascer ou do pôr do Sol tenha
chamado a atenção para que a sucessão destes
eventos no horizonte se mantém dentro dum domínio
bem definido, ou que o reflexo do Sol ou da Lua na água
no fundo dum poço não seja visto acima duma dada
latitude; e que observações desta natureza tenham
sido úteis para desenvolver conceitos que mais tarde
poderiam ser reconhecidos no âmbito do que hoje referimos
como astronomia;
e que esse conhecimento tenha sido, dalguma forma incorporado
nas construções que ainda hoje descobrimos.
A grande quantidade de observações relacionadas
com a construção dos recintos e agrupamentos megalíticos,
ou com a sua localização, permite analisar de
forma estatística a plausibilidade das interpretações
astronómicas. No entanto, embora suficiente para indicar
essa plausibilidade, a análise especializada necessária
para uma conclusão com elevado grau de confiança,
gerou também acesa polémica no seio da comunidade
estatística (Freeman, 1976, 1979) sem nunca se ter chegado
a uma conclusão definitiva, por exemplo, relativamente
à jarda megalítica
Tudo indica que a seguir ao entusiasmo inicial que levou inclusivamente à criação de publicações
periódicas especializadas, se tenha instalado uma descrença
relativamente às mais apuradas especulações
sobre os significados astronómicos, e se tenha voltado
às metodologias mais convencionais da arqueologia.
Ao acompanhar Michael Hoskins director do Journal for the History
of Astronomy, e um dos entusiastas desse período inicial,
numa das suas visitas (1995) à região de Évora
e Monsaraz, foi possível verificar que o seu trabalho
sistemático de medição das orientações
do corredor central das antas, e a sua análise em termos
estatísticos, era em tudo semelhante ao que outro arqueólogo
faria, por exemplo, relativamente à colheita de peças
de cerâmica, em que as medições dos diâmetros
relativos das peças, tal como a sua forma, podem distinguir
diferentes culturas regionais e caracterizar assim os aglomerados
sociais dos seus produtores.
Em termos arqueológicos esta atitude é porventura
a que mais pode contribuir para o conhecimento da sociedade
pré-histórica, e certamente no que respeita ao
uso do conhecimento de orientações astronómicas
em monumentos megalíticos, mais terá contribuido
do que outras conjecturas mais ousadas.
O próprio M. Hoskins fez sentir que todo o trabalho feito
de há três décadas atrás, incluindo
o realizado sobre Stonehenge-I, tinha sido algo secundarizado
em favor do método tradicional da análise arqueológica.
Nós, que não sendo arqueólogos, encontramos
nestas conjecturas um desafio intelectual, continuaremos sempre
a oferecer interpretações que mais não
são do que maneiras diferentes de olhar para a mesma
realidade, independentemente de serem ou não incorporadas
na corrente principal prosseguida pelos especialistas da área,
porque acreditamos que o desenvolvimento intelectual do Homem
se radica no passado pré-histórico.
Em Portugal cita-se desde 1846 a existência de monumentos
megalíticos, do tipo frequentemente associado com observações
astronómicas, numa distribuição geográfica
que se estende de Norte a Sul do país, sendo porém
as identificações efectuadas nas últimas
décadas as que têm fornecido o maior número
de monumentos acessíveis à análise, situados
em grande parte na região de Évora.
No que se segue omite-se o detalhe das descrições
pomenorizadas dos monumentos envolvidos, actualmente amplamente
descritos na literatura, e também os detalhes dos cálculos
efectuados que só tornariam pesado um texto desta natureza.
Os conceitos básicos de astronomia necessários
para estes cálculos, bem como para a análise que
se segue, podem ser facilmente adquiridos por não especialistas
com recurso a bibliografia específica preparada para
arqueoastronomia (Newton, 1974)*. Não se fará
neste texto referência exaustiva à literatura actualmente
existente sobre o Cromelech dos Almendres, e sobre os menhires
do Alentejo, em cujas publicações também
se encontra excelente documentação fotográfica.
Deve ter-se em conta que quaisquer sugestões de associações
astronómicas só têm o rigor do cálculo
quando o ponto de observação e o ponto de mira
podem ser definidos inequivocamente e com rigor. De resto são
sempre aproximações da expectativa ou da conjectura,
aproximações essas em que muitas vezes é
suficiente a ordem de grandeza para o prosseguimento da análise
mas em que a confirmação irrefutável requereria
uma determinação mais rigorosa dos valores envolvidos.
Em muitos casos não fará sequer sentido fazer
cálculos muito refinados, introduzindo por exemplo correcções
de segunda ordem, quando os dados de base, por exemplo as posições
dos monólitos, não são suficientemente
fiáveis ou com o mesmo grau de rigor.
Para facilidade de identificação adoptou-se a
numeração dos monólitos usada em (Alvim,
1997,pg. 16)
O leitor desculpará o tom narrativo de muitas passagens,
mas também será importante perceber como a evolução
da percepção dos factos observados pode conduzir
a construção da conjectura. Este texto é
apenas a apresentação nua e crua de algumas feições
aparentemente inegáveis do Cromelech, e dos raciocínios
interpretativos que elas suscitaram. Quando os acordos numéricos
parecem consubstanciar essas interpretações isso
não quer dizer que o Homem megalítico tenha seguido
o mesmo raciocínio mas apenas que o resultado pode ser
atingido por uma via diferente. O Cromelech parece tão
rico na sua estrutura e feições internas, que
certamente muitos pontos de vista são necessários
para as abordar.
