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Trabalho original de SEMIÓTICA de Henrique Leonor Pina, Aluno nº 161 do Mestrado em Comunicação Educacional Multimédia da Universidade Aberta. Lisboa, Janeiro de 1994. Revisto em 2003.

 

Investigar, o que é?

1. PREÂMBULO

O trabalho arqueológico é, essencialmente, o da busca de significações que os sítios, os espólios ou os seus vestígios, directa ou indirectamente revelem. Busca indícios, sinais, signos ou sistemas que procura entender na sua singularidade ou multiplicidade, estabelecendo analogias ou oposições, investigando relações de significação. Quando esse trabalho se efectua em contextos de sociedades letradas, a significação dos achados arqueológicos, quer no plano do significante, quer no plano do significado, pode remeter para a escrita, cujo entendimento, por sua vez, pode aludir à oralidade dessas sociedades. Neste caso, mesmo que tais sociedades se tenham transformado profundamente ou desaparecido, os dados arqueológicos terão sempre uma tradução linguística directa ou indirectamente conotada com referentes escritos e, eventualmente, falados. Mas quando se trate de sociedades iletradas e desaparecidas, a pesquisa arqueológica dos referentes da comunicação linguística extinta terá de socorrer-se de meios e métodos diferentes se quiser tentar a aproximação ou o entendimento da realidade evanescente que a oralidade é sempre.
Não são novas nem sempre recentes as pesquisas nesse sentido que se têm feito um pouco por todo o mundo, realizadas ou estimuladas principalmente por antropólogos, sociólogos, etnólogos e linguistas e a que a Arqueologia mais tradicionalista tem tido dificuldade de aderir. Embora a Semiótica tenha comprovado ser um instrumento pragmático e disponível, a utilização dos seus métodos ainda está longe de ser frequente. Mais frequentes e cada vez mais elaboradas têm sido as metodologias de análise estatística e tipológica [1], actualmente com recurso a meios informáticos muito poderosos. Esta metodologia que hoje, com possibilidade de tratar muito maior número de parâmetros, permite o que se designa por "análise pericial", permite uma classificação rápida e clara de peças arqueológicas. Embora de modo rudimentar, eu próprio apliquei os princípios básicos desta metodologia a um corpus de cerca de 200 peças do Paleolítico, colhidas em Leixões - Matosinhos - em Agosto de 1961 [2] e, nesse mesmo ano, a outros conjunto de peças do Eneolítíco, que publiquei em co-autoria com A. M. Galopim de Carvalho em 1962 [3]. Verifico agora que parte deste último trabalho pode ser objecto de um pequeno ensaio de Semiótica, disciplina que tento pela primeira vez.
Comunidades como as que há cerca de 5000 anos existiram no Oeste europeu e, mais circunscritamente, no Sudoeste da Península Ibérica, estão nas circunstâncias acima referidas: eram iletradas e desapareceram. E, no entanto, deixaram nesta área um intrincado complexo cultural que foi designado por cultura megalítica, nomenclatura que, como se sabe, deriva de elementos e de estruturas ciclópicas, universalmente conhecidas pelas palavras bretãs dólmen, menhir ou cromlech. Daí também o nome equivalente de cultura dolménica para este contexto.
À semelhança do que aconteceu a outros contextos culturais que a Arqueologia tem investigado, a maior parte do espólio conservado ou recuperado neste âmbito refere-se a contextos sepulcrais. No caso português, estes contextos são, na sua maior parte de antas, mas também os há de grutas naturais ou artificiais. Mais recentemente, desde 1964, têm-se assinalado em Portugal [4] menhirs e cromlechs que, não sendo sepulcrais, têm importantíssimo carácter ritual.

 

2. PRE-TEXTO

Os espaços e os objectos sepulcrais são referentes privilegiados da memória. O critério que lhes assegura o privilégio é o de neles e com eles, estando-se vivo e presente, poder exorcizar-se a morte e a ausência permanentes. Mas é preciso, de qualquer modo, dizer aqui jaz, que descanse em paz, porque a palavra que anima o vivo reanimará o morto. O rito deve manter-se para todo o sempre. É preciso assinalá-lo.
A lápide da sepultura romana, mesmo modesta, pode ter pouco mais que o nome pelo ausente mas não deixa, contudo, de finalizar com o anúncio breve, facilmente identificável, H.S.E. ( Hic Situs Est = Neste Sítio Está (ou Aqui jaz) e / ou o voto S.T.T.L. (Sit Tibi Terra Levis = Seja para Ti a Terra Leve (ou Que a Terra Te Seja Leve). É a afirmação da presença no lugar da ausência tal como no nosso jazigo e, de modo geral, no cemitério (do grego koimêtêrion = dormitório), local de ausência evanescente.
Pedro, mandando construir, em vida , o seu túmulo e afrontá-lo com o de Inês em Alcobaça, "até aa fim do mundo", não só materializa a presença de ambos como recusa futuras ausências. Mais do que os corpos ou o que deles reste, as estátuas jacentes garantirão a permanência dos amantes, frente a frente, até ao Juízo Final. Ali estarão ambos, física e iconicamente, atendendo-se mutuamente, esperando a-presentar-se ante a face divina e permanecer juntos na Glória. Os arcazes historiados guardá-los-ão e, durante o sono milenar, falarão por eles aos presentes e aos vindouros até ao acordar perante Deus. É essa a sua função de pedras lavradas. O ícone terá significado, mesmo que não se decifre a escrita que, eventualmente, o acompanhe. Ainda que o tempo apague os testemunhos corporais, ou não permita entender as parcas palavras das legendas, outros sinais, cujo lavor Pedro vigiou atentamente, cujo rigor garante , testemunharão por eles. São esses os poderes dos sinais diversos, das estátuas, dos relevos, dos gravados que os sepulcros retêm e revelam. Atestam definitivamente não só a presença mas também a mensagem, re-presentam não só os corpos mas também as palavras, que de outro modo se evolariam. Fixam imagens, cenas, nomes, votos. Negam a ausência total, esconjuram a redução ao nada. Para ancorar essa presença eterna, Pedro escolhe os poderosos mas maternais braços do transepto da igreja, ladeando cm Inês o altar-mor onde quotidianamente ocorre o milagre da transubstanciação. E, quando a trombeta do anjo soar o desejado sinal, ambos acordarão do longo sono.
Estes locais e objectos preenchem ou completam a função mnésica opondo-se ao esquecimento, a temida forma de ausência definitiva, a verdadeira morte. Em tais locais e com tais objectos a vida permanece na forma virtual enquanto se mantiverem os ritos propiciatórios. Assim se transformam: - o local, em campo santo (sacro, sagrado) por oposição ao profano; - os objectos rituais, em portadores de benefícios que, quando trespassada a norma ou consumada a profanação (sacrilégio), reclamam sanções, sacrifícios e novos actos formais de consagração. Quando não assegurados, provocarão malefícios; se abandonados, conduzirão à anulação do referente.

