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Resumo

O presente trabalho resulta de um esforço significativo de relocalização de monumentos megalíticos constantes em referências bibliográficas anteriores, melhorando a sua localização através do uso sistemático do sistema GPS de referenciação geográfica. Contém assim elementos úteis para avaliar o grau de desaparecimento frequente de monumentos, sobretudo da sua destruição resultante de diversos aspectos relacionados com a exploração da propriedade rural.

A totalidade dos dados recolhidos e consolidados é compilada, em anexo, num Inventário que, entre outros aspectos, visa contribuir também para a conservação do actual património megalítico do concelho de Montemor-o-Novo.

O estudo dos monumentos funerários (antas e sepulturas protomegalíticas), referenciados nos míticos Cadernos de Campo de Manuel Heleno, permitiu trazer nova luz a esta questão, contribuindo significativamente para elucidar os modelos evolutivos das construções funerárias megalíticas alentejanas e, em particular, no concelho de Montemor-o-Novo.

Procedeu-se também à medição sistemática da orientação dos corredores das antas, tendo em conta os seus diferentes graus de conservação, e analisaram-se estes novos contributos à luz de conceitos recentes de arqueoastronomia.

 

*oliveiracatarina@gmail.com
** lrocha@ipa.min-cultura.pt
***cms@netvisao.pt

 

 

1. Introdução

O Concelho de Montemor-o-Novo é detentor de um importante espólio megalítico, que constitui um dos seus mais importantes conjuntos patrimoniais. Esta importância decorre não só do elevado número de monumentos megalíticos que ainda hoje se podem observar in situ , mas também do numeroso e variado espólio progressivamente recolhido e que, na sua maior parte, aguarda ainda um estudo adequado.

Desde o séc. XVIII, até ao presente, muitos têm sido os contributos que forneceram elementos para o conhecimento detalhado desta realidade. Com efeito, já a Academia Real de História, criada por D. João V, tomou, nessa época, a iniciativa dos primeiros inventários, na sequência da curiosidade dos eruditos, atraída por tão imponentes monumentos.

O primeiro inventário nacional de monumentos megalíticos, apresentado pelo Padre Afonso da Madre Deus Guerreiro, data de 1734 e faz referência a 315 antas, 66 das quais na região de Évora. Em 1733, Martinho de Mendonça e Pina havia já apresentado na Academia um primeiro estudo sobre as construções megalíticas, as quais, à semelhança do que acontecia no resto da Europa, eram , nessa altura, geralmente interpretadas como altares de sacrifícios.

No contexto do desenvolvimento da arqueologia pré-histórica, estes monumentos passam a ser objecto de uma análise mais atenta, no final do séc. XIX, procurando-se novas propostas cronológicas e funcionais. O elevado número de antas no Alentejo, em particular na região de Évora e Montemor-o-Novo, despertaria então, a atenção de investigadores como Gabriel Pereira, Pereira da Costa e Filipe Simões, entre outros. A divulgação nacional e internacional deste património e o despertar da noção de uma certa relevância do megalitismo português, no contexto europeu, parece ter sido fortemente influenciada pela presença em Portugal do prestigiado arqueólogo francês Emile Cartailhac, que escavou alguns dos monumentos megalíticos da região e, em particular, pela realização, em 1880, do Congresso de Lisboa de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica, no qual aquele arqueólogo também participou.

Nos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, foi escavado um número razoável de monumentos megalíticos, no Alentejo Central, por investigadores como Leite de Vasconcellos, Nery Delgado, Carlos Ribeiro, Gabriel Pereira, Emile Cartailhac, Mattos Silva, Filipe Simões, entre os mais activos. Com base nos trabalhos dos dois primeiros, foi publicada, nos anos 70, por Maria Cristina Neto (Neto, 1976-77: 99-104) uma lista de monumentos megalíticos alentejanos.

Embora estes trabalhos tivessem consistido apenas em intervenções avulsas, permitiram, no entanto, afastar algumas das especulações correntes e começar a reunir material objectivo que serviu de base a perspectivas mais pertinentes sobre o fenómeno .

Contudo, nenhum deles teve carácter sistemático, uma vez que os seus autores estavam interessados num leque de temas demasiado vasto, em que o megalitismo era apenas mais um aspecto. Consequentemente, nenhum deles delineou projectos de investigação específicos, com base nas evidências ou nas problemáticas particulares do megalitismo.

Na verdade, a escavação, em grande escala, das antas e sepulturas protomegalíticas do Alentejo Central, no início do séc. XX, viria a ser um exclusivo dos investigadores sediados naquele que viria a tornar-se no actual Museu Nacional de Arqueologia. O próprio José Leite Vasconcelos, então director do Museu Etnológico Português, dedicou-se ao estudo e exploração de alguns monumentos da região, contribuindo para o seu inventário e interpretação, através de numerosas notícias publicadas no Arqueólogo Português . Entre 1898 e 1900 escavou várias antas, com Júlio César Garcia, em S. Geraldo, no concelho de Montemor-o-Novo. Os apontamentos tomados por estes autores durante as escavações, só recentemente vieram a público, pela mão de Júlio Roque Carreira, na revista Almansor (Carreira, 1995-1996). Actualmente depositados no Museu Nacional de Arqueologia, integram notas transcritas dos cadernos de campo, plantas dos monumentos escavados e algumas fotografias da época.

Porém, a viragem mais significativa foi protagonizada por Vergílio Correia que, no primeiro quartel do séc. XX, avançou, na área de Pavia (Mora), com o primeiro projecto consistente de estudo do megalitismo português (Correia, 1921).

Na sua esteira, Manuel Heleno, então director do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia e Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciou, nos inícios dos anos 30 do século XX, um estudo sistemático, muito mais ambicioso nos objectivos, do megalitismo funerário alentejano. A sua área de intervenção corresponde, grosso modo a um rectângulo de orientação NE-SW, que engloba essencialmente a parte Norte do Alentejo Central, integrada na bacia hidrográfica do Tejo e abrangendo parte dos concelhos de Montemor-o-Novo, Mora, Coruche, Arraiolos e Estremoz.

Foi, contudo, na área de Montemor-o-Novo que Manuel Heleno identificou e escavou o maior número de monumentos megalíticos, entre 1931-1938, registados em 30 Cadernos de Campo.

A recente aquisição destes Cadernos de Campo, pelo Museu Nacional de Arqueologia, permitiu finalmente estabelecer uma ligação entre os milhares de artefactos resultantes das suas escavações e os monumentos de onde foram exumados (Rocha, 2005), uma vez que todo esse material se encontrava rotulado de forma codificada, nos depósitos do referido Museu.

Georg e Vera Leisner, arqueólogos de origem alemã, iniciaram os seus trabalhos sobre o megalitismo funerário, sobretudo a partir dos anos 40, procurando criar um corpus de referência, a nível peninsular. Trata-se de um inventário monumental, com uma grande preocupação pela documentação gráfica de estruturas e materiais, e abrangendo, pela primeira vez nessa escala, um quadro geográfico muito amplo, mas mesmo assim, de inegável carácter regional. Para além de um persistente trabalho de campo (prospecção e escavação) fizeram ainda a revisão da bibliografia disponível e de parte dos materiais depositados no Museu Etnológico, alguns dos quais provenientes das escavações de Manuel Heleno mas, maioritariamente, de Vergílio Correia.