* Para
melhor compreensão do que se segue convém no
entanto ter presentes alguns factos básicos. Como o
Sol está num dos focos da órbita elíptica
da Terra, os pontos correspondentes aos equinócios
dividem a órbita em dois arcos. O arco correspondente
ao Verão é maior, e leva presentemente cerca
de 7 dias mais a ser percorrido pela Terra, do que o arco
correspondente ao Inverno. Desconhecedor desta circunstância,
embora mais mitigada na sua época, o Homem megalítico,
para quem a única realidade é apenas a variação
anual do nascer (pôr) do Sol no horizonte distante,
não poderia formular conceito de equinócio mais
elaborado do que o correspondente aos pontos em que a duração
entre duas passagens "equinociais" sucessivas durassem
o mesmo tempo, quer de Verão, quer de Inverno. Estes
pontos no horizonte, situam-se, por essa razão, ligeiramente
a Norte da linha Este-Oeste, e marcam o que se designa por
"equinócio megalítico". Convém
também notar que o Sol, no seu movimento diurno, não
se põe ou nasce perpendicularmente ao horizonte, mas
sim ao longo de uma trajectória cuja inclinação
depende da latitude do lugar. Isso fará com que, no
caso de se observar ao longo duma linha inclinada, por exemplo
resultante de o Sol se pôr sobre um perfil orográfico
situado acima do horizonte, o plano de observação
intersecte o Sol descendente algo a Sul da linha Este-Oeste,
num valor angular que depende dessa inclinação.
2.
O Cromelech dos Almendres
Em 1974, R. Vilela Mendes tinha visitado o Cromelech dos Almendres
e, impressionado com a imponência do recinto decidiu
procurar pontos de referência nas imediações.
Escolheu caminhar na direcção do nascer do Sol
no Solstício do Verão e, para sua surpresa deparou
com o grande menhir tombado junto ao Monte dos Almendres.
Na primeira visita conjunta que fizemos ao recinto, acompanhados
por John Campbel, Professor da Universidade de Cambridge,
foi imediatamente reconhecido, e ponto assente, que se poderia
materializar qualquer direcção que se quisesse,
isto é, que, em relação a qualquer direcção
que viesse a ser objecto de conjectura, se poderia sempre
encontrar um ou mais pares de monólitos alinhados nessa
direcção. Dito por outras palavras, não
se pode atribuir nenhum significado àquilo que não
será mais do que uma simples coincidência. É
como aquela situação em que se descobre em casa
que do canto do sofá se vislumbra o nascer do Sol na
janela do corredor ao fundo, no dia 22 de Setembro; não
houve, da parte do construtor certamente nenhuma intenção
de o fazer, e muito menos com significado astronómico.
O simples facto duma direcção se materializar
em monumentos megalíticos não é suficiente
para lhe atribuir qualquer significado de natureza astronómica.
Este significado tornar-se-á progressivamente mais
plausível à medida que se adicionam factos adjuvantes
que entretanto se descubram e que concorram no sentido de
reforçar a interpretação. Nessa mesma
visita se observou que a forma típica dum elevado número
de monólitos envolvia uma face plana vertical, ou pelo
menos uma aresta, sugerindo a necessidade dum levantamento
exaustivo dessas feições para as associar às
possíveis conjecturas. Esse levantamento foi por nós
efectuado em 1977, não tendo surgido, nessa observação,
nenhuma circunstância particular que privilegiasse alguma
direcção solsticial ou outra, interna ao recinto
megalítico. Nessa altura muitos monólitos estavam
caídos, e a localização dos seus socos
ainda não tinha sido efectuada. É possível
que os trabalhos posteriores, de colocação dos
monólitos na posição vertical, e sua
implantação nos seus socos originais, possa
ter revelado feições adicionais significativas,
não tidas em conta no presente texto.
Outra feição global imediatamente observada
nessa altura, diz respeito ao desarranjo que aparenta a extremidade
Este do conjunto globalmente elíptico de monólitos.
Leonor Pina atribui (Pina, 1976) essa irregularidade à
possível erosão que o terreno tenha tido desde
a época da construção. Na realidade o
topo Oeste parece menos inclinado do que a restante área
do cromelech, e de facto os restantes monólitos exibem
uma distribuição razoavelmente elíptica,
isto é, exceptuando a zona aparentemente desarranjada
os restantes monólitos parecem distribuir-se em torno
duma linha média de forma elíptica. De tal modo
a zona desarranjada destoava do simples modelo elíptico
que logo na primeira visita se conjecturou por ironia, que
estes monólitos nunca tivessem chegado a ser usados
na construção, e ali tenham ficado a aguardar
melhor destino.
Esta primeira visita iniciou um conjunto de observações
em diversos monumentos megalíticos nas zonas de Évora
e Reguengos de Monsaraz, além de posterior trabalho
de campo no Cromelech dos Almendres, que viriam a ser objecto
de apresentação no IV Congresso Nacional de
Arqueologia em Faro (1980) cujas actas, infelizmente, nunca
foram publicadas. Juntamente com a apresentação
da conjectura de que o Monumento megalítico dos Almendres
estivesse ligado à observação da passagem
do equinócio, o trabalho então apresentado também
estabelece a relação solsticial com o menhir
junto ao Monte, bem como sugere a existência na região
de outros monumentos megalíticos com possível
significado astronómico. A análise então
efectuada assentou no pressuposto de que o cromelech ocupasse
inicialmente uma zona razoavelmente plana no topo da colina,
permitindo que a linha de observação do pôr
do Sol seja horizontal, e explorou três feições
razoávelmente claras:
i - Forma elíptica do recinto
Quaisquer que sejam as distribuições iniciais
propostas para o recinto megalítico dos Almendres,
e a sua evolução temporal até chegar
à forma presente, é indubitável que a
maioria dos monólitos se distribui em torno duma forma
elíptica. Uma elipse construída a partir dum
triângulo pitagórico (3,4,5) parece ajustar-se
bem à parte com maior desenvolvimento, tendo-se reconhecido
de início que a parte restante, mais desarranjada,
teria de ser objecto de atenção especial.
