gema
grupo de estudos do megalitismo alentejano

 
 

RESUMO

Este estudo tem como base os dados inéditos contidos nos Cadernos de Campo de Manuel Heleno (antigo Director do Museu Etnológico Português e Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), referentes a mais de dez anos de escavações em quase três centenas de monumentos megalíticos, na parte Norte do Alentejo Central.
As características específicas desta informação, inerentes ao contexto científico da época, exigiram uma aturada revisão no terreno que, a par de uma avaliação das perdas patrimoniais ocorridas nas últimas décadas, permitiu valorizar o contributo inestimável que representam os registos de Manuel Heleno, no que diz respeito aos monumentos entretanto desaparecidos.
Dos resultados deste trabalho, destaca-se, primeiro que tudo, a confirmação da extraordinária densidade de sepulturas simples, fechadas ou abertas, feitas em granito, que, com os dados actualmente disponíveis, não existem ou estão sub-representadas nas restantes áreas megalíticas alentejanas.
Foi possível, igualmente, verificar a existência de um leque particularmente variado de formas arquitectónicas, supostamente evoluídas, em contraste com a padronização arquitectónica que, em maior ou menor grau, tem sido observada em conjuntos análogos e geograficamente relacionáveis; a especificidade desta área, traduz-se, igualmente, na presença, embora vestigial, de pintura, em alguns monumentos e das presenças e ausências de determinados tipos de artefactos.

Em termos interpretativos, e tendo como ponto de partida as próprias sugestões de Manuel Heleno, confrontadas com os resultados de estudos mais recentes, procura-se, neste trabalho, contribuir para a construção de um modelo que integre e ultrapasse os problemas resultantes das discordâncias aparentes entre as arquitecturas e os espólios.
A proposta defendida assenta, em primeiro lugar, no conceito de polimorfismo evolutivo, segundo o qual, em diferentes ritmos, à medida que novas formas arquitectónicas (e rituais) são adoptadas, as anteriores continuam, durante algum tempo, a ser construídas e contêm, por isso, espólios análogos; não se exclui, ao mesmo tempo, a possibilidade de certas formas arquitectónicas arcaicas, terem ressurgido, em épocas tardias, assinalando a decadência e o abandono das soluções mais monumentais e anunciando o regresso ao enterramento em sepultura individual.
Em paralelo, o aparecimento de materiais tardios em monumentos antigos, nomeadamente no Calcolítico final e na Idade do Bronze, explica-se pela reutilização de monumentos em desuso ou mesmo devolutos. Finalmente, para explicar a presença de materiais antigos (nomeadamente os micrólitos) em monumentos evoluídos, é avançada a hipótese de se tratar de uma prática, corrente mas não sistemática, de trasladação dos restos mortais e dos espólios, de monumentos mais antigos para novas construções funerárias.


Palavras-chave:
Megalitismo funerário; Manuel Heleno; Alentejo Central



ABSTRACT

This study is based on the data described in the field books of Manuel Heleno, the former Director of the Museu Etnológico Português and Teacher of the Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. In these books he reports the results of more than a decade of excavations in around three hundred megalithic monuments located in the northern part of Central Alentejo.

The interpretation of Manuel Heleno, in line with the scientific context of his time justified a major revision of the field data. Secondly, the considerable heritage losses occurred in the last decades make the reports of Manuel Heleno the only reliable source of information on the many monuments that meanwhile disappeared.

The results of this work illustrate the extraordinary density of non-monumental architectonic forms. The gallery graves, either closed or open were made out of granite, which, according to the available data, are under represented or don’t exist at all in other megalithic areas in Alentejo.

Moreover, it has been possible to verify the existence of a very wide fan of more recent type of passage tombs. This is in contrast with the architectural patterning observed in analogous groups that are geographically related. This group of monuments is characterised by the presence of vestigial painted motifs and the presence or absence of certain types of artefacts.

Based on the suggestions of Manuel Heleno and the results of more recent studies, this work aims to contribute to a model that solves the problems originating from discordances between architectural and material data.

The concept of “evolutionairy polymorphism” is central in the model and is based on the observation that, as new architectonic (and ritual) forms are adopted, the older ones remain co-exisiting for some time. This implies that sites having different forms may be contemporaneous and therefore contains similar deposits. At the same time archaic architectonic forms may come back at later times, indicating the abandoning of the most monumental solutions, and announcing the return to the practice of burials in individual graves.

In parallel, the finding of materials from Chalcolithic and Bronze Age in the older monuments is explained by the re-use of these monuments at a later stage. Finally, the presence of old materials in younger monuments is interpreted as the result of frequent, but not systematic, practice of translocation of funerary deposits/ bone remains and other funerary deposits from the older monuments to the new buildings.


Key-words:
Megalithic burials; Manuel Heleno; Central Alentejo


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