O seu trabalho está reunido na monumental publicação Megalithgräber der Iberischen Halbinsel , infelizmente, ainda hoje, apenas disponível em alemão (Leisner e Leisner, 1956; 1959). Publicaram, no entanto, em português, um conjunto de trabalhos fundamentais, de que se destaca, pelo carácter praticamente exaustivo, o estudo das Antas de Reguengos de Monsaraz (Leisner e Leisner,1951), precedido de um estudo sobre as Antas dos Arredores de Évora (Leisner, 1948-49) onde são inventariados 152 monumentos num raio de apenas 30 km em redor de Évora, algumas das quais no concelho de Montemor-o-Novo.

Mais tarde, nos anos 60 e 70 do séc. XX, José Pires Gonçalves e Henrique Leonor Pina, inventariaram um número significativo de menires e cromeleques nos concelhos de Évora e Reguengos de Monsaraz (Pina, 1972; Gonçalves, 1975). Este tipo de monumentos, que havia sido pontualmente referenciado por Manuel Heleno nos seus Cadernos de Campo, tinha, curiosamente, passado quase totalmente despercebido ao casal Leisner.

Também na década de 60, Farinha dos Santos identificou e escavou, no concelho de Montemor-o-Novo, um tholos (monumento funerário de falsa cúpula, com câmara circular e corredor, escavados e revestidos de pequenas lajes de xisto verticais), situado a poucas centenas de metros da gruta do Escoural, um santuário de arte rupestre do paleolítico, reutilizado como necrópole neolítica e descoberto acidentalmente em 1963.

Estes novos elementos vieram contribuir para o reconhecimento da diversidade e riqueza do fenómeno megalítico na região e, em particular, no concelho.

 

2. Actividade Recente

A partir dos anos oitenta do século vinte, assistiu-se a um recrudescimento dos trabalhos de investigação no Alentejo Central, sobretudo no corredor megalítico de Montemor-o-Novo, Évora, Reguengos de Monsaraz, com diversos estudos realizados por Victor S. Gonçalves, Philine Kälb, Martin Höck e Mário Varela Gomes, entre outros.

No concelho de Montemor-o-Novo, merecem especial referência as escavações do recinto de Cuncos e dos menires da Pedra Longa, dirigidas por Mário Varela Gomes (Gomes, 1986), e as prospecções efectuadas pela equipa de Colin Burgess (Burgess, 1987), na área envolvente do cromeleque dos Almendres.

Em 1996, uma aproximação transdisciplinar, desenvolvida por um dos presentes autores (Oliveira, 2001), no concelho de Montemor-o-Novo, propôs-se acompanhar a biografia dos megálitos. Os testemunhos megalíticos, pela sua forma, materiais de construção e visibilidade na paisagem, devem seguramente ter continuado a estimular o imaginário das populações que se sucederam ao momento da sua construção na Pré-História (entre o 5º e 3º milénio a.C.) e foram, com certeza, sucessivamente reinterpretados em novos contextos. Embora uma parte possa ter sido ignorada e destruída ao longo de milénios, outra continuou certamente significante. Esta análise interpretativa procurou acompanhar a identidade destes monumentos, entendidos como "lugares de memória", discutindo ganhos e perdas de significado, modificações materiais, refuncionalização, conservação, rejeição-destruição, tendo em conta a sua relação com a paisagem e com as pessoas que nela habitam.

O trabalho de campo desenvolvido no âmbito da referida investigação, entre 1996 e 1999, permitiu a identificação e relocalização de mais de uma centena de monumentos (alguns deles inéditos) no concelho de Montemor-o-Novo, a avaliação do seu estado de conservação, a identificação de estruturas entretanto destruídas e a recolha de tradições, lendas, usos e memórias que os habitantes mantêm vivas em torno da sua presença.

A comparação do levantamento bibliográfico, que registava mais de uma centena de monumentos, com os resultados da prospecção arqueológica, das informações das populações e   da observação directa, permitiu, infelizmente, confirmar a destruição recente de quase duas dezenas de antas[1].

A distribuição espacial dos 104 megálitos identificados, revelou uma maior concentração na parte oriental do concelho [2], correspondendo à franja ocidental da grande mancha megalítica que abarca parte do distrito de Évora. Considerando que no período em que foram construídos os primeiros megálitos, as principais linhas de trânsito seriam os rios e os festos, a região de Évora terá funcionado como um ponto de confluência de populações em vias de neolitização (pastores com uma agricultura muito incipiente), num território de fronteira com populações mesolíticas dos estuários do Tejo e Sado.

Posteriormente, M. Calado (Calado, 2003) no âmbito do estudo dos menires do Alentejo Central e do povoamento pré-histórico associado, identificou no concelho um número significativo de monumentos megalíticos inéditos. Destaque-se, na Freguesia de S. Cristóvão, mais concretamente na área abrangida pelas herdades da Quinta do Gato e do Tojal, a identificação, em 2000, de um recinto megalítico com 17 menires, de um menir de médias dimensões (ambos entretanto escavados), assim como cerca de uma dezena de monumentos funerários com diversas tipologias. Destes, cerca de   50% correspondem a sepulturas protomegalíticas e 50% a antas, numa proporção curiosamente semelhante à registada na área estudada por Manuel Heleno.

Assinale-se ainda, na mesma altura, a identificação de um outro "cromeleque" na herdade do Sideral, por Pedro Alvim e Rafael Henriques, entre os já conhecidos menir do Sideral e "cromeleque" dos Cuncos.

Em 2001, no âmbito das medidas de minimização do impacte sobre o património arqueológico resultante da construção da barragem dos Minutos, realizaram-se no concelho as mais recentes escavações de monumentos funerários, neste caso efectuadas pela ERA- Arqueologia, S.A.. A intervenção nas antas da Azinheira e da Fonte da Senhora 1 revelou a sua integração num momento de apogeu do fenómeno megalítico, nos últimos séculos do 4.º milénio ou inícios o 3.º a.C. Se a tipologia da sua arquitectura as aproxima dos primeiros monumentos de clara inumação colectiva (planta poligonal, corredor curto e baixo, diferenciado), o espólio   parece integrar-se no que globalmente se conhece para a fase de apogeu da construção destes sepulcros. (Valera et al., 2001: 80) [3].  

Em resumo, a análise da situação actual do megalitismo, no concelho de Montemor-o-Novo, permite verificar que a maioria dos monumentos actualmente conhecidos foi identificada e escavada, até meados do séc. XX, por J. Leite de Vasconcelos, Manuel Heleno e Georg e Vera Leisner. Os trabalhos posteriores, a partir da década de 60, orientaram-se essencialmente para a prospecção e localização de novos monumentos, com especial incidência nos menires e recintos megalíticos.

Pese embora a antiguidade e o número dos trabalhos desenvolvidos sobre o megalitismo funerário em Montemor-o-Novo, a informação disponível encerra ainda muitas limitações, faltando sobretudo dados relativos às cronologias e integração em redes de povoamento. No quadro dos modelos interpretativos propostos para o megalitismo alentejano, a área de Montemor-o-Novo, apesar das referidas insuficiências, tem estado, desde os trabalhos de Manuel Heleno, no centro do debate sobre a origem do fenómeno megalítico funerário na região.

A análise dos Cadernos de Campo deixados por aquele investigador e os subsequentes trabalhos de campo desenvolvidos por um dos presentes autores (Rocha, 2005), teve, sobretudo, por objectivo avaliar as presumíveis correspondências entre tipologias arquitectónicas e conjuntos artefactuais e, simultaneamente, enquadrar e contrastar o megalitismo regional em contextos mais amplos, tendo em conta não só os dados de Manuel Heleno, como também dos que se lhe seguiram, nomeadamente os do casal Leisner.