ii - Eixo de simetria do recinto
Do mesmo modo, independentemente dos detalhes da estrutura
inicial, parece bem claro que se pode afirmar que no seu desenvolvimento
principal as posições dos monólitos definem
dois arcos dispostos simetricamente em torno duma linha central
disposta sensivelmente na direcção Este-Oeste.
iii - Monólito truncado
No conjunto dos monólitos implantados na extremidade
Oeste observa-se a ocorrência dum monólito (nº8)
que se distingue da forma típica dos restantes por
se apresentar truncado e com covinhas na face quase horizontal,
ligeiramente inclinada para ENE (Figªs. 1a,b). Com estas
características é um monólito ímpar
em todo o recinto, embora haja dois outros monólitos
truncados em posições aparentemente não
proeminentes
 |
|
Figura
1a. Monólito Truncado observado ao longo do eixo
de simetria do Cromelech dos Almendres
Figura
1b. Detalhe da face de truncatura observada de NE, evidenciando
a concentração das covinhas" na metade
anterior
|
No pressuposto
do recinto inicial ser razoavelmente plano, e posteriormente
erodido para a forma actualmente inclinada para Este, as três
feições observáveis indicadas podem conjugar-se
numa conjectura em que o eixo de simetria do recinto se confunde
com o eixo maior da elipse, e em que o monólito truncado,
situado praticamente na extremidade Oeste do eixo maior, poderia
ser observado como coincidindo com o pôr do Sol na altura
do equinócio. Conforme se poderá ver a seguir,
esta observação é compatível com
aspectos internos do recinto megalítico (existência
dum monólito de apreciáveis dimensões
no foco Leste da elipse média, situado portanto no
interior do recinto sobre o eixo maior da elipse, que poderia
ser o ponto de observação do pôr do Sol,
e com a implantação, do monólito truncado,
ligeiramente a Norte do eixo maior da elipse, em concordância
com a definição de equinócio megalítico.
Posteriormente
(vide V) esta questão foi revista no pressuposto alternativo
de o recinto megalítico ter sempre tido uma inclinação
igual à que actualmente se observa, o que implica naturalmente
uma mudança do ponto de observação do
equinócio.
II - 2 Orientação Menhir - Cromelech
O primeiro trabalho de campo, realizado em 1977, foi o de
estabelecer a possível relação entre
o menhir, anteriormente tombado junto ao monte dos Almendres,
e o cromelech que não era visível directamente
do local do menhir face ao espesso arvoredo existente na direcção
de observação.
Para determinar a orientação geográfica
do menhir relativamente ao cromelech foram estabelecidas duas
estações para observar, com o teodolito, o ponto
coordenado da Sé de Évora e um ponto auxiliar
externo (Fig. 2). Dada a não visibilidade directa,
uma estação situou-se dentro do cromelech junto
ao topo Oeste, permitindo também referenciar a estrutura
interna relativamente ao Norte geográfico. A outra
estação situou-se junto aos silos, no Monte
dos Almendres, a 70m do menhir. A triangulação
obtida com a ajuda do ponto externo, materializado por uma
bandeirola colocada cerca de 30m a NO da primeira estação,
permite obter para o topo Oeste do Cromelech um azimute de
237.99 graus, e para o topo Este um azimute de 237.00 graus,
quando observados da posição actual do menhir.
Os valores indicados correspondem respectivamente a declinações
celestes de d= -22.68 graus, e d= -23,39 graus. Dado que o
menhir se encontra a uma distância de 1360 metros do
cromelech é fácil verificar que, se a sua posição
original fosse cerca de 25m mais a Norte, junto ao local onde
hoje se encontram os silos, já o topo do cromelech
atingiria a declinação de -23.4 graus. Nestas
condições, um observador situado na posição
actual do menhir poderia, cerca de 2000 aC, observar um ocaso
solsticial na sua maior declinação Sul, em que
o bordo Norte do Sol rasaria a extremidade Este do Cromelech.
Para épocas mais recentes, ou para posições
poucos metros para Norte da posição actual do
menhir, observar-se-ia o ocaso do Sol sobre o cromelech.
Este resultado parece apontar para um claro significado astronómico
das posições relativas do menhir e do cromelech.
 |
|
Figura
2. Arranjo geométrico utilizado na determinação
da orientação menhir-Cromelech
|
II - 3 O Eixo de Simetria do Cromelech
Tal como atrás referido, a análise que entre
1975 e 1977 se efectuou, das posições relativas
e formas dos monólitos, não foi conclusiva relativamente
à existência de orientações internas
do Cromelech. Tendo entretanto sido levantados os menhires
tombados e colocados nos seus socos originais torna-se possível
fazer novas análises da estrutura interna ( Alvim,
1997).
Em qualquer caso, então como agora, a aparente simetria
da distribuição dos monólitos em torno
da linha Este-Oeste sugere que se analise com cuidado esta
feição interna.
