1.
Conceitos, leituras e semântica da paisagem
[2]
O texto que se apresenta em seguida parte da utilização de um conjunto de conceitos-chave que irão estar subjacentes a boa parte do restante discurso. São conceitos particularmente complexos, pelo que se intentará explicitar em seguida o sentido com que foram utilizados.
A Paisagem, enquanto resultado da interacção Homem-Natureza, surge-nos hoje como o produto de existências e vivências que se desenrolaram ao longo de milhares de anos. É esta Paisagem construída, trabalhada, conceptualizada, que ainda hoje nos acompanha pejada de simbolismos, códigos e significações, que procuramos decifrar com a actividade arqueológica, numa ânsia de criação/preservação da Memória colectiva.
A Paisagem é aqui entendida como o resultado da interacção estreita e unificadora entre a componente Natural e Humana, numa dimensão material e imaterial, essencialmente perceptiva e conceptual, numa dinâmica constante de interacção e vivência (Ingold, 1993; Valera, 2000, ambos com diversa bibliografia associada).
A construção de uma Paisagem deriva, creio, da apreensão cognitiva e conceptualizadora da envolvente exterior pelo Indivíduo e pelo Grupo, constituindo a Memória a consciencialização da acção cognoscente. Assim, nas palavras de J. Thomas, " Since memory is a representation and interpretation of the past to oneself which is linguistically mediated (...) it is also socially constructed" (Thomas, 1996, p. 52), ficando claro, creio, o seu carácter reconstrutivo e socialmente condicionado.
Assim, na realidade, Paisagem e Memória resultam num binómio inseparável, de grande complementaridade, cuja construção corre em paralelo. Por outro lado, julgo ser da consciência da formação e partilha de uma Paisagem e de uma Memória, pelo grupo ou pelo indivíduo, que surge a noção de Identidade, enquanto sentimento de inclusão/pertença; isto é, a Identidade resulta da partilha de uma Memória colectiva.
Deste modo, a construção da Paisagem faz-se não apenas pela transformação de um conjunto de realidades fisiográficas ou pela adição de novas entidades arquitectónicas mas, igualmente, e principalmente, pela inclusão, muitas vezes ritualizada, de novas conceptualizações, que geram uma nova semântica de leitura dos contextos envolventes. Assim, a sua profunda transformação poderá ser gerada sem uma alteração radical do contexto físico e material das pré-existências, "apenas" com a sua reconceptualização.
A Paisagem pode ser completamente transformada unicamente pela alteração do modo como a vivemos e utilizamos, através da transformação dos ritmos de vivências (julgo relevante recorrer aqui ao exemplo dos caminhos, já utilizado por Ingold, 1993, p. 17), revelando assim a sua Temporalidade inerente à própria vivência.
Será em torno da formação e partilha de conceitos como Paisagem, Memória e Identidade, que acabará por se desenrolar o conjunto de reflexões que se pretende desenvolver em seguida, através de um "fio condutor" particularmente marcante nos horizontes alentejanos, o Megalitismo, aqui entendido em largo espectro, e logo funerário e não funerário. Por outro lado, o Megalitismo pode também ser entendido como o conjunto das práticas funerárias próprias do IVº/IIIº milénio a.C. (Gonçalves, 1992), afastando-se de um entendimento exclusivamente arquitectónico, justificando então o subtítulo utilizado.
Todavia, se este é o "fio condutor" importa aqui tratar a sua existência e utilização num espaço de tempo posterior ao período "clássico" da sua construção. Assim, e mesmo que se possa ter continuado a erigir monumentos de porte ou aparência megalítica após este período (Bueno, 2000; García Sanjuan, 2005), tal aconteceu de forma certamente marginal no território alentejano.
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| Figura 1 – Paisagem alentejana na envolvente da Anta 1 das Martes. |
A ocupação do espaço tumular megalítico em momentos posteriores às comunidades que o erigiram não é, todavia, próprio apenas das comunidades pós-calcolíticas, tendo claramente as suas raízes em comportamentos ancestrais, contemporâneos da construção de outras tumulações megalíticas; o melhor exemplo desta situação em território alentejano é, sem dúvida, o fenómeno de necropolização assumido pela Anta 2 do Olival da Pega (Gonçalves, 1999), com outros paralelos próximos nos monumentos da Farisoa e Comenda (Leisner e Leisner, 1951), numa tradição secular igualmente reconhecida a nível europeu (Bradley, 1998).
Assim, o conceito de reutilização necessita uma reflexão mais concreta pois, é certamente complexo discernir os tempos de um grande monumento. A presença de espólios "calcolíticos" em locais de enterramento dos finais do IVº milénio a.C. será uma reutilização ou uma ocupação de longo espectro, quando sabemos que pode existir um espaço de tempo menor entre uma tumulação "calcolítica" e uma "reutilização" campaniforme ?
A utilização dos espaços megalíticos alentejanos ao longo da Proto-História tem sido vista como um epi-fenómeno, essencialmente marginal e excêntrico.