 

3. CONTEXTO

As placas de xisto gravadas talvez sejam as peças mais atraentes e enigmáticas do mobiliário arqueológico megalítico. O corpus que aqui vou abordar proveio dos trabalhos de pesquisa realizados numa anta situada a pouco mais de 10 Km. de Évora.

Este modesto mas importante monumento faz parte de uma riquíssima região da cultura megalítica alentejana onde se localizam outros diferentíssimos, nomeadamente os menhirs e os cromlechs atrás referidos. As placas são, pois, apenas alguns dos elementos significantes deste monumento que, por sua vez, se relaciona topológica e culturalmente com muitos outros num complicado sistema de significações ainda muito mal conhecido.
O corpus é constituído por elementos cuja feitura e utilização pode ter-se alongado por séculos. De facto, a anta foi utilizada em múltiplas cerimónias funerárias, tendo sido deslocados, de cada vez, os espólios precedentes. As plantas (P1,P2,P3 e P4) e quadros (Q1,Q2,Q3) em anexo facultam indícios topológicos, provavelmente significantes, como, aliás, o próprio monumento.
A anta (P1), por derivação da forma latina antae, significando "pilares laterais de uma porta", é, em si mesma, uma construção específica como a sua nomenclatura reflecte: distinguem-se, desde logo, as categorias interno/externo e, eventualmente, privado/público.

Esta construção tem, um pequeno espaço central bem assinalado como local de fogo ritual, mas ocupa, ela própria, o interior de um outro espaço (a mamoa ou tumulus, P2) delimitado por um murete consolidado.
O objecto global constituído pelo tumulus, agora parcialmente desfeito, demarcava rigorosamente o espaço não só sacralizado mas também feminino, avultando como um ventre e contendo o sepulcro como um útero, ele também um continente, comunicando codificadamente, com o exterior. Com efeito, o monumento alonga-se por um corredor para Leste, dirigindo a estreita entrada não a todo o amplo espaço circundante, mas oferecendo-a, selectiva e quotidianamente, à luz vivificante do Sol Nascente. Este arquétipo que se repete invariavelmente em todas as construções megalíticas e, de um modo geral, sacras, remete assim para o Sol, o Criador, o Divino.
No caso concreto deste monumento (P3), aponta também para indícios revelam dados cronológicos que se referem à época anual da edificação . Assim, a erecção da primeira pedra (o esteio a) e a orientação sua linha com o que viria a ser o corredor (que constitui o eixo de toda a construção) apontam para E15ºS. Isto permite situar o início da construção na metade do ano entre o equinócio (orientação E) do Outono e o da Primavera. À nossa latitude, nessa época, as auroras deslocam-se cada vez mais para Sul atingindo o máximo (cerca de E28ºS) próximo do solestício (Natal). É o que sugere a torção nesse sentido do eixo do corredor, logo a seguir á câmara. Pelo contrário, a inflexão num sentido ligeiramente inverso, aponta para que a sua conclusão teria ocorrido durante o Inverno, quando o nascer do Sol volta a deslocar-se para Leste, o ponto equinocial da Primavera.

O monumento detém toda uma série de referentes (significantes e significados topológicos e culturais) susceptíveis de introduzir, por sua vez, significações em todos os materiais que lhe estão associados, embora este trabalho não se destine a tratá-los exaustivamente. Há, porém, que ter em conta que "os objectos topológicos realizados (como é o caso deste monumento) são frequentemente complexos e ambíguos", o que deriva da "solidez durável do seu significante, do facto de que a sua "mensagem"... é o produto de uma comunicação mediatizante, por oposição à palavra imediata" [5].
É, pois, neste contexto próximo, complexo e ambíguo, que informa todos os materiais arqueológicos, que se situam os objectos sobre os quais principalmente nos debruçamos, as placas de xisto gravadas.

 

4. AS PLACAS DE XISTO GRAVADAS

A descrição individual ou o tratamento relacional destas peças consta dos quadros Q1, Q2, Q3 e das gravuras (no CORPUS, em anexo) a que me referirei na oportunidade. Por razões metodológicas aludirei primeiramente à sua posição no monumento, depois aos aspectos formais dos objectos (como suportes de decoração) e, finalmente, aos aspectos decorativos em si mesmos.

4.1 POSIÇÃO
A planta P4 permite uma visão sincrética do posicionamento das placas. As convenções aí incluídas constituem, naturalmente, o código visual parcialmente correspondente ao quadro Q1 no qual introduzi um novo código alfanumérico: Co1= 1ª parte do corredor (do lado da entrada); Co2= 2ª parte do corredor; Câ1= 1ª parte da câmara; Câ2= 2ª parte da câmara. Podemos, pela planta e pelo quadro, verificar que, embora a profundidades diferentes, das 34 placas com localização segura, 30 (88%) se agrupam no corredor e na metade leste da câmara.

Alguns depósitos indiciam mesmo cuidados especiais que têm que ver quer com o agrupamento, quer com a posição na horizontal que considero indicador de último depósito ao mesmo nível estratigráfico, num espaço topográfico diminuto [6][ Deve ter-se em conta que o solo (parte inferior do monumento) sofreria frequentes alterações do seu plano superior, quer por "arranjos " ocasionais devidos à utilização sepulcral, quer devidas à acumulação de terras derivadas de escorrimentos hídricos (chuvadas, por exemplo) ou de quedas meramente gravitacionais do materiais finos que eram parte da composição da mamoa . Por isso, as inclinações das placas são aleatórias entre 0º e 55º mas a posição horizontal (0º) parece corresponder a um último "arranjo", antes da superfície ser, de coberta por depósitos que "selariam" essa posição. A horizontalidade é, pois, a meu ver (e nestas circunstâncias) um significante cronológico relativo]. Foram deixadas na posição horizontal as placas nº 5, ao nível mais profundo (cerca de 95 cm.), nº 12, um pouco mais acima (c. 85 cm), nº 18 e 19 a cerca de 75 cm e, no penúltimo nível arqueológico (c. 65 cm) , as placas n 25 e 26 (juntas) e 29 e 30 (também juntas). O facto de estes pares de placas terem sido depostas cuidadosamente cruzadas e com as superfícies gravadas voltadas uma para a outra parece ser um novo significante.