No relato feito ao IV Congresso em Faro toda esta análise
assentou na possibilidade de observar o pôr do Sol ao
longo do eixo maior da elipse quando o Sol se põe (ou
poria) sobre o monólito truncado. Nessa altura a observação
directa não era possível dado o espesso arvoredo
obstruir a visibilidade do Sol. A análise que então
se propôs tinha como base a existência dum grande
monólito (nº39) tombado junto ao foco Leste da
elipse, e do qual se observaria o pôr do Sol na truncatura
do monólito nº8 a Oeste. A possibilidade de direcções
com declinação próxima de zero graus
reduz-se praticamente ao equinócio megalítico,
já que, das estrelas brilhantes, Aldebaran só
ocorre nestas declinações em época anterior
a 2000 aC, e rapidamente se afasta. A plausibilidade desta
observação centrou a atenção na
distribuição algo irregular das covinhas, procurando
interpretá-las no contexto de que seriam evidência
de sucessivas tentativas de observação mais
rigorosa do contacto visual do Sol com a parte plana da pedra
em sucessivas passagens equinociais. Repare-se que, de todos
os dias do ano, a passagem equinocial é a que se faz
com maior sensibilidade, dado que, nessa altura, a variação
diária em azimute é máxima e da ordem
do diâmetro solar, fornecendo a regra de observação
simples de usar uma pedra com largura tal que, um dia antes
e um dia depois, o Ocaso ocorra fora do topo da pedra. Se
assim fosse teria sido possível ao Homem megalítico
observar a alternância da duração de 182
e 183 dias entre as passagens equinociais, e a ocorrência
de quatro em quatro anos de duas sucessivas de 183 dias, ou
seja do ano bisexto que mais tarde viria a ser criado para
manter o calendário conforme com as estações
do ano. Por outro lado a análise das dimensões
da truncatura do referido monólito, e a distribuição
das "covinhas" na metade Norte da sua superfície
plana, determina o ponto de observação como
ocorrendo a cerca de 40m, local onde se encontrava tombado
o outro monólito (nº39) que existe sobre o eixo
de simetria.
Procurou-se uma correlação da distribuição
das "covinhas" com as regularidades das ocorrências
azimutais do equinócio, quer usando valores tabelados
para um período de 40 anos, quer calculando valores
da declinação para as passagens equinociais
num período de 150 anos com parâmetros astronómicos
correspondentes à época de 2000 aC. Verifica-se
que o ciclo de quatro anos não se mantém, como
seria de esperar por o excesso anual ser ligeiramente inferior
a um quarto de dia, existindo no entanto um aparente período
de 33 anos, sigificativamente menor que o período natural
de 128 anos. Na hipótese das covinhas terem servido
para a marcação das passagens equinociais os
resultados desta análise permitem tornar plausível
a irregularidade das suas posições.
3.
Possíveis orientações com significado
astronómico noutros monumentos megalíticos próximos
de Évora.
Se o "culto"
do equinócio se estabeleceu no Homem megalítico
da região de Évora, ao ponto de este o incluir
na construção dum monumento importante como
é o do Cromelech dos Almendres, ou pelo menos ao ponto
de estabelecer condições para a sua observação,
não será difícil aceitar que possa ter
pretendido maior rigor nessa observação, e que
o tenha levado a utilizar maiores linhas de base, como as
que seriam disponíveis através da observação
do nascer do Sol sobre a colina de Monsaraz quando vista dos
menhires dos Perdigões ou do Cromelech da Ribeira do
Álamo. Em 1976 quando se visitou o local dos Perdigões
ainda se observavam, além do grande menhir na Horta
do Pomar, vários outros dispersos numa linha transversal
à de observação, e numa extensão
superior a 50 metros.
Todos estes monumentos se encontram em muito mau estado de
conservação para que qualquer análise
interna tenha significado. Porém, a partir da sua posição
geográfica se pode deduzir que teriam pontos de referência
convenientes na colina de Monsaraz para observar a passagem
equinocial ao nascer do Sol. Ambos têm longas linhas
de base, respectivamente 11 e 14 quilómetros, a que
vai corresponder uma dispersão dos pontos de observação,
correspondentes às "covinhas" dos Almendres,
por extensões da ordem de 100m, fornecendo assim uma
grande precisão à observação do
azimute da passagem equinocial. Pelo menos no caso dos Perdigões
podem ainda observar-se além do grande menhir na Horta
do Pomar, vários outros dispersos ao longo duma linha
transversal à de observação, e numa extensão
da ordem de 50m. Não seria portanto inverosímil
que estes monumentos pudessem funcionar como duais do instrumento
dos Almendres.
Analogamente,
e no que respeita a direcções solsticiais, deve
notar-se que o cromelech da Portela de Mogos se situa no topo
duma colina sobranceira a uma reentrância orográfica,
a Portela, e que observada, quer de ENE quer de OSO, define
um nítido horizonte recortado. É de supor que
o conjunto monumental, e em particular o enorme menhir central,
poderiam ser avistados de grande distância. Na zona
da Veleira, a a umas dezenas de metros da estrada, encontram-se
duas antas bastante desmanchadas, donde se observou o pôr
do Sol durante um solstício de inverno, tendo-se concluido
que das proximidades da primeira anta seria possível
observar o ocaso sobre o cromelech, enquanto uma posição
quase junto à estrada já permitiria a observação
do ocaso na reentrância da Portela. Do lado oposto,
a análise da carta de 1/25.000 e cálculo analítico
mostram que a linha solsticial que passa pela Portela de Mogos
passa também a escassos metros do grande menhir da
Herdade das Veladas, junto à estrada do Escoural. Com
visibilidade também desimpedida na ausência de
arvoredo,seria possível observar daí o nascer
do Sol na Portela, no solstício de Verão.
4.
Conjectura astronómica à procura de significado
megalítico.
Todas as
observações anteriores, isto é, todas
as direcções registadas como de possível
significado astronómico se relacionam com a observação
do Sol, quer nos Solstícios quer nos Equinócios.
Não foi até agora sugerida a existência
de direcções lunares, isto é, de direcções
de observação da Lua nas suas máximas
elongações. Contudo a possibilidade de existência
de observações lunares parece apontada pela
circunstância de o valor do máximo de elongação
lunar ser muito próximo do da Latitude do Cromelech
dos Almendres, sem que, no entanto, tenha sido vislumbrado
um processo simples que levasse à sua observação,
simultaneamente com determinação da latitude
do local. Se se tratasse de determinar o local em que a declinação
máxima da Lua é igual à latitude, isto
é, em que a Lua na sua elongação máxima
passa pelo zénite, bastaria procurar um local em que
se visse a imagem da Lua reflectida na água dum poço
profundo e, nas imediações se procurasse um
poço, profundo ou não, em que esse reflexo fosse
tapado pela nossa cabeça. Não parece no entanto
ser fácil descortinar um processo, ao alcance da tecnologia
do Homem megalítico, que permita a comparação
da elongação da Lua com a latitude do lugar.