Todavia, e como seria de esperar, o fenómeno campaniforme, por ter maior proximidade com os investigadores da Pré-História, acabou por conhecer, neste âmbito, um desenvolvimento diferenciado, integrando lógicas relacionadas com a justificação e reforço dos poderes individuais e a ascensão de linhagens (Soares, 2003).
A visibilidade de todo o processo de utilizações acabou marcada irremediavelmente por uma tradição de investigação caracterizada pela abordagem parcelar dos monumentos, (v. Leisner e Leisner, 1959) e pela investigação virada principalmente para as realidades pré-históricas. Por outro lado, a escassez, ou mesmo ausência, de estudos sistemáticos relacionados com a ocupação Proto-histórica do espaço alentejano veio contribuir para uma difícil visibilidade e valorização das utilizações pós-megalíticas destes monumentos, de que apenas agora se começa a sair. Este facto segue, aliás, toda uma tendência reconhecida no Sul peninsular em geral (Mataloto, 2005; Garcia Sanjuan, 2005; Lorrio e Montero, 2004).
Os monumentos megalíticos, pela sua arquitectura e inserção topográfica, mas não só, assumiram-se, desde há muito, como elementos significantes da paisagem, carregados de um valor que os integra, em determinados momentos e locais, na semântica paisagística enquanto elementos estruturantes das leituras espaciais e mentais do território.
Esta carga simbólica, inerente aos elementos caracterizadores de uma entidade paisagística, impregna-os de uma visibilidade mental que se pode, ou não, associar a uma visibilidade física e real; este facto acaba por lhe imputar uma função de marcadores e organizadores diacrónicos da paisagem, numa geodesia ancestral.
Neste sentido, a sua presença acabará por ser integrada na transformação do Meio Natural em Campo, como espaço de vivência e acção Humana, através da conceptualização e estruturação simbólica da realidade fisiográfica, efectuada pelas sociedades camponesas, que marcaram profundamente a Proto-História alto alentejana.
Muitos dos resquícios de antigas leituras de paisagem, que passaram diacronicamente através de gerações de camponeses, encontram-se hoje num inexorável papel de esquecimento, com o desaparecimento de uma vivência do Campo, antes caracterizada pelo apego à terra e às suas marcas e definições, na sequência do atavismo típico das sociedades camponesas.
A mobilidade e o desapego à Terra, que caracterizam a agricultura actual, associada a uma cada vez maior mecanização, onde a força do terreno se não transmite ao lavrador pelo cabo do arado, ou onde as "estremas" se conhecem pelas vedações e não pelas marcas na paisagem, conduzem a uma nova semântica paisagística, geradora de novas identidades, onde os antigos "topos" são anulados, num acto talvez sem precedentes ...
2.
Do Bronze ao Ferro: breve percurso através do megalitismo alto alentejano
Ainda que se queira centrar o discurso entre o segundo e primeiro milénio a.C., será o fim do terceiro milénio a.C. que marcará uma tendência de continuidade de utilização dos espaços megalíticos por populações que os deixaram de construir, no Sul do actual território português.
Não são conhecidas muitas destas ocupações no espaço alentejano, ainda que sejam a regra na península de Lisboa; todavia, esta situação poderá estar dissimulada pela presença diferenciada da tradição decorativa campaniforme, muito abundante nesta última região. Os resultados obtidos recentemente na anta 3 de Santa Margarida (Gonçalves, 2003) tornam absolutamente evidente a dificuldade de quantificar este fenómeno de novas utilizações, quando estas se não fazem acompanhar de qualquer espólio, sendo enquadradas unicamente por métodos radiométricos, apenas aplicáveis quando existem vestígios ósseos, tão escassos na generalidade das tumulações megalíticas alentejanas.
Assim, se atendermos aos dados disponíveis (Mataloto, 2006) são apenas conhecidas três utilizações campaniformes de monumentos megalíticos, todas elas enquadráveis em realidades tardias, dentro do complexo "Ciempozuelos"; em dois casos, Anta das Casas do Canal (v. fig. 2) e Estremoz 7, verifica-se a presença de uma taça carenada, vulgarmente designada de caçoila, associada a um vaso campaniforme liso, constituindo uma verdadeira associação clássica das deposições campaniformes da área da Meseta (Garrido Pena, 1997). Para além destes são conhecidos vários outros casos no espaço alto alentejano onde se depositaram recipientes de morfologia campaniforme, aos quais não se apôs a tradicional decoração; são eles a Anta do Cabeço da Anta (Crato) (Bubner, 1979), Anta dos Cabacinhitos (Évora) (Mataloto, 2006, p. 98) e a Anta de Vale Carneiro (Leisner e Leisner, 1951). A sua distribuição geográfica evidencia o alargamento deste fenómeno a todo o espaço alto alentejano, afastando a hipótese de constituírem realidades isoladas. Em texto recente, foi dado a conhecer mais um destes casos, igualmente em espaço alentejano, mas agora da margem esquerda do Guadiana, na área de Vila Verde de Ficalho (Soares, n.p.). Aqui houve a oportunidade de intervencionar o monumento do Monte da Velha 1, no qual se detectou uma deposição funerária secundária, acompanhada por vários recipientes, um dos quais campaniforme liso; a presença de ossos humanos conservados, arrumados no que parece ser uma deposição secundária, entregou uma datação que os coloca no 3º/inícios do 2º quartel do IIIº milénio a.C., claramente contemporâneos de algumas realidades puramente campaniformes. Este facto poderá traduzir-se, desde logo, num enorme complexificar das presenças campaniformes, com a descontinuidade geográfica das tendências decorativas e funerárias, acabando por realçar que a realidade campaniforme é diversa e em muito sujeita a fenómenos de aceitação diferenciados, eventualmente de origem grupal.