Os maiores agrupamentos do lado Leste da câmara e, sobretudo, na 1ª parte do corredor, podem ter carácter significante, sem que o significado seja perfeitamente explícito. Contudo, o esvaziamento quase completo da parte ocidental da câmara e a as acumulações de peças junto aos esteios e à entrada do corredor, poderiam relacionar-se simplesmente com a necessidade de arranjar espaço para o depósito dos despojos mortuários e o desejo de salvaguardar as peças de mobiliário fúnebre anteriormente deixadas. Com efeito, a associação ao arquétipo morte-ocidente e à sua oposição vida-nascente, poderia viabilizar esta interpretação.

4.2 ASPECTOS FORMAIS
Do conjunto de 31 placas completas ou inteiramente reconstituíveis que constam do quadro Q2 e do CORPUS, é não apenas possível mas obrigatório anotar significações no que respeita a características e parâmetros verificáveis, embora não especificamente decorativas.
O material de que são feitas as nossas placas (e, de um modo geral, a quase totalidade das placas até agora referenciadas) é o xisto duro, negro ou de tons de cinzento, que se designa por ardósia. Só num caso o material é um xisto diferente, mais brando, de tom claro, esverdeado, donde resulta a denominação de xisto clorítico. Deve assinalar-se que a ardósia é estranha à constituição geológica da região em causa, embora ocorra a cerca de 60/70 Km. para Oeste, junto ao Guadiana [7] e que o xisto clorítico é uma forma alterada da ardósia e ocorre com frequência nas mesmas jazidas. No entanto, este último material só se revela, nesta anta, em duas peças, a placa nº 14 e o berloque a que atribuímos o nº 38 e que julgamos contemporâneo da placa por corresponder ao mesmo nível estratigráfico. Ora este berloque tem a forma geral e o tratamento formal das placas, embora sem decoração. É, claramente, uma miniatura não decorada das placas mais frequentes e, atendendo ao tipo de decoração sobre este tipo de material, nitidamente diferente da generalidade, poderemos tomar o material como significante provável e alguns aspectos decorativos como significado de um outro significado. As placas têm uma forma geométrica trapezoidal que, independentemente da decoração ou do tamanho, lhes confere um certo "ar de família". A forma genérica é, nesta óptica, um invariante, não obstante a sua oscilação entre o "tendendo para o triângulo" (nº 2) e o "quase rectângulo" (nº22) ou o "ovóide" (nº 19) [8]. A forma das placas opõe-se radicalmente a uma outra que se referencia no anexo com o nº 40 e que designamos com o nome de báculo. Esta peça singular, além de ser igualmente de ardósia, ostenta decoração idêntica à de algumas placas e por esse aspecto se lhes assemelha. As áreas geométricas que definem o tamanho global das placas são muito variáveis. A menor delas (nº 5 = 77cm2) é apenas 1/3 da maior (nº 4 = 238cm2). Contudo há grandes probabilidades de serem coetâneas, se tomarmos como bom o indicador topológico. Com efeito, a placa nº 5 foi encontrada na posição horizontal sobre a placa nº 4, ambas a cerca de 90 cm de profundidade. Parece, assim, que, diferentemente da forma genérica, a área não teria carácter de significante.

Já os orifícios [9] têm, entre outros, o significado de orientadores. Reforçam a oposição superior/inferior assinalada igualmente pela distinção geométrica base maior/base menor que propõe uma dada leitura do objecto, além da que é proposta pelos sinais gráficos que adiante referirei.


4.3 ASPECTOS DECORATIVOS

Os aspecto decorativos das placas que constituem o nosso CORPUS, constam do quadro Q3 e das gravuras. As decorações, no nosso caso, existem apenas numa das faces das placas e é este o caso largamente mais frequente. Contudo há vários casos de decoração bifacial que, por serem de grande importância semiótica, referirei adiante. Numa primeira abordagem, chamarei parte superior da placa a que é contígua à base menor e que contém o(s) orifício(s) quando existe(m). Esta parte tem normalmente uma zona central, quase sempre não decorada (se não considerarmos o orifício como decoração), tendo tal zona a forma geral de triângulo invertido ou de figura dele derivada. A esta zona chamaremos, por razões culturais, a cabeça da placa. A parte superior inclui, portanto, a cabeça e as decorações limítrofes laterais. No seu conjunto é decorativamente diferente da parte restante e ocupa, habitualmente, cerca de 1/3 da altura da placa, se considerarmos como seu limite o vértice da cabeça ou qualquer outro elemento de decoração divisória colocado na posição horizontal. Ao resto da placa, abaixo da divisória chamaremos, naturalmente, parte inferior.

4.3.1 A DIVISÓRIA
A divisória entre as partes está claramente presente em 91% dos casos porque se trata de um significante muito importante na leitura das placas. Acima e abaixo da divisória as decorações são diferentes quer em temos de padrões, quer nas suas formas de associação. Os próprios padrões das divisórias podem mesmo variar: mais frequentemente assimilam padrões da parte superior, mais raramente, padrões da parte inferior, outras vezes padrões diferentes.

Algumas vezes são uma simples linha divisória, outras, faixas não decoradas e outras ainda faixas redobradas mais ou menos complexas. É uma forma decorativa mais ou menos redundante mas claramente afirmativa da oposição superior/inferior. No caso da placa nº 1, em que a divisória é duvidosa ou não existe, a cabeça e o orifício orientam ainda a leitura, tal como sucede na placa nº 14 em que a divisória está ausente mas a cabeça não. No entanto, no caso da placa nº 19, em que a divisória e (talvez) a cabeça estão ausentes, a decoração é uniforme e a própria forma da placa é ovóide e, por isso, ambígua (não se pode dizer que haja base maior ou menor). O único elemento seguro de orientação, é o orifício. Vemos, deste modo, que vários indicadores apontam a oposição superior/inferior e que a sua distinção parece de grande importância significante.