Porém, a constatação analítica
(que resulta de resolver as equações da trignometria
esférica associada a este processo) de que só
há duas latitudes em que é possível observar
esta circunstância, e que uma delas é a de Stonehenge,
e a outra a dos Almendres, não permite "deitar
água na fogueira" que esse desafio acendeu.
No seu movimento aparente a Lua nasce e põe-se em direcções
que variam entre um mínimo e um máximo de desvio
relativo à linha geográfica Este-Oeste (elongação).
Estes máximos variam de mês para mês. e
de ano para ano, ao longo do ciclo lunar de 18.61 anos, de
tal modo que o valor máximo "E", esperado
para a elongação, depende da latitude "L"
do lugar de observação, e da declinação
máxima da Lua "D", que ocorre quando a inclinação
da sua órbita se adiciona à inclinação
da eclíptica. Estes valores satisfazem a relação:
sen
D = sen E . cos L
Para
cada objecto celeste particular, ou para cada posição
particular dum objecto celeste de declinação
variável, esta equação tem duas soluções
tais que a elongação E iguala a latitude L sempre
que a declinação seja inferior a 30º. Para
valores da declinação superiores a 30º,
esta equação não tem soluções.
Se nesta equação se usar o valor D=29.17º
correspondente à declinação máxima
possível da Lua, cerca de 1500 aC, resulta que as duas
soluções ocorrem repectivamente, uma a L=38.55º
correspondente a uma latitude muito próxima da dos
Almendres, e a outra a L=51.44º correspondente a uma
latitude muito próxima de Stonehenge (51.18º).
Esta segunda solução toma o valor L=51.18º
se usarmos o valor máximo da declinação
correpondente a 2000 aC.
Usando uma equação ligeiramente mais complicada
para tomar em conta a elevação do horizonte
em que se observa o nascer ou o pôr da Lua, pode mostrar-se
que pequenos valores da elevação são
suficientes para produzir a coincidência exacta das
soluções, com as latitudes dos lugares referidos.
Muito embora não tenham sido encontradas direcções
conspícuas nos monumentos megalíticos da região
de Évora que possam corresponder às referidas
observações lunares, a singularidade da coincidência,
em ambos os casos, das soluções, com as latitudes
dos referidos monumentos megalíticos, além de
insólita, adiciona plausibilidade à conjectura
sobre a existência de direcções lunares
na região dos Almendres.
5.
Cromelech dos Almendres revisitado
A visibilidade
pública da possível associação
do Cromelech dos Almendres com o Equinócio, em particular
com o Equinócio megalítico, e o interesse suscitado
numa comunidade cada vez mais alargada de visitantes deste
imponente recinto megalítico, aliada ao facto de, em
anos recentes, ter estado desobstruida a visibilidade do Sol
a poente, suscitou a necessidade de uma nova visita ao local,
para observação directa nas circunstâncias
actuais, isto é, no pressuposto de que a actual inclinação
do terreno não será muito diferente da inclinação
na altura da construção. Nestas circunstâncias
não se espera que a observação do pôr
do Sol se faça ao longo do eixo maior da elipse, isto
é, ao longo do eixo de simetria do recinto. Parece
pois perder significado que este eixo esteja orientado na
direcção Este-Oeste. Procurando-se o novo ponto
de observação, calculou-se o desvio para norte
da direcção de observação, resultante
de uma inclinação estimada do terreno, de 7º
para Este, isto é, duma linha rasante entre a superfície
de truncatura do monólito nº8 e o topo dos possíveis
monólitos de observação. Verifica-se
que o valor estimado de cerca de 5º, nos coloca na zona
dos designados monólitos desarranjados. Este conjunto
de monólitos poderia constituir uma estação
de observação do equinócio, através
da observação do pôr do Sol sobre o monólito
truncado, pelo que se procurou testar a plausibilidade desta
hipótese.
Programou-se assim, um conjunto de observações
ao nascer e pôr do Sol, que se realizaram por altura
do equinócio da Primavera que em 20 de Março
de 2000 ocorreu às 07:35Horas. As observações
principais foram as seguintes:
i
- Observação do nascer do Sol no dia 18 de Março,
a partir do Cromelech dos Almendres
ii - Observação do nascer do Sol sobre Monsaraz
no dia 19 de Março a partir do Menhir dos Perdigões
iii - Observação do pôr do Sol sobre a
pedra truncada, no dia 19 de Março, a partir da posição
estimada dentro do Cromelech
iv - Observação do nascer do Sol no dia 20 de
Março, sobre Monsaraz a partir da colina junto ao Menhir
dos Perdigões
As condições
meteorológicas estiveram favoráveis para as
observações i, ii, e iii, mas já não
permitiram a observação mais próxima
do equinócio actual.
Observação
i (dia 18) - Sabendo que nesta altura o Sol está muito
próximo da linha Este-Oeste, ligeiramente a Sul, e
na ausência de referências de interesse astronómico,
pretendia-se apenas documentar fotograficamente que a Sé
de Évora se encontra a Norte da direcção
Este como se deduz da carta topográfica. No entanto,
feitas as fotografias, persistem desta observação
diversos elementos importantes para a análise em curso.