Esse estudo permitiu, efectivamente, não só estudar o percurso daquele arqueólogo, no contexto dos paradigmas teóricos da sua época, como também formular um modelo que sublinha a complexidade do fenómeno e procura explicar as aparentes discordâncias entre as arquitecturas e os espólios, realidade que, até certo ponto, permite compreender as razões que levaram Manuel Heleno a manter inédito o colossal volume de dados reunido ao longo de mais de uma década (Rocha, 2005).

O presente trabalho integra e discute, portanto, os dados recentes recolhidos ou analisados, sob diferentes ângulos, pelos autores e procura avaliá-los à luz dos actuais conceitos e modelos interpretativos referentes ao megalitismo funerário, numa escala regional. Em particular, foi desenvolvido um esforço significativo, que reputamos fundamental, quer para relocalizar monumentos constantes em referências bibliográficas anteriores, quer sobretudo para melhorar a sua localização através do uso sistemático do sistema GPS de referenciação geográfica. Esta validação, no terreno, da localização, forneceu naturalmente elementos úteis para avaliar o grau de desaparecimento sistemático de monumentos, sobretudo da destruição resultante da mecanização agrícola, da estrutura agrária e das diversas formas de exploração da propriedade rural, mas também permitiu acrescentar um número apreciável de novos monumentos. A totalidade dos dados conhecidos, e consolidados, é compilada, no Anexo-I, num Inventário que visa contribuir também para a conservação do actual património megalítico do concelho de Montemor-o-Novo. A sua distribuição geográfica pode observar-se na Figura 1.

Figura 1. Distribuição geográfica dos monumentos compilados no Inventário

É principalmente no domínio do estudo da evolução da arquitectura dos monumentos megalíticos funerários e da sua orientação geográfica, que se pretende situar a análise aqui apresentada.

A releitura dos dados das escavações de Manuel Heleno, que registam, de forma sistemática e relativamente rigorosa, os elementos morfológicos dos diferentes monumentos, permite análises interpretativas, em termos da evolução da arquitectura dolménica, particularmente quando essas interpretações são validadas pela presente observação directa dos monumentos relocalizados.

Também no domínio da orientação geográfica dos monumentos, os registos de Manuel Heleno fornecem elementos, embora o rigor dessas observações se limite aos pontos cardiais secundários e terciários, e suas possíveis interpolações (i.e. os trinta e dois pontos da "rosa"). Recentemente Michael Hoskin e Manuel Calado mediram, de forma mais rigorosa, embora ainda com recurso à bússola, a orientação de 91 antas no Alentejo Central, algumas das quais (poucas) no concelho de Montemor-o-Novo (Hoskin e Calado, 1998). Igualmente, Robert Oldham (Oldham, 2001) fez uma primeira tentativa de determinação das orientações sem recurso à agulha magnética (globalmente cerca de 60 monumentos, porém apenas 21 no concelho de Montemor-o-Novo e sua fronteira).

No presente trabalho, um dos autores (CMS) procedeu à medição sistemática (ainda em curso) da orientação de cerca de 100 antas do concelho de Montemor-o-Novo, encontradas em diferentes graus de conservação. Analisam-se aqui estes novos contributos à luz de conceitos recentes de arqueoastronomia (da Silva, 2004).

 

3. Manuel Heleno Revisitado

Volvidos cerca de setenta anos após a conclusão dos trabalhos de Manuel Heleno, muitas foram as alterações paisagísticas, tanto a nível do uso dos solos, como da rede viária e dos próprios montes que lhe serviram de referência locacional.

Na verdade, a quantificação da destruição recente de muitos dos testemunhos megalíticos no concelho, só foi possível devido à informação recolhida por Manuel Heleno.

Se, em alguns casos, a agricultura de regadio foi responsável pela destruição de muitos monumentos, noutros, o abandono das herdades ou o seu aproveitamento actual como coutadas de caça, são responsáveis pelo encobrimento dos restos arquitectónicos, devido ao desenvolvimento de uma vegetação arbustiva bastante densa. De facto, a agricultura intensiva que tem vindo a ser implementada nas margens de algumas ribeiras, nomeadamente na ribeira do Lavre, conduziu a grandes despedregas, apresentando-se actualmente estas áreas com grandes extensões de terreno completamente limpos, com as pedras amontoadas em maroiços ou ao longo dos caminhos e limites das propriedades . Para além disso, muitas destas herdades apresentam vedações intransponíveis, que chegam a atingir os três metros de altura, e portões fechados a cadeado, o que muito dificulta o acesso dos investigadores.

Mesmo assim, os trabalhos de relocalização dos monumentos megalíticos, nesta área, permitiram confirmar um número substancialmente elevado de destruições, sobretudo ao nível das pequenas sepulturas protomegalíticas; na verdade, dos 139 registos de Manuel Heleno, foi possível relocalizar cerca de metade. Dos restantes, atendendo às características dos terrenos e ao tipo de trabalho efectuado, é provável que 29 estejam destruídos, outros 13 correspondam a situações em que a informação locacional é demasiado imprecisa e 26 correspondam a áreas em que o coberto vegetal ou os maroiços de despedrega podem ser responsáveis pela invisibilidade actual dos monumentos.

 

4. Caracterização dos Monumentos. Arquitectura dolménica

A análise dos dados de carácter arquitectónico, recolhidos por Manuel Heleno, no Norte do concelho de Montemor-o-Novo, mostra a existência de dois grandes grupos de monumentos funerários: um grupo de maior dimensão, correspondente às antas, em que as dimensões longitudinal e transversal da câmara são, grosso modo, da mesma ordem de grandeza, e um segundo grupo mais antropomórfico, correspondente às sepulturas protomegalíticas, em que a dimensão longitudinal é mais ou menos o dobro da dimensão transversal. Esta situação, ilustrada na Figura 2 onde se comparam os comprimentos e as larguras das câmaras, é ainda mais nítida se a comparação for feita entre a Altura do Esteio de Cabeceira (ECa) e uma das dimensões horizontais da câmara. O histograma de frequência dos valores de ECa (Figura 3) mostra claramente os dois grupos separados pelo valor ECa=1.5m. Por outro lado, o histograma de frequência dos valores do Diâmetro Transversal da Câmara(DCT) sugere que possamos também separar os dois grupos usando como referência o valor DCT=1.8m, já perceptível na Figura 2, embora considerações de arquitectura possam sugerir a inclusão de valores de DCT maiores no primeiro grupo, e menores no segundo.

Figura 2. Correlação entre as dimensões horizontas das antas intervencionadas por Manuel Heleno

Os monumentos registados por Manuel Heleno distribuem-se, de uma forma bastante equilibrada, por aqueles dois grandes conjuntos morfológicos, aspecto que se distancia, em termos globais, do panorama geral do megalitismo funerário alentejano, onde as sepulturas protomegalíticas são habitualmente em número muito inferior às antas.

Figura 3. Histograma da Altura do Esteio de Cabeceira sugerindo a distinção dos dois grupos de Antas (Grandes e Pequenas) pelo valor AEc=1.5m (antas intervencionadas por M. Heleno)

Contudo, o resultado mais importante é, talvez, a observação, neste grande conjunto monumental, duma significativa diversidade de soluções arquitectónicas. Este aspecto pode, como Manuel Heleno supunha, corresponder ao resultado de um processo evolutivo - certamente não linear - ou, pelo contrário, traduzir fenómenos de agenciamento ou de especificidades culturais sem grandes implicações cronológicas, como têm proposto os defensores do polimorfismo arquitectónico (Figura 4).