4.3.2 A PARTE SUPERIOR

A cabeça é, seguramente, um dos espaços com maior valor simbólico. Por isso parece muito interessante que seja um espaço normalmente não decorado com grafitos e, por outro lado, sempre ladeado deles. No nosso corpus, só uma placa infirma esta regra, a nº29, sendo decorada na cabeça com um triângulo em posição central ladeado de dois orifícios. Embora não seja único no universo das placas conhecidas, casos como este são sempre excepcionais ou muito minoritários nos conjuntos em que se integram. Este tipo de decorações assume, pois, carácter denotativo no sistema semântico que as placas constituem.
Os lados da cabeça são decorados com motivos sempre simétricos ainda que diversos. A meu ver, tal simetria confere a toda a parte superior um carácter de unidade no conjunto, que pode explicar que a zona central não seja, normalmente, decorada. Por efeito gestáltico a cabeça destacar-se-ia como forma no fundo decorado. Parece, pois, duplamente significante, esta zona da placa.

4.3.3 A PARTE INFERIOR
A decoração da parte inferior tem, regra geral, um carácter mais uniforme e monótono em cada placa. Contudo, o conjunto das decorações do corpus é muito diversificado, embora haja casos de repetição muito aproximada dos motivos e padrões. Por estas razões, a decoração da placa nº 22 avulta como excepção.

Com efeito esta placa apresenta na parte inferior uma faixa lisa de subdivisão que, por sua vez, apresenta dois pequenos sinais que não mais voltam a encontrar-se. Por outro lado, os motivos de decoração (triângulos invertidos) são também anómalos relativamente ao padrão triângulos que se apresentam, na generalidade, direitos.

Noutro caso, o da placa nº 15, aparecem igualmente triângulos invertidos mas por oposição triângulos direitos subjacentes o que sugere, aqui também, uma subdivisão da placa, neste caso por uma linha. Um último caso de subdivisão clara é o da placa nº 12, com uma faixa que repete, com menor altura, os motivos do triângulo direito da parte de cima e da parte de baixo. Ao contrário do que sucede com a divisória entre a parte superior e a parte inferior, esta apenas distingue dois campos que parecem não ser antitéticos.
Alguns conceitos operativos estritos que parecem de carácter normativo condicionam o trabalho de decoração, em geral, mas nesta parte inferior da placa em particular. São eles a repetição, a simetria e a orientação.
A repetição e a simetria são invariantes.
A orientação da disposição dos motivos, embora com variantes, excepções e combinações indicia significação notória. Essa orientação é definida pela oposição vertical/horizontal. Com duas excepções radicais, a disposição dos motivos, independentemente da natureza dos padrões, é horizontal (78,4%). No caso específico da placa nº 3 com o padrão xadrez (único = 2,7%, no corpus e raro no universo conhecido = menos de 10%) é evidente que não podemos decidir entre horizontal e vertical porque as linhas de apoio da composição são ortogonais. Em 5 outros casos (13,5%) há ocorrência de linhas verticais de apoio para linhas quebradas mas estas desenvolvem-se em continuidade horizontal.
Nas placas que assentam a sua decoração em linhas de apoio de traçado linear e horizontal, ou seja, em 20 (54%) das ocorrências, os motivos são sempre triângulos que apresentam algumas variantes.
Nas decorações sem linhas de apoio horizontal ou vertical (5 casos = 13,5%) os motivos são sempre dispostos na horizontal e constituídos por faixas contínuas em zigzague, também com variantes. Considerando que as linhas quebradas poderão ser igualmente variantes das faixas em zigzague, teríamos 10 ocorrências deste padrão ou seja 27% dos casos.
As duas excepções à regra são de orientação vertical inequívoca e os seus padrões são também singulares: a placa nº 14 com faixas largas preenchidas com trama cruzada, alternando com faixas lisas (não decoradas); a placa nº 35, de que só há um fragmento da parte inferior, decorada com faixas continuas de tracejado simples (não cruzado) formando um conjunto em espinhado.

4.4 CONSIDERAÇÕES SOBRE A DECORAÇÃO
Seria possível uma análise muito mais aprofundada das decorações. Essa tarefa parece descabida neste trabalho. Desejaria, contudo, chamar ainda a atenção para alguns aspectos cuja natureza significante deve ser realçada.
Um caso limite é protagonizado pela placa nº 19 que, de certo modo, é a antítese de todas as outras. Além de ser a única cujo material é o xisto clorítico que lhe confere uma cor e uma dureza completamente diferentes das restantes, a sua forma ambígua e a sua decoração simultaneamente ambígua e fruste tornam-na singular no corpus e, por isso mesmo, de importante significação no sistema sígnico que estas placas constituem. Acresce que foi deixada na câmara a muito curta distância da placa nº 22 que acima referi pela forma e decoração anómalas ambas deixadas na posição horizontal.
Ambas as placas apontam para transgressões da norma, no que respeita à forma trapezoidal, ao material, aos padrões decorativos. A transgressão não é ainda completa. O material não é completamente diferente e está lá o orifício e, talvez, a cabeça. Mas as formas e as composições decorativas infringem o que parece serem os cânones.
A dinâmica destas transformações está, aliás, patente em todo o corpus. Em conjuntos similares do ponto de vista decorativo com o motivo triângulo (por exemplo nº 2, 5, 6 e 7, ou 23, 24, 25, 26, e 27) há enormes diferenças no tamanho das placas, no número de fileiras de triângulos, nas faixas de separação e das decorações da parte superior e, se considerarmos a placa nº 29, de padrão semelhante, a própria cabeça decorada e dois orifícios. Todos estes factores são, seguramente factores de comunicação intencional dentro do que reputo ser um sistema elaborado e complexo de significações que, a 5000 anos de distância, ou se perderam ou são difíceis de descodificar e, sobretudo, de compreender.
Podemos, no entanto e desde já, enumerar algumas constatações que resultam objectivamente da análise até agora feita.
1. A natureza do suporte e a forma do registo revelam iniludivelmente a preocupação da duração da mensagem inscrita na placa.
2. A forma do suporte, cuidadosamente trabalhado, recusando as formas e as superfícies naturais para os gravados, boleando os ângulos e as arestas e conferindo-lhe a feição regular que ostenta, alude a um estereótipo; é variável mas não é totalmente arbitrária.
3. A execução do gravado obedece a normas gerais mínimas de composição; desenvolve-se com alguma liberdade mas parece submeter-se a regras ainda não descodificadas.
4. O desenvolvimento da composição faz-se de cima para baixo, a partir da base menor do suporte e da zona central para as laterais; a linearidade é a regra geral .
5. Os ritmos dos motivos são regulares, repetitivos e breves.
6. Os motivos, na sua maior parte, parecem arbitrários; a escolha, porém, é limitada.
7. Os orifícios foram abertos posteriormente à gravação (por isso não estão centrados relativamente à cabeça; noutros exemplares que não os do corpus há testemunhos de destruição de gravações já feitas); quase sempre apresentam vestígios de uso em suspensão que indiciam outro uso além do de espólio funerário.
8. Algumas peças do corpus apresentavam indícios de desgaste das decorações e, pelo menos num caso (nº 25), de "afeiçoamento por afago frequente" da fractura, antes de novo depósito.