Não é facil transmitir o impacto do inesperado,
naquele primeiro momento em que a primeira luz directa do
Sol correspondente à sua calote brilhante, emerge no
horizonte distante, por cima, na direcção da
vertical, do grande monólito que supostamente reside,
agora erecto, no foco da elipse (Fig. 3). Tudo se passa como
se este menhir tivesse sido ali colocado para apontar onde
o Sol vai surgir quando observamos o nascer do Sol colocados
na extremidade Oeste, no topo da colina do Cromelech. Num
dia completamente claro e seco, como estava, a observação
deste nascer do Sol é como uma experiência quase
mística, em que toda a construção parece
feita para envolver e apontar o Sol nascente nesta ocasião,
mesmo antes de ele surgir. Um verdadeiro anfiteatro aberto
ao Sol equinocial. Claro que a posição do observador
para ver o Sol nascer, precisamente na vertical do menhir,
varia de dia para dia, mas pode estimar-se que a deslocação
lateral necessária nessa posição é
de cerca de 40 cm, isto é, da ordem de grandeza da
distância entre os olhos de dois homens ombro a ombro.
A ideia de que uns quantos homens colocados lado a lado, ombro
a ombro no topo da colina veriam cada um deles sucessivamente,
e em dias sucessivos, o Sol nascer na vertical do referido
menhir pode conferir uma verdadeira dimensão antropomórfica
ao Cromelech.
 |
|
Figura
3. Nascer do Sol dois dias antes do Equinócio,
visto do topo Oeste do Cromelech dos Almendres
|
Observação
ii (dia 19) - também esta observação
se destinava a documentar fotograficamente que o nascer do
Sol sobre a colina de Monsaraz se poderia observar a partir
da zona dos Perdigões na altura do equinócio
megalítico (Fig, 4). Uma vez que o menhir dos Perdigões
está tombado no meio do olival, e este não permite
avistar Monsaraz, o ponto de observação foi
estabelecido numa elevação próxima situada
sensivelmente na direcção Menhir-Monsaraz. O
resultado da observação mostra claramente que
no equinócio megalítico, sensivelmente um a
dois dias depois do actual equinócio astronómico,
o Sol nasce claramente sobre as feições internas
da colina de Monsaraz, particularmente se tivermos em conta
a dispersão até 50m para norte, dos restantes
menhires que compunham este conjunto dos Perdigões.
Note-se que nessa faixa se ergue uma pequena colina com uma
posição proeminente e desafogada para observar
o Sol nascente, tal como nos Almendres, mas agora sobre Monsaraz.
 |
|
Figura
4. Nascer do Sol sobre a colina de Monsaraz, um dia
antes do equinócio, visto do menhir dos Perdigões
|
Observação
iii (dia 19) - Esta foi a observação mais próxima
do Equinócio, uma vez que a nebulosidade que se instalou
durante a noite não permitiu observar o nascer do Sol
no dia seguinte. Nos Almendres, o topo da colina já
não está tão desobstruído quanto
se esperava, mas permitia ver claramente o Sol através
da ramagem pouco densa.
À medida que o Sol baixava sobre a pedra truncada se
tornava cada vez mais claro qual o ponto de observação
para esse dia. Cerca das 18H05 o Sol pôe-se sobre a
pedra, hora essa em que o Sol se encontra 6,3º acima
do horizonte astronómico, em bom acordo com o valor
aproximado de 7º que se obtém para a inclinação
do terreno por inspecção do levantamento topográfico
(Pina, 1971)
É importante que se perceba claramente que, sendo estas
medidas objectivas dotadas de algum rigor, elas dependem de
factores diversos que convém ter presentes, quer na
discussão dos factos, quer nas conclusões.
Quando se fala no pôr do Sol tem que se referir qual
é a circunstância observável que o define.
Tanto pode ser o primeiro contacto, i.e. quando o disco solar
toca, neste caso, a linha da truncatura da pedra visto do
ponto de observação, como pode ser a altura
em que, nessa linha, passa o centro do disco solar, como pode
ser o momento em que ocorre o último contacto do disco
solar, isto é, quando desaparece a última réstea
de Sol por detrás da pedra truncada. Qualquer destas
possibilidades, por mais rigor que apresente na sua determinação,
é afectada pela posição efectiva dos
olhos do observador, isto é, se o observador é
mais alto ou mais baixo, se observa de pé, se curvado,ou
se observa rasante ao monólito em que estiver colocado,
se está mais para a esquerda, ou para a direita. Esta
incerteza do ponto exacto de observação não
permite a determinação rigorosa da direcção
associada, a não ser que circunstâncias especiais
estejam presentes e comprovadas, e que o definam.
No caso descrito em II-1 assumiu-se um ponto fixo de observação,
a cerca de 40m, e isso determinava uma dispersão do
ponto de contacto de cerca de 0.5º (na ordem de 40cm),
sobre a pedra truncada. Alternativamente, se se escolher observar
o contacto sempre no mesmo ponto, por exemplo colocando uma
marca numa das covinhas, essa incerteza é transferida
para a posição do observador. Tendo em conta
que, na altura do equinócio, o avanço diário
da posição do observador também é
da ordem de 40cm, é plausível supor que a zona
desarranjada do cromelech seja constituída por um conjunto
de monólitos que poderiam ser usados para observar
a aproximação do Equinócio, isto é,
serviria para observar o pôr do Sol em dias anteriores
ao equinócio, de tal modo que o último monólito
desse sector fosse usado precisamente nesse dia. Em favor
desta interpretação concorre o facto de esse
último monólito se destacar pelo seu porte,
e de, incluindo-o, haver precisamente 20 monólitos
na faixa angular correspondente aos últimos 20 dias
que antecedem o Equinócio da Primavera. Note-se que
a linha que une a pedra truncada a cada monólito desse
sector tem um limite bem definido que faz um ângulo
de 4º com o eixo de simetria, medido na planta topográfica.