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| Figura 2 – Anta das Casas do Canal (Estremoz) e espólio associado (seg. Leisner e Leisner, 1959) |
Se atendermos à identificação de outros itens integráveis dentro das realidades campaniformes, nomeadamente ao nível dos artefactos metálicos, como as pontas tipo "Palmela", as presenças em contextos megalíticos multiplicar-se-ão (Mataloto, 2006), vincando o amplo espectro das utilizações "pós-megalíticas" que, como nos deixa entrever o já citado caso da anta de Santa Margarida 3, deveria ser muito mais amplo que o expectável até muito recentemente. O registo de, pelo menos, seis pontas de seta em cobre, entre outros artefactos, efectuado por Manuel Heleno (Rocha, 2005, p. 181), deixa claro que o panorama das utilizações pós-megalíticas se irá alargar com o continuar da investigação em torno dos monumentos megalíticos.
Por outro lado, este facto coloca-nos a questão de saber que componente da população se fazia sepultar nos antigos monumentos megalíticos. As explicações mais usuais apontam para franjas destacadas da população, elites que procuram justificar novas ou velhas linhagens através da emulação dos antigos hábitos de tumulação, associando-se a uma Paisagem ancestral, em pontos significantes da Memória colectiva, de modo a sustentarem e justificarem a sua posição de destaque (Soares, 2003). Todavia, mais uma vez, se atendermos aos dados da anta 3 de Santa Margarida, onde nada de destaque se registou, é difícil sustentar este tipo de enquadramento para as utilizações campaniformes alentejanas, na justa medida em que, se os gentios, como a "cesteira" de STAM-3 (Gonçalves, 2003), tivessem acesso a verdadeiros marcadores de paisagem, lugares de Memória colectiva, estes dificilmente poderiam ser entendidos como elementos integradores e legitimadores de linhagens e poderes no seio da comunidade. Talvez estejamos, na realidade, perante um processo de forte atavismo comunitário, onde não seria alheia uma semântica da paisagem de estreito enraizamento local, mantendo os ancestrais elementos tópicos estruturantes do espaço da comunidade. Na realidade, a desagregação dos grandes grupos humanos que se coordenavam territorialmente na primeira metade do IIIº milénio a.C. acabaria por fortalecer a Identidade local dos pequenos grupos, organizando o território em que se movimentam através do reforço do carácter tópico das antigas construções megalíticas, que certamente ainda não teriam perdido o seu significado como espaços de tumulação ancestrais.
O final do terceiro milénio parece ser, então, marcado por um processo de fragmentação das comunidades, que acabaria por derivar no estreitamento da interacção das mesmas com a Natureza, num movimento de marcação e enraizamento perante uma nova ordem territorial; isto é, a fragmentação dos grupos resultaria na fragmentação da Paisagem, que carecerá agora de um reordenamento semântico que coadune a necessidade de um novo conceito de Identidade grupal aos elementos tópicos da estruturação paisagística. Deste modo, a codificação de construções ancestrais como espaços de Memória, enquanto marcas de apropriação e vivência do território, quer sejam funerários quer sejam de outro índole, veicularão uma determinada comunidade a um espaço produzido e trabalhado pelos antepassados.
Será este processo social que irá marcar grande parte do milénio seguinte, o qual, creio, será acompanhado pela construção de uma Paisagem de grupo onde as antigas ocupações funerárias e de povoamento serão integradas, através da sua rememoração, como marcas identitárias e eventualmente delimitadoras dos espaços do grupo.