Figura 4. Modelo evolutivo das soluções arquitectónicas usado por Manuel Heleno

Efectivamente, na falta de elementos seguros sobre a antiguidade relativa dos diversos monumentos, que pudessem eventualmente pôr em evidência uma sucessão temporal de formas de construção, tanto se pode interpretar a diversidade observada como um elemento natural associado à variabilidade do processo de construção (como por ex. a relação "diâmetro longitudinal"vs"diâmetro transversal da câmara"), como se pode interpretar sobretudo a relação "câmara"vs"corredor" como representativa de diferentes formas arquitectónicas sucessivamente utilizadas ao longo do tempo, em particular associadas à evolução do conceito de monumento funerário num eixo cultural de enterramento individual/colectivo.

Neste contexto, e tal como se sintetiza no Anexo-II, é possível caracterizar as pequenas sepulturas em três tipos diferentes: "Pequenas Sepulturas Fechadas"(A1) de planta rectangular ou ovalada, "Pequenas Sepulturas Abertas"(A2), de planta rectangular ou ovalada, "Pequenas Sepulturas com Corredor"(A3) de plantas semelhantes às anteriores, mas com corredor incipiente. O tipo A1 é o menos representado, com apenas sete monumentos. É um tipo que apresenta alguma variabilidade no Diâmetro Longitudinal da Câmara (DCL)[1,24m a 2,42m], mas em que a largura, i.e. o Diâmetro Transversal da Câmara (DCT) [0,67m a 1,43m],   e a Altura Máxima (AltMax) [0,62m a 1,16m],   dos seus esteios se apresentam muito mais homogéneos. O tipo A2 é o conjunto mais numeroso com 38 monumentos. A maioria destes apresenta variabilidade semelhante nos seus parâmetros característicos (DCL)[1,5m a 3,0m], (DCT)[0,75m a ,.50m] e AltMax [0.80m a 1.40m]. O tipo A3, representado apenas por nove monumentos, apresenta variabilidade inferior a um metro nos mesmos três parâmetros (DCL)[1,68m a 2.50m], (DCT)[0,75m a 1.50m] e AltMax [0.80m a 1.24m] respectivamente.

A observação dos monumentos megalíticos relocalizados, permitiu, de facto, verificar a existência de um leque variado de formas arquitectónicas, supostamente evoluídas, que parecem contrastar com a padronização conhecida nas outras áreas megalíticas alentejanas. De realçar também a raridade dos tholoi e a existência, em alguns monumentos, como as antas do Paço, de um elevado número de enterramentos na mamoa.

Concretamente, no que diz respeito às arquitecturas das antas referenciadas por Manuel Heleno, nesta região, é possível sugerir a existência de seis categorias: as antas sem corredor, as de corredor curto, as de corredor médio, as de corredor longo, as de corredor muito longo e as de planta anómala. Para o estabelecimento destas divisões tomou-se em consideração a relação Diâmetro Longitudinal da Câmara (DCL) e o Comprimento do Corredor (CC) proposta por outros investigadores (Gonçalves, 1989; 1992; Oliveira, 1998).

Em relação ao primeiro grupo ("antas sem corredor"), aparentemente o que parece apresentar mais problemas por não se encontrar praticamente registo deste tipo de arquitecturas noutras áreas, é infelizmente também o que se encontra actualmente mais destruído. No entanto, a confiar-se na informação de Manuel Heleno que, consciente da aparente anomalia, afirma ter procurado, em todas, os vestígios do corredor, este é um grupo minoritário. Trata-se, em todo o caso, de um conjunto pouco homogéneo, em que o número de esteios varia, aparentemente, entre os cinco e os dez elementos, com uma altura superior a dois metros. De realçar também que não foram identificados nichos ou sepulturas anexadas a estes monumentos.

Nas "antas com corredor curto", o número de esteios na câmara varia entre os quatro e os dez elementos, sendo, no entanto, claramente predominantes as antas com sete esteios, enquanto o corredor pode atingir um máximo de cinco. Em termos gerais, é um grupo que apresenta uma certa variabilidade, em termos de tamanho, existindo monumentos pequenos, cujo DCL é <= 2 m, com esteios baixos na câmara, e outros bastante grandes, com DCL >= 3 m e esteios altos na câmara (>2,5 m). No entanto, ao contrário das sepulturas com corredor incipiente, em que este é construído com pequenos esteios que surgem quase no prolongamento da câmara, neste grupo o corredor encontra-se perfeitamente diferenciado. No domínio das singularidades arquitectónicas, destacam-se, neste grupo, dois casos pouco correntes: a anta 2ª do Vidigal, apresentava um corredor constituído por uma espécie de antecâmara, de planta circular, (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.189); a anta do Pimpolho apresentava uma dupla fiada de esteios, sendo os do lado de dentro mais baixos. Manuel Heleno propôs que se trataria de um reforço estrutural, com a finalidade de dar mais estabilidade ao monumento, construído num substrato arenoso (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p. 56).

As "antas de corredor médio" são, dentro do conjunto intervencionado por Manuel Heleno, as menos numerosas, existindo apenas um exemplar, a anta da Oliveira da Cruz, na área de Montemor-o-Novo.

No caso das "antas de corredor longo", torna a existir uma maior variabilidade no número de esteios na câmara, que oscila entre os cinco e os nove elementos, se bem que, mais uma vez, com um claro predomínio da fórmula com sete esteios. Neste grupo parece observar-se uma relação directa entre o número de esteios da câmara, o diâmetro longitudinal e a altura dos esteios. Quanto aos comprimentos dos corredores, os valores oscilam entre 1,92m e 5,70 m. Os nichos são mais frequentes, existindo tanto na câmara como no corredor (ou em simultâneo). As antecâmaras surgem em dois monumentos, 3ª do Barrocal das Freiras e 3ª do Vidigal.   Foram registadas covinhas no chapéu de três monumentos, e na anta do Monte das Pedras (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1,p.171) também num dos esteios. Esta anta apresentava ainda uma violação do período romano, com a construção de uma sepultura de tegulae, à entrada do corredor.

A anta 3ª das Antas (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.146) tinha materiais na mamoa. Segundo Manuel Heleno, existia uma vala aberta no substrato rochoso que partia do fim do corredor e descrevia uma curva, para Norte. Nesta vala, foi encontrado espólio diverso (placas de xisto, lâminas e pontas de seta). A anta 2ª dos Nabos apresenta uma arquitectura diferente das restantes, dado que possui uma câmara de planta rectangular (DCT>DCL), isto é com o corredor perpendicular ao lado maior (Rocha, 2005, anta EE, Cd.25 - Volume 2, Anexo 1, p.168).

Dentro deste grupo, destacam-se dois monumentos excepcionais: a anta B do Paço e a anta da Velada. Em relação à primeira, para além do seu excelente estado de conservação, com um corredor ainda coberto com três tampas, existiriam, segundo Manuel Heleno, três esteios da câmara pintados, o de cabeceira e os dois que lhe encostavam, à direita e à esquerda. O esteio da esquerda teria a pintura sobretudo do lado direito (junto ao de cabeceira), sendo, segundo parece, perfeitamente visível apenas um semicírculo. O esteio de cabeceira, o mais pintado, tinha, aparentemente, na parte central, uma figura humana estilizada, para além de algumas manchas incompreensíveis. No esteio da direita, Manuel Heleno não conseguiu interpretar nenhum dos motivos existentes (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.92). Estas pinturas localizar-se-iam na parte inferior dos esteios, não sendo actualmente visível qualquer vestígio das mesmas. A anta da Velada encontrava-se igualmente muito bem conservada, tanto a nível da câmara como do corredor, conservando este ainda duas tampas. É, em termos globais, o maior monumento deste grupo.