 

5. ALGUMAS CORRELAÇÕES

O tratamento relacional e o enquadramento cultural das placas de xisto é um tema muito mais amplo, complexo e controverso do que o seu estudo descritivo, como o que até agora fiz, salvo algumas referências introdutórias. Não cabe aqui trabalho desse fôlego, mas parece-me indispensável estabelecer breves correlações com outros materiais similares, quer deste monumento, quer de outros do mesmo contexto cultural. Permaneceremos na região arquelógica eborense embora seja indispensável fazer uma ou outra referência um pouco mais longínqua .
Para viabilizar o entedimento da leitura, fui mostrando pequenas figuras ao longo do texto. Mas juntei em anexo cópias da documentação gráfica pertinente de que disponho, além das necessárias notas bibliográficas.

5.1 TRÊS PEÇAS DO CONTEXTO PRÓXIMO

Em 4.2 fiz referência a uma placa miniatural, de xisto clorítico, sem decoração e com dois orifícios no topo superior. Consta do inventário e das gravuras com o nº 38 e foi encontrado ao meio do corredor pouco depois da entrada, muito perto das duas outras peças que quero referir, mas a nível ligeiramente diferente (c. 75cm). A identidade tipológica com as restantes placas é incontroversa. O material é o mesmo da placa nº 19 e a ausência de decoração pode ser entendida com ou como um passo mais e extremo na transgressão da norma da figuração ou (o que parece mais provável) como representante de um signo diferente, talvez do mesmo sistema. De facto, na Anta 1 do Passo (Reguengos de Monsarás) surgiu igualmente um pequeno berloque, inteiramente decorado, como uma placa miniatural (PA 17) [10].
A nível superior (c. 65cm) surgira já uma outra pequena peça de ardósia (VE 39) com fracturas nos topos mas permitindo a sua interpretação total por analogia com outras do contexto dolménico, como adiante veremos.

É um elemento estranho aos contextos em que aparecem as placas, eventualmente oriundo da Andaluzia Oriental ou da região de Huelva, onde é relativamente frequente. O material é o mesmo da generalidade das placas mas, com este material, raríssima (até 1962, apenas eram conhecidas duas ocorrências, uma OP 76 [11] e apenas mais uma [12]) num contexto em que as placas de xisto trapezoidais se contam por milhares). VE 39 não tem decoração gravada mas assume (quando completo) uma forma antropomórfica com cabeça destacada (neste caso em falta, por fractura, mas com os ombros bem marcados). A chamada cintura é bem acentuada, o que, no conjunto, explica a terminologia analógica que lhe é tradicionalmente aplicada.
No plano formal esta peça alude a vários signos que se relacionam quer com o corpus, quer com o universo dos espólios megalíticos ou dolménicos. Além do material de que é feito, pode esclarecer a forma anómala da placa nº 22, no que se refere à cintura apontada no contorno e traduzida numa faixa lisa a esse nível da decoração, qualquer que seja o sentido que possam ter os dois enigmáticos grafitos rectangulares que, cumulativamente, comporta. Também a cabeça, simbolicamente representada pelo triângulo liso (ou trapézio?) invertido no topo superior das placas é correlata com a do ídolo. Embora no nosso corpus a cabeça tenha sempre essa forma virtual relativamente ao contorno das placas nas placas do Alto Alentejo, esse elemento da composição, na sua forma saliente ou apontada com recortes no topo superior, revela-se em cerca de 8% das ocorrências [13]. É, pois, independentemente de qualquer relação anatómica, um significante de interesse.

A última peça desta anta a que me referirei é designada por báculo e correlaciona-se com as placas sob várias perspectivas, além da do local de depósito. O material é ainda o xisto ardosiano e as decorações são tipicamente semelhantes e só numa face. A forma é radicalmente diferente. O seu número não está contabilizado, mas calcula-se que não ultrapasse os 5%, relativamente ao total de placas e não há regularidade de ocorrências nos contextos que contêm placas. Umas vezes simplesmente não ocorrem, outras vezes ocorrem em espólios relativamente pequenos [14], outras em espólios numerosos e variados [15]. Quase sempre surgem em contextos dolménicos alentejanos mas também se estende à Andaluzia ou espaços sepulcrais coevos de grutas naturais ou artificiais do litoral atlântico. São peças notáveis de grande variabilidade dimensional e decorativa. Quando completos, a extremidade oposta à ansa, não é decorada, e , por isso, designada como punho. Como o báculo deste espólio (VE-40) estava já fracturado, só conhecemos a parte da ansa. Foi encontrado a cerca de 85 cm de profundidade, junto à entrada do corredor, não, exactamente, ao nível do primeiro depósito, mas imediatamente acima, no mesmo estrato das placas nº 12, 13, 14 e 15, numa pequena zona que já servira de depósito a peças mais "antigas" e onde vieram a ser depositadas ainda peças mais "recentes". Este lugar "privilegiado", não teria sido, porém, o do primeiro depósito. Vários indícios sustentam esta hipótese. Um deles é exactamente a sua localização em sítio de acumulação, outros são também a ligeira inclinação dos depósitos e, eventualmente, a fractura antiga.
A associação do báculo ao ídolo e, talvez, ao berloque poderá ser igualmente significante. A lição da Anta 1 do Passo, acima referida a propósito do berloque pode ser elucidativa. O espólio desta anta forneceu exactamente 2 báculos miniaturados (PA-03 e PA-04) cada um com um orifício na extremidade do chamado punho e (não menos interessante) com a decoração executada a partir deste topo ficando não decorada a ansa. A associação parece, pois, razoável e neste exemplo parece, uma vez mais, estar-se em presença de transgressões à norma da decoração ou à sua aplicação inversa o que talvez seja mais o caso [16]. As relações ampliam-se e complicam-se e com elas as significações com evidentes significados cujo conteúdo ignoramos.