Os dados referentes a ocupações, digamos "integradoras", realizadas em antigos espaços habitacionais, com evidentes marcas na paisagem, nos últimos momentos do IIIº e grande parte do IIº milénio a.C., são escassos no Alentejo Central, tal como o são as intervenções em povoados do IIIº milénio a.C.; todavia, têm vindo a multiplicar-se sendo, desde já, conhecidos na área centro alentejana os casos do povoado do Mercador (Valera, 2005), da fortificação do Monte Novo dos Albardeiros (Gonçalves, 1988-89) ou do povoado do Moinho de Valadares (Valera, 2005) onde, sobre as ruínas calcolíticas, se detectou a presença de actividades de cariz funerário ao longo da primeira metade do IIº milénio a.C.. Por outro lado, ainda recentemente, foi dado a conhecer um caso absolutamente semelhante na vizinha Extremadura espanhola, no povoado calcolítico de Castillejo de Fuente Cantos (Cerrillo, 2005) e outros no povoado de San Marcos (Almendralejo) (Cerrillo, comunicação pesooal).
A utilização, funerária ou não, dos antigos espaços megalíticos do IIº milénio a.C. no Alentejo Central é, aparentemente, mais complexa de avaliar, atendendo ao volume de dados dispersos, e largamente por valorizar, resultantes em grande medida de trabalhos antigos (v. Mataloto, 2005), compilados principalmente no corpus do casal Leisner (Leisner e Leisner, 1951). A publicação ainda recente de outro extenso trabalho sobre o megalitismo alto alentejano (Oliveira, 1995; 1998), disponibiliza um conjunto de dados que nos permite aproximar às utilizações do IIº milénio a.C. sem as limitações já equacionadas sobre uma análise baseada nos resultados das intervenções do casal Leisner (Kalb, 1994).
Por outro lado, já H. Schubart se havia debruçado sobre a questão, e efectuado uma revisão dos dados disponíveis nos inícios da década de 70, apresentando, com base principalmente nos trabalhos do casal alemão, uma listagem dos monumentos alto alentejanos que haviam proporcionado materiais referentes a uma utilização durante a Idade do Bronze (Schubart, 1971, p. 186). Não é, então, de modo despiciendo que afirma "También se encuentran frecuentemente en tumbas megalíticas del Alto Alentejo vasos com carena en tipos que son muy semejantes a los cuencos Atalaia" (Schubart, 1971, p. 186).
Todavia, e como já afirmámos anteriormente (Mataloto, 2005, p. 122), as tumulações em cista, associáveis principalmente ao Bronze Médio do sudoeste peninsular, têm uma dispersão essencialmente na área Sul do território alto alentejano, caso da grande necrópole de cistas do Peral (Portel) (Schubart, 1975), rareando ou mesmo desaparecendo na progressão para Norte. Neste sentido, os enterramentos em antigos espaços sepulcrais deverão ter assumido um papel preponderante nas tumulações do Bronze Médio do território alto alentejano. Este facto poderá associar-se a um profundo enraizamento local destas comunidades da Idade do Bronze, podendo as necrópoles de cistas representar, no território alto alentejano, eventualmente, a movimentação para Norte de grupo oriundos de áreas mais meridionais, portadores de uma outra tradição funerária. O seu aparecimento principalmente em áreas marginais do território "megalítico" pode igualmente associar-se às fronteiras fluídas que certamente existiriam entre as duas regiões e tradições funerárias. Por outro lado, julgo relevante não deixar de assinalar a sua existência junto de áreas centrais do megalitismo alentejano, com a necrópole dos Cebolinhos de Reguengos de Monsaraz (Gonçalves e Calado, 1990/91), ou das cistas do Barrocal, na região de Évora (Arnaud, 1979), revelando-nos um entramado [3] algo complexo que só um estudo bastante mais apurado poderá discernir.
O desenvolvimento e integração, ao longo do IIº milénio a.C., de toda uma nova realidade funerária no território baixo alentejano, baseada na tumulação em cista, poderá relacionar-se com a efectiva ausência de uma longa tradição megalítica nestas regiões, ao invés do que acontece no território alto alentejano.
A utilização, senão sistemática, pelo menos frequente, de monumentos funerários megalíticos alentejanos durante o IIº milénio a.C. é também a imagem que transparece do conjunto das intervenções que se têm vindo a desenvolver no Nordeste alentejano (Oliveira, 1995; 1998; 1999/2000). Este facto permite, desde logo, uma revisão bastante mais sólida, mas igualmente prudente, dos dados avançados pelos investigadores alemães, na verificação da ocorrência de utilizações pós-megalíticas.
Um conjunto de trabalhos recentes, que incidiram sobre monumentos megalíticos alentejanos, parece acompanhar com clareza a tendência aqui assinalada, caso de OP2 em Reguengos de Monsaraz (Gonçalves, 1999), Anta do Chão da Pereira em Portel (Antunes, et al. 2003) ou mesmo o monumento do Caladinho no Redondo, em intervenção neste momento (Mataloto e Rocha, n.p.) (v. fig. 3).
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| Figura 3 – Conjunto artefactual da Idade do Bronze do monumento do Caladinho (Redondo) (seg. Mataloto e Rocha, n.p.). |
Uma breve aproximação aos resultados obtidos para o Nordeste alentejano deixa-nos um quadro diversificado, multilinear e complexo, das utilizações pós-megalíticas dos antigos espaços da morte perspectivando-se, desde logo, uma organização múltipla, eventualmente evolutiva e diacrónica da Paisagem que enquadra a acção Humana, fugindo às generalizações e aos topos.