No que diz respeito às "antas de corredor muito longo", parece existir uma maior homogeneidade arquitectónica, uma vez que se trata sempre de monumentos com sete ou oito esteios e em nenhum deles se identificaram antecâmaras ou átrios. A anta 1ª do Deserto, apresenta um corredor muito largo, quase em continuidade com a câmara, e os esteios de um dos lados, sucessivamente sobrepostos, com uma disposição oblíqua (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.182). Dentro deste conjunto, devem destacar-se, com base nas dimensões, dois monumentos: as antas Paço-A e a Grande da Comenda da Igreja. Em relação à primeira, para além de se tratar de um monumento em muito bom estado de conservação, revelou uma grande complexidade arquitectónica, com nichos e várias estruturas/sepulturas na mamoa, do lado do corredor. Estas estruturas eram, nalguns casos, assinaladas por pedras "a pino", noutros apresentavam-se apenas delimitadas por pedras, formando caixas e, nalguns casos, Manuel Heleno refere que as pedras se encontravam sobrepostas, parecendo telhas num telhado (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.62). A anta Grande da Comenda da Igreja é o monumento de maiores dimensões de todo o conjunto intervencionado por Manuel Heleno. Encontra-se num excelente estado de conservação com o corredor e a câmara ainda cobertos; no entanto, não revelou tão grande complexidade, em termos de estruturas secundárias, como a anta A do Paço.

Dentro dos monumentos passíveis de determinação morfológica, refira-se, por último, um grupo de duas antas que apresentavam plantas pouco habituais e difíceis de enquadrar nas restantes categorias. A anta 4 do Vidigal era formada por uma câmara e dois corredores, um para Este e outro para Oeste. Forneceu espólio semelhante em todo o monumento o que, naturalmente, não sustenta (nem contraria) a hipótese de terem existido remodelações na sua arquitectura (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.192). A anta do Rabaçal (Rocha, 2005, Volume 2, Anexo 1, p.155) era constituída por uma câmara redonda seguida de um estreitamento e de um corredor também redondo, o que levou Manuel Heleno a descrevê-la como tendo planta em "8".

Em síntese, a especificidade das arquitecturas dolménicas desta área parece assim traduzir-se de diferentes maneiras: na presença, em número muito relevante, das pequenas sepulturas, na variabilidade das soluções arquitectónicas e das orientações (capítulo seguinte) e na presença, embora vestigial, de pintura nos esteios.

 

5. Orientação geográfica

Sendo necessariamente uma relação do monumento com a paisagem envolvente, incluindo o céu (Ruggles, 1999:208), a orientação geográfica de um megálito poderá eventualmente revestir-se de algum significado. Contudo, esta questão parece estar longe de ser um tema consensual (Ruggles, 1998). O problema surge porque, para que a questão faça sentido, a paisagem tem que possuir um elemento diferenciador, e o monumento uma direcção intrínseca. No caso de monumentos funerários (sepulturas protomegalíticas, dolmens, tholoi , cistas, etc.) esta direcção é, via de regra, um eixo de simetria na planta de construção (o que por si só já pode ter algum significado) que, em geral, coincide com a orientação de desenvolvimento do eventual corredor de acesso ou, simplesmente, da abertura ou entrada. No entanto, o valor simbólico residirá no elemento diferenciador embebido na paisagem, quer se trate de um elemento específico com notável destaque [local sagrado (ex. montanha) ou cultual, elemento avistado à distância (ex. mar), ou direcção dos ventos predominantes ou tempestades, etc.], quer se trate apenas da simetria imposta pelo nascer/pôr dos astros no horizonte

Se algum valor simbólico pode ser atribuído à orientação, uma parte significativa da controvérsia tem que ver também com o possível rigor usado nos processos de implantação e construção, circunstâncias que nada têm que ver com o rigor que actualmente pode ser usado para medir o que julgamos ser a orientação do monumento. Como indicativo do rigor necessário ou suficiente para apreciações desta natureza, será útil ter em conta que o diâmetro angular aparente do disco lunar é praticamente idêntico ao do disco solar, e que ambos correspondem a cerca de meio grau. (0.5º). Não parece inverosímil pensar que numa observação do nascer ou do pôr-do-sol (ou da Lua) o homem megalítico pudesse naturalmente distinguir situações de visualização do astro no horizonte distanciadas de um grau (1º), i.e. correspondentes a uma distância de dois diâmetros do respectivo disco. É pois nesta ordem de grandeza que devem assentar quer a recolha de dados de orientação, quer a discussão do seu significado.

5.1. Orientação geográfica das Antas no Alentejo Central

Manuel Heleno, na sua extensa intervenção realizada no Alentejo Central, cobrindo maioritariamente o concelho de Montemor, mas também em parte os concelhos circundantes (Mora, Coruche, Estremoz e Arraiolos) refere, para a maioria dos monumentos, a sua orientação geográfica. Porém essa apreciação não aparenta um grau de rigor desejável para uma comparação com valores actuais, limitando-se, em regra, a anotar os pontos cardiais principais e secundários, tudo indicando que foram apreciações directas da bússola. Só em dois casos parece essa apreciação ter sido mais cuidada (Rocha, 2005).

Contudo, é possível verificar que dos 164 monumentos (sepulturas e antas) em que há anotação de orientação, cerca de 130 estão assinalados "E", e só 13 estão fora do intervalo genérico NE-SE. Tendo em conta o grau de incerteza relativo a cada uma das categorias (note-se que os pontos cardiais secundários formam, com os principais, intervalos de 45º e que só os terciários separados de 22.5º, permitem uma apreciação, de meios intervalos, na ordem de 11º), pode dizer-se que os dados de M. Heleno apontam para uma orientação dos monumentos em que a sua entrada, e/ou corredor, se apresentam genericamente virados a Nascente, na grande maioria dos casos (mais de 90%). Esta prevalência parece ser seguida independentemente dos tipos de monumentos.

Idêntica predominância de orientações a Nascente é também evidenciada nos levantamentos efectuados pelo casal Leisner, no eixo Évora-Monsaraz. Neste caso trata-se essencialmente de antas, para além de alguns casos de tholoi e raras estruturas protomegalíticas. Estes levantamentos, porventura os primeiros efectuados de forma sistemática e consistente, permitem efectivamente verificar que, também nesta região, as antas se apresentam preferencialmente orientadas a nascente.

Recentemente Michael Hoskin e Manuel Calado (Hoskin e Calado, 1998) realizaram medidas de orientação em cerca de 91 antas, no Alentejo Central, como parte de um programa de cobertura de toda a região mediterrânica, permitindo obter dados de boa qualidade, assentes numa metodologia uniforme de observação do azimute magnético, essencialmente concentrada sobre antas de sete esteios. Embora os autores tenham naturalmente procedido a uma agregação dos dados em classes de cinco graus, os histogramas estatisticamente significativos apontam para uma distribuição das orientações dos corredores em torno de um azimute verdadeiro (geográfico) cerca dos   98º. Este valor médio mantém-se mesmo quando se alarga a observação às regiões circundantes de Portalegre, Badajoz, Valencia, Cáceres, Lisboa, etc., perfazendo um total de 177 antas.

Mais recentemente, Oldham (Oldham, 2001) fez um levantamento das orientações em cerca de 60 antas no distrito de Évora, utilizando um processo de medida que envolve a determinação do Norte geográfico a partir da observação do Sol, com um teodolito, eliminando assim eventuais incertezas relacionadas com a variação da declinação magnética. Embora globalmente a distribuição estatística das orientações medidas não difira da anteriormente observada, será de assinalar a existência de algumas diferenças significativas, no caso de diversas antas, relativamente aos valores medidos por Hoskin e Calado.