Este ângulo está, assim, em bom acordo com o
ângulo da direcção de observação
calculada para o equinócio megalítico, tendo
em conta a inclinação do terreno.
Observado
o pôr do Sol, no dia 19, ao longo dessa linha limite
rasando o monólito nº38 (Fig.5), verificou-se
que o Sol desce ligeiramente a Sul da truncatura, a uma distância
compatível com o facto de se estar a observar dois
a três dias antes do equinócio megalítico.
A extrapolação da posição observada
levaria a que no dia 21/22 se assistiria ao pôr do Sol
sobre a truncatura.
 |
|
Figura
5. Pôr do Sol sobre o monólito truncado,
no Cromelech dos Almendres, dois dias antes do equinócio
megalítico, quando observado do monólito
nº38
|
6.
Discussão e Conclusões
A
questão principal que resulta da observação
geral do cromelech é a de que, quer pela sua posição
proeminente no topo da colina, quer pela disposição
das pedras talhas em anfiteatro na vertente virada a Este,
quer pela vista desimpedida para um vasto horizonte a nascente,
quer finalmente pelo facto da sua construção
privilegiar a direcção de Este-Oeste, todo o
conjunto parece disposto para ser usado na altura do equinócio
associado eventualmente a algum culto de fertilidade da terra.
Paradoxalmente esta direcção não existe
materializada através de observação directa,
ao contrário das direcções solsticiais
que são direcções limites do Sol na sua
digressão anual, ou da direcção Norte-Sul
marcada pelo menor comprimento da sombra dum pau colocado
na posição vertical. A direcção
Este-Oeste é uma direcção abstracta que
requer um salto conceptual, isto é, um raciocínio
dedutivo para procurar uma linha que divida a meio o ângulo
entre as direcções solsticiais de Verão
e Inverno, ou que divida a meio o tempo que medeia dois solstícios
consecutivos, isto é, o tempo que o Sol leva a deslocar-se
dum solstício ao outro. Estamos a lidar com um Homem
inteligente capaz de arquitectar uma construção
e adequá-la a um objectivo de culto. Qualquer dos processos
requer referência às linhas solsticiais de que
não encontramos evidência segura nos componentes
do recinto megalítico. A linha solsticial entre o cromelech
e o menhir do monte dos Almendres poderia ser usada como razoavelmente
rigorosa para marcar o solstício de Inverno, mas não
tem rigor para a observação inversa do solstício
de Verão porque não sendo horizontal não
aponta para o nascer do Sol no Verão, embora ande lá
perto. Procurou-se a ESE outro menhir ou marca que pudesse
ser usada para observar o solstício de Verão
através do pôr do Sol sobre o cromelech, mas
sem sucesso. Com efeito não há referências
de objectos megalíticos nessa direcção,
nem vestígios credíveis no que foi possível
calcorrear, nem a orografia do terreno nessa direcção
torna plausível a sua existência para este efeito.
Há alguma evidência de direcções
solsticiais próximas associadas ao cromelech de Portela
de Mogos mas, nem esta evidência é muito segura
(são efectivamente linhas marcadas por construções
megalíticas que se apresentam na direcção
solsticial), nem a proximidade parece suficiente para um uso
associado ao Cromelech. Quaisquer que fossem os processos
de recurso às linhas solsticiais, só faria sentido
a divisão ao meio do ângulo resultante se estas
fossem linhas num plano horizontal. Mais plausível,
no entanto, é que a divisão se faça por
um processo de contagem simples, ficando independente da determinação
exacta dos ângulos. Por exemplo, fazendo um risco numa
superficie lisa por cada dia que passa poderia ter constatado
que o número de dias entre o Solstício de Verão
e o de Inverno é igual ao correspondente entre o de
Inverno e o de Verão. Um espírito arguto pode
ter reformulado a questão colocando uma marca "equinocial"
aproximadamente a meio da digressão anual do Sol, e
contando o número de dias entre duas passagens sucessivas
do Sol nessa marca. Verificando por exemplo, que a parte de
Verão era maior do que a de Inverno, moveria a marca
no sentido adequado (neste caso para o lado do Solstício
de Verão), até que, por aproximações
sucessivas os dois números fossem iguais. Nesta altura
a marca "equinocial", em consequência, estaria
aproximadamente na direcção Este-Oeste. Esta
reformulação requer apenas um processo de contagem,
isto é, dum dispositivo (tipo ábaco), em que
registando cada nascer (ou pôr) do Sol se possa depois
comparar o número de registos na parte de Verão,
com o número de registos da parte de Inverno. Para
materializar este procedimento o nosso Homem megalítico
não teria necessidade de construir um monumento de
grandes dimensões, mas poderia recorrer, por exemplo
a um expediente simples como o de fazer um risco no chão
na direcção da marca "equinocial".
Cada dia ao nascer do Sol poria uma pedrinha junto ao risco,
do lado em que o Sol nasce. Quando o Sol passasse a nascer
do outro lado do risco teria o cuidado de colocar as respectivas
pedrinhas em face das que estavam já colocadas do lado
anterior do risco. Ao fim de um ciclo completo haveria excesso
de pedrinhas do lado em que o Sol passou maior número
de dias. Assim, com o uso duma marca "equinocial"
e dum processo de contagem, ficaria independente de observações
solsticiais, passando a usar apenas as sucessivas passagens
"equinociais" do Sol sobre a marca. Em boa verdade
o risco no chão nem necessita de ser traçado
na direcção da marca equinocial, isto é,
o processo de contagem pode ser independente do processo de
observação do Sol e da marca.
Não parece haver dúvida quanto à verosimilhança
da relação entre o Cromelech e o Equinócio.