Não são apenas os mais evidentes monumentos que conhecem a sua integração nas novas paisagens, também as mais discretas construções são absorvidas na nova construção mental do espaço; assim, não é apenas o visual que emerge, sendo igualmente realçadas as pequenas câmaras de memória, agora reevidênciadas pela imanência simbólica das deposições funerárias (Mataloto, 2005).
A utilização dos monumentos funerários megalíticos norte alentejanos durante a Idade do Bronze parece-me estar bem patente nos conjuntos artefactuais de monumentos como: Anta da Bola da Cera, Anta da Cabeçuda, Anta das Castelhanas, Figueira Branca, Anta dos Pombais, Anta I e II de Alcogulo, Anta II e IV dos Coureleiros, Anta do Galhardo, Anta de Olheiros, Anta do Pai Anes, Porto Aivado, Anta da Tapada de Matos, Tapadão da Relva, Anta do Vale da Estrada (Oliveira, 1995, vol. 3); igualmente na Anta II de São Gens foi registada a clara presença de uma ocupação aparentemente funerária num dado momento da Idade do Bronze (Oliveira, 1999-2000) (v. fig. 4).
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| Figura 4 – Anta II de São Gens e parte do espólio correspondente à ocupação da Idade do Bronze (Oliveira, 1999-2000). |
Um breve repasso pelas monografias do casal Leisner transmite-nos, para o Alentejo Central, uma imagem muito semelhante à disponibilizada pelos trabalhos de J. Oliveira para o Norte alentejano: uma frequência elevada de ocupações, aparentemente funerárias, da Idade do Bronze em contextos megalíticos, de que poderíamos mencionar os casos da anta 1 dos Gorginos e dos Cebolinhos ou o da anta das Vidigueiras (Leisner e Leisner, 1959; Leisner e Leisner, 1951). O caso da anta 2 dos Gorginos é igualmente de relevo, tendo em conta que nela se recolheu uma ponta aparentemente em cobre, de características bastante evoluídas, integrável nas designadas pontas tipo Pragança, enquadradas num momento avançado do IIº milénio a.C. (Kaiser, 2003) (fig.5).
As utilizações dos antigos espaços tumulares ao longo da Idade do Bronze parece resultar principalmente de deposições funerárias, acompanhadas por espólio votivo, onde pontuam recipientes cerâmicos afins dos recolhidos nas necrópoles do IIº milénio a.C. do sudoeste peninsular; neste particular, seria de realçar a existência de formas carenadas claramente devedoras das conhecidas taças tipo "Atalaia" e mesmo das do tipo "Odivelas".
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| Figura 5 – Anta 2 dos Gorginos e espólio associado (seg. Leisner e Leisner, 1959) |
A utilização dos espaços megalíticos ancestrais acabaria por corresponder a um fenómeno de construção de paisagens como o detectado nos monumentos funerários baixo alentejanos (Parreira, 1998), ao associar, por vezes, a pontos artificialmente sobrelevados, espaços de culto e memória dos antepassados. Assim, não existiria apenas um mimetismo dos recipientes votivos, mas também de toda uma ritualização da paisagem, conseguida através da associação das deposições funerárias ou votivas a realidades concretas de cariz tumular.
Começa a poder-se afirmar que teria sido principalmente dentro da primeira metade/meados do IIº milénio a.C. que estas comunidades da Idade do Bronze, com fortes ligações à realidade do "Bronze do Sudoeste", teriam ocupado de modo relativamente frequente, ou mesmo sistemático, antigos monumentos megalíticos do Alto Alentejo; no entanto, tal não é impeditivo de que, em casos aparentemente menos numerosos, tal continuasse a suceder em momentos mais tardios.
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| Figura 6 – Anta 1 dos Gorginos e parte do espólio, onde são claramente identificáveis cerâmicas da Idade do Bronze e eventualmente mais tardias. |
As escassas datas radiocarbónicas disponíveis parecem, efectivamente, apontar nesse sentido, caso da disponível para a Anta das Castelhanas (OXA-5432 3220+65 -1630-1320 cal BC a 2σ), efectuada sobre ossos humanos; uma outra datação, da segunda metade do IIº milénio a.C., obtida igualmente sobre ossos humanos, recolhidos na intervenção de Manuel Heleno na quarta anta do Zambujeiro (Montemor-o-Novo), e publicada recentemente (Rocha, 2005, p. 68), parece apontar no mesmo sentido (Beta 196093-3040±40 1380-1260/1400-1190 cal BC a 2σ)
Na realidade, os contextos funerários pós-megalíticos datados do IIº milénio a.C. são ainda bastante escassos; todavia, o aumento do número de datações sobre ossos humanos recolhidos em contextos funerários megalíticos traduzir-se-á, certamente, na ampliação do conjunto respeitante à Idade do Bronze, tal como os recentes trabalhos desenvolvidos em Reguengos de Monsaraz (STAM 3 e Cebolinhos) (Gonçalves, 2003 e 2003a) permitiram ampliar, e muito, as datações referentes a momentos avançados do IIIº milénio a.C., contemporâneos das realidades campaniformes.