No entanto, a recente análise da dinâmica lunar (da Silva, 2004) resultante de uma significativa acumulação de dados que apontam para uma eventual ritualização do "equinócio megalítico", no Alentejo Central, sugere a possibilidade de a observação da "Lua da Primavera" poder ter desempenhado um papel de orientação celeste dos corredores das antas num contexto mágico-religioso de ressurreição, ou reaparecimento da vida após a dureza dos meses de inverno.

Interessaria portanto verificar se a regularidade, acima indiciada, representa apenas um valor médio estatístico que homogeneíza variações regionais, eventualmente subjacentes, ou se a direcção guia poderia ter sido uniformemente utilizada nas diferentes regiões. Uma primeira apreciação, de natureza regional, dos dados referentes às 177 antas, medidas por Michael Hoskin, veio a revelar-se inconclusiva face à incerteza estatística que resulta do pequeno número de antas medidas em cada unidade de análise. Esta circunstância sugere a necessidade de medição sistemática das orientações, em áreas geográficas distintas, actividade que se desenvolve no presente trabalho, no concelho de Montemor-o-Novo.

5.2. Dados de Montemor-o-Novo e sua análise. Metodologia

De um ponto de vista metodológico, uma primeira aproximação à medição sistemática da orientação das antas pode ser realizada numa base concelhia.. Esta estratégia, como alternativa a uma amostragem que incida apenas nos casos de monumentos em bom (ou suficiente) estado de conservação, recorrendo à opinião informada dos especialistas, tem naturalmente o risco de a amostra vir a incluir um elevado número de antas incompletas, em mau estado de conservação, ou, simplesmente, de difícil localização e observação. Ganha-se contudo em sensibilidade às circunstâncias que determinam a actual observação do monumento megalítico, desde os eventuais aspectos associados à sua construção até aos associados à sua conservação, embora se torne sempre necessário ponderar o valor medido, com um parâmetro de qualidade resultante dessas circunstâncias.

No presente trabalho, que se centra na área correspondente ao concelho de Montemor-o-Novo, incluíram-se ocasionalmente algumas (poucas) antas que, fazendo naturalmente parte da mesma região megalítica, se nos atravessaram no caminho, embora formalmente fora dos limites geográficos do concelho.

Até ao presente momento, foram visitados, principalmente na zona norte do concelho, cerca de 80 locais do Catálogo "CO" (Anexo I), tendo a diversidade de estados de conservação encontrados, sugerido a necessidade de caracterizar, em termos qualitativos, as diferentes estruturas, numa forma que viesse eventualmente a poder fornecer uma medida de confiança dos azimutes medidos . Nessa caracterização tem valor predominante a existência isolada, ou em conjunto, de esteio de cabeceira e de corredor. O estado de conservação da câmara ou do próprio corredor são factores que importa ponderar nessa caracterização. Finalmente, considerou-se igualmente importante a percepção, ponderada, de uma simetria no monumento, mesmo nos casos em que estejam omissos os factores anteriores mais distintivos, simetria essa que é regularmente evidente quando estão presentes. Nos casos de pior classificação global, em que os elementos caracterizadores estão ausentes, não se chegou a efectuar medida de orientação, ou reduziu-se esta a uma determinação do azimute usando apenas a bússola. Só naqueles casos em que se reunia um mínimo de circunstâncias para tornar plausível a estimativa duma direcção é que se desencadeou um processo de medida completo.

A primeira fase do processo de medida consistiu em definir a direcção estimada. Em geral, e em primeira aproximação, essa direcção é a que corresponde ao eixo de simetria do corredor, o que, numa estrutura típica, coincide com o eixo de simetria da câmara, geralmente determinado pelo esteio de cabeceira e pela entrada do monumento. Em cada caso, há que procurar a melhor leitura desta situação colocando um poste sinalizador vertical, a meio do esteio de cabeceira, e um segundo poste a meio da entrada do corredor junto da abertura da câmara. Nos casos em que se verificou um desvio óbvio, as duas direcções foram anotadas para tratamento posterior. Medidas complementares foram incluídas sempre que a situação não se apresentasse clara, por exemplo, pela falta de algum dos elementos orientadores, ou mesmo quando a frequente simetria da planta da construção não parecesse ter sido seguida.

Figura 5. Comparação entre o azimute magnético, Zm, medido com a bússola, e o azimute verdadeiro, Zv, medido com um "compasso" solar. A diferença (Declinação Magnética), tem um valor médio de +3º (linha azul).

Numa segunda fase procedeu-se à determinação do azimute dessa direcção (ângulo que faz com a direcção Norte), mediante dois processos complementares: um deles, utilizando uma agulha magnética de precisão, e outro, utilizando um "compasso" astronómico que, neste caso, se regula pela posição do Sol, no momento da medição. Resultam assim duas medidas: a primeira corresponde ao azimute magnético, Zm, medido em relação ao Norte Magnético, para onde aponta a agulha, e a outra, que corresponde ao azimute verdadeiro (ou geográfico), Zv, em relação ao Norte Geográfico que resulta da orientação do "compasso" pelo Sol. A Figura 5 mostra a clara correlação entre os valores Zv e Zm, medidos em cada caso. A diferença entre os dois valores medidos é habitualmente designada por Declinação Magnética e o processo descrito resulta, portanto, na determinação desse valor, caso a caso. Não existindo anomalias magnéticas (resultantes, por exemplo, de formações geológicas subjacentes, com elevado teor de materiais ferrosos, ou simplesmente da proximidade de massas metálicas como arados ou rolos de arame, provenientes das vedações) esta diferença é razoavelmente constante, numa região com a dimensão de um concelho. Na presente data, o valor médio da Declinação Magnética, que se estima a partir dos valores da Figura 5, é cerca de 3ºW, o que confere bem com o valor estimado do modelo geomagnético, à latitude média do concelho.

No conjunto apresentado, estão apurados cerca de 30 casos em que se estima, com alguma razoabilidade, um valor de Zv. O histograma que representa o conjunto destes azimutes medidos (Figura 6) mostra uma distribuição razoavelmente normal (gaussiana) em torno de um valor médio de 98.7º, o que se ajusta perfeitamente ao valor médio da distribuição da "Lua da Primavera", tal como sucede no caso das 91 antas do Alentejo Central ou no caso das 177 antas da região alargada (da Silva, 2004).

Figura 6. Histograma das orientações das antas de Montemor-o-Novo

 

6. Discussão e Conclusões

As análises dos dados de Manuel Heleno e dos estudos mais recentes, complementadas com a apreciação directa resultante do esforço de relocalização, e com a avaliação do estado actual de conservação, permitiram testar, no concelho de Montemor-o-Novo, os modelos correntes sobre a evolução das arquitecturas funerárias megalíticas. Em termos absolutos, verifica-se a existência de uma frequente discrepância entre arquitecturas e espólios, envolvendo monumentos das mais diversas tipologias. A constatação deste problema que, de uma forma embrionária, tinha sido certamente percebido pelo próprio Manuel Heleno, levou uma das autoras deste trabalho (Rocha, 2005) a elencar, os fenómenos que, com base nos dados conhecidos, poderão explicar essas anomalias. O modelo explicativo resultante, Figura 7, filia-se, com alguma flexibilidade, num paradigma evolucionista que, com raras excepções, tem sido aplicado, com êxito, às diferentes regiões megalíticas europeias.

Figura 7. Modelo evolutivo proposto (Rocha, 2005)

Subjacentes a este modelo estão os dados concretos que apontam para uma evolução geral dos enterramentos individuais para os colectivos e uma complexificação crescente, nomeadamente em termos de riqueza de espólios e monumentalidade arquitectónica.