5.2 OS MODELOS
A oposição cumprimento/transgressão a que nos referimos anteriormente implica directamente os conceitos operativos de padrão, de norma, de lei, de regularidade (de um modo geral), mas também (e entre outras) para a oposição semelhança/diferença, que por sua vez, implica os conceitos de identidade, de originalidade, de homologia, de homotetia, etc., etc., e propõe a questão do modelo qualquer que ele seja.
Independentemente do problema da relação cronológica (prioridade, simultaneidade ou posteridade de tal ou tal tipo de placas) que sempre tem dividido os arqueólogos e suponho não ser relevante para a busca das significações, limitar-me-ei a apresentar alguns exemplos de peças exteriores ao corpus que, não obstante, tomo como seus denotadores.
A hipótese é a seguinte: se for possível apresentar outros exemplares de placas que possam transformar-se em significados do nosso corpus, operacionalmente considerado uma forma de expressão como a linguagem, poderemos afirmar que os novos elementos, indepentemente das relações que possam ter entre si, são elementos de tipo metalinguístico relativamente aos primeiros [17]. Tentemos o ensaio.

A placa de xisto da Gruta do Cabeço da Ministra, região de Alcobaça (G15 [18] e G16,nº 4) [19], não obstante alguns aspectos esquemáticos, assume um claro significado icónico relativamente à figuração humana. Enquadrada em contexto de mobiliário arqueológico equiparado ao chamado megalitismo, esta placa apresenta elementos formais e decorativos que permitem descrevê-la como um busto humano, com pormenores significantes. A cabeça, onde as sobrancelhas cerradas definem os espaços oculares marcados por dois orifícios simétricos sublinhados por traços sobre ambos malares, está bem destacada do tronco. Dos ombros cai, sobre o peito e as costas, uma banda decorada. A parte inferior do busto é rematada por uma orla de triângulos de vértices apontados para o centro figura, quer no peito, quer nas costas. Outro exemplar, da Gruta da Galinha, concelho de Alcanena [20], apresenta caracteres semelhantes.

Uma placa da Anta do Couto de Vale Magro - Crato (G17, nº1) [21] assume a forma geométrica genérica trapezoidal, com a cabeça destacada do tronco, mas não decorada, salvo dois orifícios simétricos no topo superior. Os ombros não estão decorados mas todo o resto do tronco está monotonamente coberto de filas de triângulos direitos. Este modelo de placa de cabeça recortada, repete-se com pequenas variantes decorativas, mas com a cabeça inteiramente lisa e sem orifícios PA-05, na Anta 1 do Passo (Reguengos de Monsaraz) [22]. Nestes exemplares, o carácter eventualmente icónico, sendo ainda claro em termos formais, já nem sempre o é em termos decorativos tomando, por isso, carácter meramente simbólico.
Ainda no concelho do Crato, na Anta do Couto dos Enchares, uma outra placa (G18, nº1) [23] virá introduzir novas variantes decorativas que estabelecem pontes de significação dos motivos eventualmente lidos como aparentemente abstractos e meramente geometrizantes das placas do nosso e de outros corpus. Para além dos pormenores da cabeça saliente e dos olhos perfurados, esta placa introduz não só uma faixa contínua na região facial mas acrescenta-lhe um triângulo decorado e invertido, raro em tal posição. Por outro lado, ao nível do peito o tema do triângulo liso invertido ladeado de faixas oblíquas, que, nas placas trapezoidais sem recorte surge sempre no topo superior e se identifica com a cabeça, aparece aqui em posição e com conotação obrigatoriamente diferentes.

A placa da Anta da Tapada das Lages das Peles [24] (G17,nº2), também do Crato, coloca uma situação inversa às anteriores: a cabeça não está destacada do tronco mas está separada dele por uma faixa lisa (não decorada). Os ombros não assinalados e a decoração do tronco apresenta apenas quatro filas de triângulos direitos. A cabeça, porém, está decorada: dois orifícios simétricos substituem os olhos e a face está dividida por uma linha vertical ladeada dos traços sobre os malares. Esta cabeça cuja decoração está drasticamente reduzida a sinais simbólicos revela ainda com clareza a figura humana. Também a decoração do tronco é esquemática. Apenas os triângulos das faixas superior e inferior estão decorados a traços largos não cruzados e os das duas faixas intermédias estão vazios.

Um outro tipo de placas, as placas "oculadas", contribuem com novos significados que enriquecem enormemente a função metalinguística deste novo sistema.
Para regressarmos à área geográfica próxima da Anta da Velada das Éguas, o concelho de Évora, referirei agora a placa da Anta de Cabacinhos, São Mansos - Évora (G19). Trata-se de uma pequena placa que, por razões diferentes das deste trabalho, publiquei em 1971 [25]. É uma placa de forma trapezoidal, não recortada e decorada em ambas as faces. A decoração é particularmente cuidada com motivos cujo fundo é reforçado por uma densa trama quadriculada.
A face anterior apresenta a cabeça não só grande relativamente ao tronco (quase 1/2 da placa) mas perfeitamente destacada deste por uma faixa separativa horizontal e o tronco subdividido por uma faixa lisa e com temas diferentes.
Os grafitos da cabeça são simétricos relativamente ao nariz, já sugerido na placa da G17, nº 2 e aqui reforçado com as narinas triangulares. Convergem para o nariz espessas sobrancelhas que se sobrepõem a dois olhos "solares", radiados, com pestanas recurvas e as pupilas reforçadas com incisões profundas. Do nariz divergem três faixas sobre a região malar. Como elemento de novo significante devemos considerar os dois orifícios no topo superior que aqui não substituem os olhos, nem os reforçam; sobrepõem-se às sobrancelhas, juntam-se à faixa que prolonga o nariz e foram abertos após a decoração gravada que, em parte destruíram.
Os motivos gráficos do tronco dispõem-se na horizontal e são de tipos diferentes uns dos outros acima, uma faixa larga de linhas quebradas em aspas apoiadas numa linha mediana. Em baixo duas filas de triângulos invertidos e na orla inferior uma bordadura, uma faixa larga quadriculado que se repete homologamente na face posterior.
A face posterior é, basicamente, decorada em forma de moldura com faixas largas quadriculadas. Aqui, porém, surge um elemento novo: da banda superior, no eixo vertical, duas faixas estreitas e paralelas pendem até meio das "costas".
Este "modelo" exógeno ao nosso corpus, qualquer que seja a relação temporal com ele, parece-me particularmente importante do ponto de vista semiótico. Para melhor entendimento, devo referir que também ele tem variantes que lhe potencializam a significação. Georges Zbyzewsky [26] publicou em 1957 um breve estudo sobre duas placas muito semelhantes que constam da G20 , nº 1 e 2 e que passo a referir.
A placa nº 1, A-B, é oriunda de Rosal de la Frontera, província de Huelva, região igualmente dolménica, contígua e próxima da região alentejana. A placa nº 2, C-D, proveio de um areeiro da Quinta da Farinheira, no Vale de Chelas, na região de Lisboa, onde foi encontrada em contexto não esclarecido, mas com vestígios de enterramentos eneolíticos.
O que importa, para o nosso caso, assinalar é a semelhança formal e decorativa de espécimes tão dispersos que, não obstante algumas diferenças, parecem, elas sim, terem um protótipo comum. Revelam-no os gravados das cabeças e os orifícios superiores e as faixas pendentes das costas, mas também os triângulos invertidos, independentemente de algumas outras diversidades. As placas de Huelva e de Lisboa, esclarecem mesmo que as fitas pendentes devem derivar de uma faixa de cabeça não assinalada à frente. Do mesmo modo, a placa de Huelva repete o tema das narinas triangulares da de Évora e o tema das três faixas faciais, que na de Lisboa são apenas duas. Nas três placas o campo inferior é sempre delimitado em baixo, com temas que se repetem nas costas mas há diferenças assinaláveis. Enquanto a placa de Huelva apresenta um padrão contínuo de faixas de triângulos invertidos, a de Lisboa, apresenta faixas separativas ao nível do troco ainda que os motivos principais sejam os mesmos triângulos. A de Évora, como já se disse, mantendo, embora, os triângulos invertidos, ostenta também outro motivo.
A análise sumária dos pormenores decorativos deste último conjunto de placas permite fazer novas constatações.
1. As placas surgem aqui como sendo o suporte de uma figuração antropomórfica, limitada à cabeça e ao tronco.
2. A distinção cabeça/tronco é sempre bem marcada.
3. A figuração da cabeça pode resultar do contorno parcial do suporte e/ou de motivos descritores da face, quaisquer que eles sejam.
4. Os motivos decorativos do tronco, ainda que pouco variados, não são constantes e indiciam modos de adorno e/ou cobertura do corpo.