Todavia, são igualmente conhecidas, ao longo da Idade do Bronze, utilizações de cariz distinto em antigos monumentos funerários e não funerários. Estas podem estar associadas a outro tipo de ritual, mais discreto artefactualmente, mas de igual relevância sócio-simbólica, eventualmente de cariz cerimonial e comunitário, bem documentado em diversas paragens europeias (Bradley, 1998), mas também, aparentemente, no monumento 7 de Alcalar (Móran e Parreira, 2004, 112 e 119).
No mesmo sentido poderá ser interpretada a ocupação do Bronze Médio detectada junto dos menires de São Sebastião (Évora) (Calado, 2004) (v. fig. 7). Um conjunto alargado de pequenos vasos e taças carenadas foi documentado na envolvente imediata dos dois menires, ainda que se desconheça o seu contexto exacto de deposição, pelas profundas afectações provocadas pela ocupação romana, igualmente detectada. Esta ocupação da Idade do Bronze parece, então, resultar de uma utilização ritual/cerimonial do monumento menírico, eventualmente ainda erecto, englobando-o numa mesma estratégia de integração e conceptualização dos antigos espaços megalíticos, independentemente do seu cariz.
O mesmo processo poderá ter decorrido no cromeleque da Portela de Mogos (Évora), onde foi igualmente detectada uma ocupação da Idade do Bronze (Gomes, 1997)
A constante utilização e incorporação simbólica de antigos monumentos megalíticos mas, igualmente, de antigos espaços habitacionais, em novas dinâmicas conceptuais e semânticas da Paisagem acabariam por gerar alguma familiaridade com este locais, conduzindo, possivelmente, à inclusão no conjunto artefactual de linguagens morfológicas e decorativas há muito perdidas, originando actos de profunda identificação com as comunidades precedentes. Ainda que reconheça o enorme teor especulativo desta observação, julgo conveniente assinalar a extraordinária semelhança entre algumas peças compósitas bastante distantes no tempo, como os copos carenados com decoração mamilar detectados em Juromenha 1 (Alandroal), datado do final do IVº milénio a.C. (Calado, Mataloto e Rocha, em preparação), no monumento do Caladinho (Redondo) (Mataloto e Rocha, n.p.) e na Necrópole da Idade do Bronze da Quitéria (Silva e Soares, 1981, p.165) (v. Fig. 8). Por outro lado, é clara e bem documentada a recuperação que se faz durante o início da Idade do Bronze de morfótipos claramente devedores das antigas formas carenadas do final do IVº milénio a.C., ao que se deve associar uma recuperação sensível da presença das formas fechadas e das adjunções (mamilos), quer decorativas, quer funcionais (Mataloto, 2005).
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| Figura 7 – Menires de São Sebastião e o espólio da Idade do Bronze associado (seg. Calado, 2004) |
Se as utilizações de antigos monumentos megalíticos, ao longo de grande parte do IIº milénio a.C., são relativamente frequentes, já as presenças integráveis num momento final do milénio parecem ser sobejamente distintas, ao surgirem bastante difusas e serem provavelmente mais discretas, acompanhando um processo semelhante registado em todo o Sul peninsular (García Sanjuan, 2005). Todavia, este facto não tem porque derivar obrigatoriamente de um abandono do valor simbólico e paisagístico dos monumentos, não sendo improvável a alteração dos rituais funerários, que se traduziriam numa crescente invisibilidade das deposições, num movimento aceite para a generalidade das realidades funerárias do Final da Idade do Bronze (Torres Ortiz, 1999).
Não deverá ser também alheio a este facto o processo de encastelamento que se terá desenvolvido nos finais deste milénio no espaço alentejano (Mataloto, 2004). São agora formados grandes aglomerados humanos instalados no topo das principais elevações, dotados de importantes estruturas fortificadas, o que conduzirá a um reordenamento total dos principais vectores paisagísticos, numa nova simbólica identitária e de poder, afastada das planícies e refugiada nas penedias das serras, numa atitude de frontal imposição das muralhas perimetrais.
Agora, os elementos estruturantes da semântica paisagística seriam os espaços habitacionais, evidenciando uma forte hierarquização dos contextos cénicos, denunciada pela proeminência das elevações fortemente acasteladas, numa composição de elevado valor identitário-coercivo, perante complexos dispositivos arquitectónicos como os detectados no Castro dos Ratinhos (Silva e Berrocal, 2005), onde, creio, a preocupação de base suplantaria largamente as preocupações de cariz meramente defensivo.