Neste quadro, parece importante observar, em primeiro lugar, que a evolução das arquitecturas (e rituais) não se processou necessariamente de uma forma abrupta em relação aos cânones anteriores; isto é, à medida que novas formas surgiram e se desenvolveram, as anteriores continuaram a ser construídas, durante algum tempo, e umas e outras contêm, por isso, espólios semelhantes. Este conceito de polimorfismo evolutivo também não exclui a possibilidade de monumentos de tipologias mais arcaicas poderem ter ressurgido em fases mais recentes, nomeadamente na fase final da sequência megalítica, quando as práticas rituais reintroduziram o enterramento individual.

Em segundo lugar, a presença de materiais tardios (nomeadamente do Calcolítico final e da Idade do Bronze) em monumentos tipologicamente mais antigos, poderá ser explicada pela sua reutilização, numa fase em que estes se encontravam já desactivados.

Por outro lado, a situação inversa, ou seja, a presença de materiais antigos em monumentos tipologicamente mais evoluídos - problema efectivamente muito frequente, no Ocidente peninsular - pode corresponder a uma prática, corrente mas não sistemática, de trasladação de restos osteológicos e de espólios, dos monumentos mais antigos para as novas construções.

No conjunto dos dados disponíveis, destaca-se o elevado número de sepulturas protomegalíticas (na ordem de 50%), na área de intervenção de Manuel Heleno, o que torna a ocorrer, na área do Tojal - Quinta do Gato, estudada por Manuel Calado (Calado, 2003). Esta situação contrasta com a que ocorre em Reguengos de Monsaraz, onde as sepulturas são praticamente desconhecidas. Note-se, contudo, que, de uma forma geral, na parte oriental do concelho de Montemor-o-Novo, as antas são largamente maioritárias; esta realidade pode naturalmente relacionar-se com a falta de prospecções orientadas para a identificação das sepulturas protomegalíticas e, provavelmente, com as destruições que, a partir dos anos 50 do século XX, resultaram da crescente mecanização da agricultura.

Efectivamente, face à destruição e/ou ocultação de muitos dos monumentos referenciados na bibliografia, em virtude das alterações recentes nas sociedades e espaços rurais, os informantes locais, profundos conhecedores do território, na envolvente das aldeias e montes, fruto da actividade profissional ligada à agricultura e pastoreio, foram essenciais para a relocalização de sítios e actualização de dados. Porém, as sepulturas protomegalíticas, por serem mais discretas e frágeis, escapam mais facilmente a este tipo de abordagem.

Seja como for, a recente orientação do olhar para as memórias e conhecimentos das populações locais sobre os monumentos megalíticos de Montemor-o-Novo, abriu outras direcções na investigação. O estudo da forma como as pessoas conferem significado e memória a determinados lugares do território, e se relacionam com os vestígios materiais de tempos longínquos, pode vir a contribuir para aprofundar novas questões levantadas pelo presente estudo, em concreto no que respeita à importância da Lua da Primavera na orientação das antas e recintos megalíticos.

Os monumentos megalíticos, parecem ter sido as primeiras materializações de uma ligação entre a lua, a marcação da paisagem e o calendário ritual, consubstanciadas quer na sua construção, como sugerem os dados resultantes da medição das suas orientações, quer na decoração patente nalguns deles, em que a representação da Lua ocupa uma posição privilegiada. Materializações que se viriam a perpetuar no tempo, através da memória colectiva, como parecem evidenciar novos elementos entretanto recolhidos (da Silva, 2003), ou em análise (CMS e CO).

No que se refere às orientações, os dados de M. Heleno mostram que se verifica quase sempre uma orientação maioritária no "quadrante" Este, aspecto que, no caso das antas com corredor, atinge o valor de 95%, e no caso de sepulturas abertas, o valor de 85%. Deve contudo notar-se a existência de uma percentagem significativa, embora pequena (15%), de sepulturas (10) cuja orientação se faz para o quadrante Oeste. No caso das antas, esta percentagem é quase nula, só uma sendo indicada como orientada a Oeste (Águias 1, Mora) e outra, de planta "anómala", orientada a Sul (Rabaçal, Montemor-o-Novo). Presumindo que a anta relocalizada na Fonte Santa é a referida como Rabaçal, esta orientação a Sul não foi confirmada no presente trabalho, uma vez que a orientação observada é claramente a Este.

Victor Gonçalves, na reanálise dos dados dos Leisner sobre o concelho de Reguengos de Monsaraz (Gonçalves, 1992 ), contabiliza 69 antas, todas, menos uma, orientadas a nascente. Também aqui se verifica um elevado número de antas (cerca de 50%) num intervalo estreito de 10º, centrado num azimute verdadeiro próximo de 100º, se tomarmos em conta que se trata de leituras directas da bússola e fizermos a correspondente correcção para a declinação magnética da época. Já Victor Gonçalves refere que 97% das antas se encontram orientadas num intervalo de 45º ( i.e. entre 80º-125º se corrigirmos para a declinação magnética da época). Em qualquer caso, verifica-se o mesmo padrão, em que pelo menos 70% das antas se situam num intervalo de 20º, centrado cerca de 10º a sul da direcção Este.

  A concordância global dos dados acima descritos parece confirmar a existência de um padrão de orientação, particularmente claro no caso das antas, e que abrange regiões razoavelmente distantes, e distintas, geograficamente.

Além disso, a constância deste valor médio numa área que se estende geograficamente numa extensão da ordem de 300 Km x 300 Km, aponta necessariamente para um recurso à observação do céu na escolha dessas orientações, como   aliás já tinha sido proposto (Hoskin e Calado, 1998).

O valor desta orientação preferencial próxima de 100º encontra-se inusitadamente fora das direcções solares e lunares mais directamente resultantes da dinâmica celeste perceptível no dia-a-dia.

Como acima se refere, Oldham também realizou um levantamento de orientações, dentro do nível de rigor adequado para este tipo de análise. No entanto, das 15 antas em comum com Hoskin e Calado há 9 em que a diferença de azimute medido por Oldham é inferior ou igual a 2º, e há 3 em que a diferença é inaceitável (desvios da ordem de 10º ou superiores, como, por exemplo, Pinheiro do Campo 1, Gonçala 1 ou Anta   Grande dos Antões). Igualmente, no caso das 21 antas em comum com as medidas do presente trabalho, sete apresentam desvios da ordem de 10º ou superiores (Pinheiro do Campo 1, Alcalva de Cima 2, Bate Pé 1, Amoreira das Torres, Valeira 2, Paço 1 e Barrocal) e, em 11 casos, verifica-se a concordância dentro de 2º. Contudo, um exame detalhado, quer dos casos em que se verifica um bom acordo, quer dos casos em que se verificam discrepâncias, parece suportar a indicação de que, em geral, estas se verificam quando o estado de conservação pode levantar dúvidas quanto à direcção de orientação a medir. Uma pequena diferença de interpretação quanto à   aparente simetria da câmara ou do corredor pode facilmente explicar uma diferença de azimute da ordem de 5º. Na ausência de um corredor bem desenvolvido e em que, em alternativa, o estado de conservação não permita, por exemplo, uma identificação segura do esteio de cabeceira, é possível compreender diferenças de estimativa de orientação, da ordem de 10º ou superior. Apenas no caso da Anta da Amoreira da Torre que tem um longo corredor ainda bastante bem definido parece realmente insólito que haja uma diferença de 9º entre as duas leituras.