Desde a sua posição privilegiada no topo da
colina, olhando desafogadamente, e sem obstrução,
todo o horizonte distante a Este, à observação
do nascer do Sol em toda a sua digressão anual, proporcionada
pela extensa planície alentejana, até à
simetria da disposição dos monólitos
em anfiteatro como dois braços abertos para receber
o Sol nascente na posição do horizonte apontada
pelo grande menhir central, tudo se conjuga para sugerir que
o Cromelech dos Almendres possa ter sido construído
para celebrar o culto do Sol e do Equinócio. Isto é,
da direcção que divide ao meio o espaço,
mas sobretudo que divide ao meio o tempo, o tempo do calor
e o tempo do frio, o tempo da fertilidade da terra e o tempo
da falta de alimento. Sob esta forte pressão haveria
que construir um recinto grandioso incorporando este conhecimento
como forma de apoiar o culto com o aparente controlo da natureza,
neste caso do Sol.
Com base nas duas alternativas descritas anteriormente parece
claro que o monólito truncado pode ter desempenhado
o papel de marca equinocial, quer na primeira (vide II-3)
porque serviria de mira para a observação da
passagem equinocial, a partir do grande monólito situado
no foco Este da elipse, vista ao longo da linha Este-Oeste
materializada pelo eixo maior da elipse, quer na segunda,
(vide V) também porque serviria de mira para a observação
da aproximação do Equinócio, e da passagem
equinocial, usando como base a zona ENE do Cromelech. Embora,
neste segundo caso, a própria direcção
de observação da passagem não seja ao
longo do eixo de simetria, a orientação deste
na linha Este-Oeste é agora assegurada pelo monólito
focal, que a aponta ao nascer do Sol quando observado no horizonte,
a partir do topo da colina. Nesta hipótese parece haver
uma clara distinção entre a marca equinocial
para a determinação do dia, e a marca para a
celebração do nascer do Sol no horizonte distante.
Ambas as marcas existem em ambas as hipóteses, mas
na primeira coincidiriam também as linhas de observação.
Após a passagem equinocial decorrem 91 dias até
ao Solstício e novamente 91 dias até nova passagem
equinocial. A adição de um círculo de
91 pedras permitiria incorporar no monumento o próprio
processo de contagem, embora tal não fosse necessário.
Com efeito, avançando dia a dia uma marca no círculo
este seria percorrido duas vezes entre duas passagens equinociais
perfazendo 182 dias. Com facilidade se imagina um processo
de regular a necessidade de contar mais um dia na metade do
ano ligeiramente maior, 183 dias, bem como da sucessiva ocorrência
de dois períodos de 183 dias, o que requereria alguns
monólitos adicionais. Nestas condições
o monumento megalítico teria um número total
de monólitos comparável ao que actualmente se
observa no Cromelech dos Almendres, por exemplo os 93 enumerados
em (Alvim, 1997, pag.16).
Se assim foi, os indícios relatados parecem indicar
que não se tratou de obra do acaso mas antes resultado
dum espírito engenhoso que incluíu, na construção,
o próprio sistema de determinação da
passagem equinocial do Sol. E para tal quase lhe bastava saber
contar e observar. No entanto, com o instrumento assim construído,
poderia ter dado pela necessidade de um dia intercalar de
quatro em quatro anos para que tudo quase acertasse de novo.
Para um construtor arguto que poderia ter sentido a necessidade
de melhorar a precisão das suas observações,
e por isso poderia ter construído um sistema mais rigoroso
(ex. Perdigões-Monsaraz), a constatação
desse facto seria certamente estímulo para novos desafios
intelectuais.
O conhecimento, que hoje designamos por científico,
pode ter começado muito antes do Homem megalítico,
e evoluido por processos simples desta natureza.
BIBLIOGRAFIA
(Alvim
1997) Alvim, P et al., "Sobre alguns vestígios
de paleoastronomia no Cromeleque de Almendres" in A Cidade
de Évora, nº 2 - II Série, 5 - 23, 1996-1997
(Freeman 1976) Freeman, P.R., "A Bayesian Analysis of
the Megalithic Yard", Jour. Roy. Statist. Soc. A139,
1, 20, 1976
(Freeman 1979) Freeman, P.R. e Elmore, W., "A Test for
the Significance of Astronomical Alignments", Jour. Hist.
Astr. Suppl. (Archaeoastronomy) 1, 86, 1979
(Hawkins 1964) Hawkins, G.S., 1964, "Stonehenge: a Neolithic
Computer", Nature, 202,1258, 1964
(Hawkins 1974) Hawkins, G.S., "Astronomical Alignments
in Britain, Egypt and Peru", Philosophical Trans. Roy.Soc.London,
A cclxxvi. 157, 1974
(Hoyle 1966) Hoyle, F., Nature, 211, 454-6, 1966
(Hoyle 1972) Hoyle, F., "From Stonehenge to Modern Cosmology",
W.H.Freeman and Company, 1972
(Lockyer 1906) Lockyer,N.J., "Stonehenge and other Stone
Monuments Astronomically Considered", Macmilan, London,
1906
(Mackie 1982) Mackie, E.W. "Implications for archeology" in Archeo astronomy in the old world, ed,D. Heggie, Cambridge
Univ. Press, 1982
(Newton 1974) Newton, R.R., "Astronomy in Ancient Literate
Societies" ,Phil. Trans. R. Soc. London, A 276, 5 - 20,
1974
(Pina 1971) Pina, H.L., "Novos Monumentos Megalíticos
do Distrito de Évora" Actas do II Congresso Nacional
de Arqueologia, Coimbra, 151, 1971
(Pina 1976) Pina, H.L., Comunicação Privada,
1976
(Thom 1967) Thom, A., "Megalithic Sites in Britain" Oxford Univ. Press, 1967
|