Todavia, e ainda que não possamos asseverar em todos os casos a sua utilização funerária, não deixam de ser conhecidas no Sul do território actualmente português utilizações de antigos monumentos megalíticos durante o final da Idade do Bronze. O monumento do Barranco da Nora Velha, em Ourique (Viana, 1959), entregou inequívocos elementos caracterizadores de uma presença, eventualmente funerária, do final da Idade do Bronze. Idêntica situação parece ter-se verificado no monumento do Cerro do Malhanito, em Alcoutim (Cardoso, 2004), onde, ao invés do sucedido no monumento anterior, aqui se verificou o total esvaziamento do interior da câmara. Neste mesmo trabalho reequaciona-se, na sequência de observações anteriores, aquele que é, sem dúvida, um dos monumentos mais carismáticos do final da Idade do Bronze na fachada atlântica peninsular, a Roça do Casal do Meio. Atendendo aos resultados do Cerro do Malhanito levantou-se a possibilidade de ocorrer uma situação semelhante a este, isto é, um monumento originariamente pré-histórico, que teria sofrido um processo de eliminação completa das deposições anteriores, para receber as novas tumulações (Cardoso, 2004, p. 204). Esta perspectiva não é, todavia, pacífica (Vilaça e Cunha, 2005), sendo de destacar, no quadro do presente trabalho que, independentemente de ser ou não um reaproveitamento de uma estrutura anterior, é clara a emulação de todo um contexto megalítico para a deposição funerária nos finais do IIº milénio a.C..
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| Figura 8 – Recipientes recolhidos na necrópole da Quitéria (Silva e Soares, 1981), em Juromenha (Calado, Mataloto e Rocha, em preparação) e no Monumento do Caladinho (Mataloto e Rocha, n.p.). |
No espaço alto alentejano as notícias sobre as utilizações do final da Idade do Bronze em contextos megalíticos estão particularmente pouco documentadas, muitas vezes por que difíceis de discernir de outras ocupações da Idade do Bronze; de intervenções recentes são conhecidas pequenas notícias sobre a sua presença em diversos monumentos de Vale Rodrigo (Évora) (Kalb, 1994).
Entrado o milénio seguinte, a realidade não se altera sobejamente, processando-se a gradual desaparição das presenças em monumentos megalíticos, evocando novas realidades identitárias decorrentes de novas paisagens. No entanto, o total desconhecimento sobre os rituais funerários atribuíveis a grande parte da primeira metade do Iº milénio a.C. impõe fortes reservas a qualquer considerando sobre a sua escassez em contextos megalíticos. Vários indicadores impõem esta cautela, nomeadamente a escassez de informação disponível, já que nas grandes sínteses, como as produzidas pelo casal Leisner, os dados reconhecidamente respeitantes a momentos mais recentes foram omitidos, mesmo que se tenham registado. Por outro lado, a ausência de espólio funerário no enterramento pode inviabilizar a sua identificação, como se verificou para outras épocas (caso das já referidas deposições funerárias dos finais do IIIº milénio a.C. da Anta 3 de Santa Margarida) (Gonçalves, 2003) e para outras áreas geográficas, caso do dólmen de la Pantoja III, na área de Sevilha, com incinerações funerárias, sem espólio votivo, datadas dos inícios do Iº milénio a.C. (García Sanjuan, 2005).
No espaço centro alentejano foi já reconhecida a frequência de espaços megalíticos em momentos antigos da Idade do Ferro regional na Anta 2 do Olival da Pega (Reguengos de Monsaraz) (Gonçalves, 2003) e na anta da Rabuje 5 (Monforte) (Boaventura, comunicação pessoal). Para momentos aparentemente mais recentes, é conhecido o caso da anta do Peral 3, em Monforte, onde Abel Viana registou a presença de urnas cinerárias depositadas no tumulus (Viana e Deus, 1957); este mesmo investigador deu a conhecer o célebre caso da anta do Cerro das Antas (Ourique), já no Baixo Alentejo, onde foram registadas urnas cinerárias depositadas no interior da câmara da anta (Viana, Ferreira e Andrade, 1957).
Ainda no espaço centro alentejano será de mencionar a provável reutilização de uma placa de xisto da Anta Grande do Zambujeiro como suporte epigráfico durante a Idade do Ferro (Gonçalves, Pereira e Andrade, 2003), revelando a utilização deste espaço, a que poderiam associar-se alguns raros fragmentos cerâmicos daí provenientes, depositados no Museu de Évora.
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| Figura 9 – Necrópole tumular da Tera, com os menires tombados em primeiro plano, à direita.
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Por fim, será de mencionar o caso da necrópole da Tera, de grande particularidade, pelo significado transcendente dentro da linha de problemática desenvolvida neste trabalho.
O monumento da Tera (Pavia, Mora) corresponde a um recinto megalítico composto por diversos menires, que teriam estado dispostos aparentemente em torno de um grande tumulus ou empedrado, sob o qual se efectuaram as deposições funerárias em urna e, aparentemente, em fossa. Pela informação que se encontra desde já disponível, este monumento deverá ter estado em uso entre os séc. VI e V a.C. (Rocha, Duarte e Pinheiro, 2005) (v. Fig. 9).