Oldham sugere que esta orientação preferencial tenha como guia a direcção em que o nascimento da constelação das Plêiadas poderia ter sido observado em épocas megalíticas. Com efeito, esse compacto agrupamento de estrelas, que é suficientemente conspícuo para, em astronomias e astrologias mais recentes, ter correspondência mitológica, nasce actualmente num azimute da ordem de 58º. Porém, se tivermos em conta a variação secular da obliquidade (inclinação do eixo de rotação da Terra sobre o plano da sua órbita) podemos estimar que cerca de 4500 AC este asterismo teria uma declinação celeste cerca de -7º, o que permitiria uma observação do seu nascimento em azimutes da ordem de 99º, compatível com os dados de orientação agora registados. No entanto deve notar-se que a variação secular do referido azimute, cujo valor é da ordem de 6º por milénio, faz com que a direcção preferencial de nascimento das Plêiadas, cerca do ano 3000 AC, já seja de 90º. O nascimento das Plêiadas varre o intervalo de azimutes entre 100º e 95º entre os anos 4500 AC e 3700 AC. Talvez a grande pujança da construção de monumentos megalíticos tenha ocorrido preferencialmente dentro deste período e tivesse beneficiado desse elemento orientador. Porém, fora desse período, a orientação gradualmente sairia do referido intervalo. Cerca do ano 6500 AC a orientação do nascimento das Plêiadas seria de 115º, e cerca de 2100 AC seria de 85º. Mesmo que, na altura da implantação e construção, estatisticamente a orientação final não ficasse na direcção inicialmente escolhida, e fosse afectada por um erro médio "normal" da ordem de 5º, o pico de orientação preferencial levaria pelo menos cerca de 4400 anos a "varrer" o intervalo significativo de 2 Sigma das distribuições actualmente observadas. Estes histogramas representariam então o esforço de trabalho investido na construção dos megálitos, entre meados do sétimo milénio e o final do terceiro, apresentando como data mais representativa o meio do quarto milénio. Porém, se é certo que as Plêiadas tenham sido usadas em culturas na antiguidade, em particular pelos gregos (Belmonte, 1999), normalmente associadas ao calendário agrícola, não parece haver no contexto das culturas mediterrânicas um uso generalizado, simbólico, ou   cultual, deste asterismo. Por outro lado, o uso continuado deste guia de construção teria certamente desviado, de forma sistemática, a orientação das antas para valores fora do intervalo presentemente observado, tal como aconteceu com o uso da estrela Sirius nos templos egípcios dedicados a Isis, que veio a ser abandonado por essa razão.

Convém ainda observar que, a confirmar-se a proposta de Oldham, as diferentes orientações observadas corresponderiam a diferentes cronologias, o que dificilmente se pode conjugar com os dados cronológicos disponíveis. Na verdade, monumentos com arquitecturas e espólios semelhantes, diferem nas orientações, e vice-versa.

No entanto, a recente análise da dinâmica lunar (da Silva, 2004), acima referida, leva-nos a sugerir que a observação da "Lua da Primavera" possa ter desempenhado esse papel de orientação celeste dos corredores das antas. O bom acordo verificado entre as distribuições de orientações das antas e a distribuição de azimutes do nascimento da "Lua da Primavera" confere razoável plausibilidade à sua utilização como guia da orientação da planta inicial da construção. E essa orientação não sofreria alteração significativa nos últimos vinte milénios, mantendo-se essencialmente a mesma desde o Paleolítico até aos dias de hoje.

Independentemente do interesse desta análise como contribuição para o conhecimento das antas de Montemor, a sua inserção na perspectiva de análise regional da problemática da "Lua da Primavera" permite desde já referir o aparente bom acordo com o modelo de base. Este acordo confere bem com a expectativa proveniente da análise preliminar resultante do desmembramento regional dos dados das 177 antas de Hoskin e Calado. Deve contudo notar-se que a ocorrência de uma aparente ligeira aglomeração de orientações entre os azimutes de 80º e 85º, eventualmente correspondentes ao equinócio do Outono, só foi ligeiramente sugerida pelos dados das áreas de Elvas-Castelo de Vide-Valencia-Cáceres. A possibilidade de existência de um efeito correspondente ao equinócio de Outono, parece ter sido detectada por J. Belmonte (Belmonte, 2000) na região de Valencia de Alcántara, embora com base também nas orientações dum reduzido número de antas. O autor atribui-lhe um valor simbólico de sobrevivência aos excessivos calores do Verão, celebrando as bem chegadas chuvas de Outono. A recolha de informação semelhante nestas regiões poderá eventualmente fornecer uma visão mais precisa desta questão.

Os dados presentemente recolhidos são, por si só, quase suficientes para o esclarecimento da preferência local pelas orientações do equinócio da Primavera mesmo tendo em conta uma possível ligeira contribuição do efeito do equinócio do Outono. No entanto, a expectativa de melhorar a visibilidade estatística, pela observação das antas das áreas meridionais do Concelho de Montemor, justifica o prosseguimento das medidas nesta região. Por um lado poderá permitir estabelecer um limite para a eventual contribuição do Outono, que parece ter sido detectada na região de Valencia de Alcántara . Porém, por outro lado, ajudará certamente a melhor definir a distribuição de orientações, e esclarecer o efeito aparentemente irregular de uma acumulação de orientações entre 100º e 105º. Dificilmente se esperaria que fosse possível alinhar a construção duma anta mantendo um rigor de orientação inferior a 5º, mesmo em casos de construções relativamente próximas. Pensa-se que este efeito é apenas um artefacto de natureza estatística que resulta do baixo número de casos observados, e que se diluirá naturalmente à medida que o número de casos aumente. Um efeito semelhante foi notado nos dados de Hoskin e Calado precisamente no mesmo intervalo, efeito que, contudo, se reduziu, redefinindo os inícios dos intervalos usados na construção do histograma, isto é, redefinindo as classes usadas para a agregação dos dados. Por outro lado, em casos em que há grupos de antas muito próximas (ex: Caeiras, Pavia), ou, pelo menos, com intervisibilidade, verifica-se que os valores das orientações se distribuem no intervalo alargado de 80º-115º, o que é mais compatível com a observação de sucessivas Luas da Primavera, que percorrem o intervalo global de azimutes durante um período de variação dos nodos lunares(cerca de 19 anos).

A clara concordância que ainda hoje se pode observar entre a orientação das antas e a direcção em que nasce a Lua da Primavera, por um lado, e a semelhança estrutural com a actual definição da Lua Pascal judaico-cristã, assim como a evidência de actuais práticas com origem no culto lunar, faz supor que a importância simbólica da lua na marcação da paisagem e do calendário ritual de diversas religiões, se tenha mantido em momentos históricos e civilizacionais posteriores.

Há que aprofundar estas questões, examinando em detalhe a memória colectiva e a sua materialização espacial, procurando sobrevivências da relação entre a lua, a marcação da paisagem e a celebração da primavera, na busca de continuidades e descontinuidades nas manifestações "religiosas" e crenças ligadas à lua, e identificando eventualmente costumes, crenças, dizeres na memória colectiva, bem como locais onde se verifiquem indícios associados a eventuais cultos lunares.

 

[1] Esta destruição deveu-se essencialmente ao trabalho de máquinas agrícolas, à construção de albufeiras, à instalação de pivôs de rega, às chamadas "despedregas" e à reutilização da pedra como material de construção. Dos monumentos identificados foi possível concluir que a maior parte dos monumentos se encontra num estado de conservação pouco satisfatório: destruídos na sua quase totalidade, restando apenas vestígios da construção megalítica; dispersos com derrube dos esteios e laje de cobertura; com destruição do corredor e mamoa; abandonados, cobertos de vegetação.

[2] Vide, em apêndice, inventário dos monumentos megalíticos do concelho.

[3] No final das escavações, as duas antas foram aterradas com terra e brita, depois de se ter coberto as respectivas câmaras e corredores com manga plástica, garantindo-se desta forma a conservação das estruturas a submergir pela barragem dos Minutos.

 

 

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