5.3 OS SIGNIFICADOS
Quer o protótipo da placas de xisto gravadas tenha sido mais figurativo ou mais geometrizado é perfeitamente possível estabelecer entre estes "extremos" relações de dependência e de conotação/denotação.
Algumas comunidades megalíticas homenageavam os seus mortos com esta belas e enigmáticas peças de xisto. Escolhiam o material, davam-lhe uma forma determinada que, só por si, lembrava um busto humano. Não está claro se, ao decorá-las, pretendiam representar pessoas concretas mas o mais provável é que não. Quer a geometrização, quer o esquematismo da figuração, quando existe, apontam no sentido do genérico e, portanto, do abstracto. É verdade que a mesma comunidade restrita utilizou decorações muito diversas e que, por vezes, ocorre a particularização de certos motivos ou padrões mas também há que ter em conta que se o local de enterramento era colectivo, a comunidade alargada seguramente admitiria diferenciações familiares, sociais, ou outras. Esta diversificação grupal parece, aliás, conotada quer com a semelhança quer com a diferença dos padrões, portanto, muito mais ao nível da decoração do tronco, ou seja da parte que revela mais comummente as diferenças sociais, quaisquer que eles fossem.
As marcas laterais simétricas ao nível da cabeça parecem corresponder a tatuagens ou pinturas, fossem elas um distintivo étnico ou social, marca de origem ou de estatuto. A sua ocorrência mais frequente na posição horizontal assinala o sentido originário, que a multiplicação das faixas altera no sentido do abstracto e que as variantes oblíquas ou o simples preenchimento das partes laterais da cabeça a tracejado transformam em simbólico. Fenómenos de "contaminação" da execução gráfica, relativamente a elementos adjacentes reforçariam, eventualmente, a natureza da transformação e induziriam o grafismo tornado arbitrário e, portanto, simbólico.
Os orifícios que a maior parte das placas ostentam revelam, por vezes, sinais de uso fora do contexto sepulcral onde, de resto, não teriam função clara, salvo quando se identificam com os olhos. Poderá admitir-se a suspensão da placa ao peito do morto, mas essa única função nunca justificaria a fricção verificada além de que nem todas as placas têm orifício. E estas últimas poderiam igualmente ter sido usadas fora do local da sepultura.
As peças que designámos por berloques, algumas das quais simbolizam placas e outras báculos, deveriam ter sido objectos de adorno qualquer que tivesse sido o seu significado social. Parece-me provável que as placas o tenham sido também ainda que o seu uso pudesse ser limitado a certas circunstâncias. Um carácter de uso excepcional (o mais provável, tendo em conta as dimensões) conferir-lhe-ia, aliás, uma significação particularmente distintiva que justificaria a sua presença no espólio fúnebre. O báculo, tendo em conta a sua raridade, deveria ter tido uso ainda mais limitado e, eventualmente, mais importante. Os motivos da sua decoração são de tal modo semelhantes aos das placas que conferem também a estas um novo grau de importância correlativa.
Tendo em conta a escolha do material duradoiro de que são feitas as placas e a superfície cuidadosamente polida onde se lançou a gravação, é perfeitamente claro o desejo de comunicar, por meio de uma composição sincrética, uma mensagem que se desejaria permanente. Há grande probabilidade de que essa mensagem se traduzisse em linguagem cuja língua nunca conheceremos, mas a trama das composições e o seu carácter convencional sugerem, antes de mais, um símbolo, ou seja o signo de um signo; e o mais provável é que o significante deste último signo designasse o poder como significado atribuível ao próprio símbolo e ao seu portador. Por isso se desejaria duradoiro e ostentatório. Porque há ostentação na dimensão e no gravado da peça e mesmo na sua utilização última, na permanência no túmulo.
A deposição no túmulo é um acto ritual particularmente significante a que correspondem múltiplos significados. Para além das manifestações de carácter protocolar que os cânones da comunidade exigiria, o acompanhamento dos corpos de espólios específicos, eventualmente com funções diferentes, indiciadores de ritos e de convicções. No nosso caso, as placas constituíram as peças mais importantes e o cuidado com que continuaram a ser tratadas de cada vez que ocorria uma inumação, colocando-as, embora, em locais diferentes dos originais, revelam preocupações com a permanência. Nunca saberemos se se aceitaria a permanência definitiva com a bênção solar quotidiana ou se esperava o regresso ao seio dos vivos. De qualquer dos modos, talvez a placa, como sinal, permitisse a identificação e declarasse os atributos. Não longe desta anta uma outra [27] [A anta-capela da freguesia de S.BRISSOS - MONTEMOR-O-NOVO , a cerca de 20 Km da Anta da VELADA DAS ÉGUAS] agora cristianizada foi consagrada a Nª. Sª. do Livramento, advogada dos partos felizes.
Para retomarmos o tema por que iniciámos este ensaio, recordemos que a anta é um jazigo subterrâneo, uma forma de gruta artificial. O simbolismo da gruta e da sepultura em geral, que as equipara ao ventre materno é atestado pelos enterramentos desde o Paleolítico pela posição fetal dos cadáveres, do mesmo modo que a deposição dos corpos voltados para Leste indicia a ideia de ressurreição, atestada quotidianamente pelo re-nascer do Sol. No Mitraísmo, religião assumidamente solar, ou no Cristianismo que o é do mesmo modo, a gruta é local de nascimento do próprio Deus, feito Homem, como pode ser também local do sepulcro donde, aliás em estado glorioso, se regressa à vida [28] [Uma das capelas da igreja matriz da freguesia das ALCOBERTAS - RIO MAIOR do lado Oeste, é um dólmen .A capela está consagrada a Sª MARIA MADALENA , uma das testemunhas da ressurreição de Cristo ( conforme o NOVO TESTAMENTO : S. MATEUS , 27 , 57-66 e 28 , 1-10 / S. MARCOS , 15 , 42-47 e 16 , 1-8 / S. LUCAS , 23 , 49-56 e 24 , 1- 10 / S. JOÃO , 19 , 38-42 e 20, 1-18 )]. É perfeitamente aceitável que este simbolismo da anta, enquanto tal, se transmitisse às peças de que era depositária, nomeadamente aquelas cuja conotação com os defuntos e os vivos é mais evidente. E estas são as placas. É, pois, muito natural que, às múltiplas significações que as placas teriam no contexto dos vivos, se acrescentasse um sentido mágico-religioso que eventualmente se transmitisse ao seu detentor ou guardião.