Ainda que seja um monumento aparentemente erguido em meados do Iº milénio a.C., parece afastar-se de todas as poucas necrópoles conhecidas até ao momento no sudoeste peninsular, enveredando pela edificação de uma estrutura de claro fundo megalítico. O gesto de emulação de ancestrais construções, associadas agora a um recinto funerário, assinalaria o conhecimento dos antigos monumentos, erguidos a escassos quilómetros de distância, caso dos cromeleques de Vale d'El Rei ou Figueiras (Calado, 2004). Por outro lado, a sua implantação adjacente a diversas antas e a uma mamoa, ainda hoje particularmente bem preservada, situadas num raio aproximado de 100m, permite subentender uma clara vontade de associação a um contexto de forte cariz identitário, que poderia ser facilmente lido como um acto legitimador da posse e exploração da terra, como elemento de coesão do grupo, num momento de grande pressão demográfica. Por outro lado, a simples emulação e associação a uma paisagem onde a espessura do tempo se encontra bem vincada poderia ser desenvolvida como elemento de coesão interna do grupo, independentemente de questões relacionadas com a exploração do território.
Este caso acaba por constituir-se como a súmula do processo pós-megalítico, verificando a necessidade não só de reutilizar os monumentos precedentes (o que parece também ter efectivamente aqui acontecido nas suas imediações), mas igualmente de construir um monumento que evidenciasse as mesmas raízes ancestrais, adjacente a antigos espaços sepulcrais, compondo um conjunto cénico e identitário de raro cariz transgeracional, onde o sentido funerário parece ter sido recuperado como elemento de coesão grupal, ao depositarem-se as urnas cinerárias sob um mesmo tumulus, tal como acontecia em época pré-histórica.
Também não é com a implementação de toda uma nova realidade política, social e, até certo ponto, Humana, efectuada sob a égide do poder de Roma, que se deixará de frequentar estes espaços megalíticos, continuando-se, inclusivamente, a utilizá-los como espaços funerários, ainda que de modo relativamente pontual, como parece ter acontecido na Anta 10 do Barrocal (Leisner e Leisner, 1951) ou nas Antas do Carvão, 4 do Genemigo ou 2 da Sobreira, na região de Elvas (Viana e Deus, 1955), ou o caso documentado mais recentemente na anta do Chão da Pereira em Portel (Antunes, et. al., 2003).
3.
Lugares de Memória e Identidade
As construções megalíticas permaneceram na paisagem alentejana através de sucessivas acções de rememoração, sendo pouco provável que tivessem, alguma vez, sido totalmente esquecidas e ignoradas pelas sociedades posteriores, todas elas com forte pendor camponês, que utilizaram, viveram e conceptualizaram a realidade geográfica alentejana, transformando-a numa Paisagem fortemente identitária.
Não tenhamos, contudo, uma noção meramente atávica do modo como foram sendo integradas as realidades megalíticas nos discursos sociais e na construção da memória, sendo com alguma certeza, apesar dos escassos dados disponíveis, elementos dinâmicos nas novas construções sociais e identitárias, integrando e absorvendo novas cosmogonias, consoante a realidade sociológica emergente. Todavia, desde cedo parecem ser marcos da espessura do tempo, assinalando os ancestros, verdadeiros axis mundi que acompanhavam transversalmente a temporalidade da paisagem (Ingold, 1993), ajudando a construir novas geodesias individuais e de grupo. Raras vezes devem ter sido elementos inócuos, perdidos nas paisagens, assumindo-se múltiplas vezes como palcos cerimoniais de ritos e cultos diversos, bem distantes, por vezes, das realidades inaugurais, como nos deixam entender as várias antas-capela dispersas pelo país (Oliveira, Sarantopolous e Balesteros, 1997).
O modo como as antas permaneceram, ou foram sendo integradas, nos imaginários populares é múltiplo e diverso (Oliveira, 2001), desde a divisão de propriedades à toponímia (são muitos os montes da Anta ou os Valdanta), estando disponíveis documentos que as referem desde o séc. XIII (Oliveira, 2001, p. 41), multiplicando-se os casos pelos séculos seguintes.
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| Figura 10 – Anta da Valdanta |
Neste início de um novo milénio, é com uma enorme arrogância que perspectivamos a redescoberta do megalitismo como elemento da paisagem alentejana, ao ponto de lhe associarmos, num acto de pura hipocrisia, o nome de um vinho (Anta da Serra, A.C. Redondo), especialmente quando a expansão desta cultura se torna uma das principais ameaças à sua permanência nos horizontes alentejanos.
Redondo, Alentejo Central, Março de 2006
Pontualmente revisto em Janeiro de 2007
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*Investigador do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (UNIARQ). Câmara Municipal de Redondo. rmataloto@gmail.pt