 

6. PÓS-TEXTO

Este trabalho, que fiz com labor mas sem temor, deu-me um grande prazer.
Mais de quarenta anos após ter estudado estes materiais, voltar a retomá-los com minúcia e ensaiar com eles uma abordagem quase inteiramente nova, foi um trabalho aliciante, quase obsessivo. Radicou-se-me a convicção de que a Semiótica pode ser um excelente modo de análise e investigação no domínio do que se convencionou chamar a história material, a que pertence a Arqueologia, humanizando o seu campo de investigação e discutindo sem carácter dogmático o resultado das pesquisas, sem abdicar do necessário rigor científico mas, igualmente, sem o temor, mais ou menos instalado nos meios académicos de propor entendimentos onde haja matéria para eles.
Depois de feito, perguntei-me se alguma (talvez excessiva) minúcia a que não fui capaz de me furtar, seria indispensável ou mesmo necessária para este trabalho, mas a deformação (talvez o preconceito) do arqueólogo coarctou o "semiólogo". De qualquer modo, após as críticas, as observações ou sugestões, é sempre possível refazê-lo.

 

CORPUS DAS PLACAS DE XISTO GRAVADAS DA ANTA DA VELADA DAS ÉGUAS

 
 
 
 
 

 

Abreviaturas:
BJDE - Boletim "Junta Distrital de Évora"
BMLMGFC - Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências (de Lisboa)
CCI - Centre de Création Industrielle
CSGP - Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal (Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos)
E. E. - Enciclopédia Einaudi
IAC - Instituto para a Alta Cultura
II CNA - II Congresso Nacional de Arqueologia (Actas do Congresso)
II CPA - II Colóquio Portuense de Arqueologia
INCM - Imprensa Nacional - Casa da Moeda
RG - Revista de Guimarães (Sociedade Martins Sarmento, Guimarães)
RTAEFLUP - Revista Trimestral da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
SEC - Secretaria de Estado da Cultura
TAE - Trabalhos de Antropologia e Etnografia (Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnografia - Faculdade de Ciências do Porto)



(01) - A.A. V.V. - Pour une Sémiotique Topologique , in La construction d'objects sémiotiques Fotocópia (s.d. mas após 1974), pág. 129/157
(02) - A.A. V.V. - Anthropologie de l ' écriture, CCI, Centre Georges Pompidou, Paris, 1984
(03) - A.A. V.V. - Mythos /Logos, in E. E., nº 12 - INCM, Lisboa, 1987
(04) - A.A. V.V. - As pedras e a escrita ( Stonehenge e Glozel ) - Edições 70, Lisboa,s. d.
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(07) - Babo, M. A. - A escrita do livro, Vega (Passagens, 14), Lisboa,1993
(08) - Baratta, G., - Ritmo, in E. E., nº 11 - INCM, Lisboa, 1987
(09) - Barthes, R. - Elementos de Semiologia, Edições 70 (Signos, 43) , Lisboa, s. d.
(10) - Barthes, R . - Mitologias, Edições 70 (Signos , 2), Lisboa, 1988
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(12) - Barthes, R. e Mauriès, P. - Escrita, in E. E., nº 11 - INCM, Lisboa, 1987
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(22) - Foucault , M. - L ' archéologie du savoir - Gallimard, Paris, 1969
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(31) - Jung, C. G .- Psychologie et Religion - Buchet/Chastel, Paris, 1968
(32) - Kristeva, J. - História da linguagem - Edições 70 (Signos, 6) , Lisboa, 1988
(33) - Le Goff, J. - Memória, in E. E. , nº 1 - INCM, Lisboa, 1984
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(36) - Leroi-Gourhan, A. - L ' homme et la matière - Éditions Albin Michel, Paris, 1971
(37) - Leroi-Gourhan, A. - O gesto e a palavra - 1 - Técnica e linguagem - Edições 70 (Perspectivas do Homem, 16) , Lisboa , 1990
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(47) - Pina, H. L. - Novos monumentos megalíticos do Distrito de Évora - II CNA, Coimbra, 1971
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(58) - Rodrigues, M. C. M. - Estudo ideológico-simbólico das placas de xisto gravadas - Alto Alentejo - Câmara Municipal de Castelo de Vide,1986
(59) - Saussure, F. - Curso de Linguística Geral - Publicações D. Quixote (Universidade Moderna,18) - Lisboa, 1983
(60) - Savory, H. N.- Espanha e Portugal - Editorial Verbo (Historia Mundi 14) - Lisboa 1969
(61) - Zbyszewski, G - Comparaison entre une plaque de schiste gravée de Lisbonne et une autre de la province de Huelva - in CSGP, tomo XXXVIII, Lisboa, 1957