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O termo megalito tem-nos acompanhado   (no sentido arqueológico) desde há cerca de 150 anos. Glyn Daniel situa as suas origens no período compreendido entre 1840 a 1860 (Daniel, 1958: 14). Significando apenas "grandes pedras", pode parecer um instrumento de classificação tosco e rudimentar e não causa surpresa que alguns tenham questionado a sua utilidade.

Uma importante dificuldade reside na diversidade das estruturas que geralmente são agrupadas como sendo "megalíticas". Como Chris Tilley advertiu, "existem por vezes dúvidas sobre quão grande deve ser uma pedra para ser considerada uma 'pedra grande' i.e. um megalito, e se um monumento talhado na rocha pode ser devidamente inserido nesta categoria. Será que Newgrange é realmente o mesmo tipo de monumento que um dólmen de Pembrokeshire?" (Tilley, 1998: 155).

Além de que o termo megalito é por vezes usado de forma vaga na Pré-história Europeia para referir outros tipos de monumentos que não são megalíticos, no sentido em que não são usados grandes blocos de pedra na sua construção: câmaras de pedra seca com falsa cúpula são a categoria mais óbvia. É claro que, em várias regiões da Europa, plantas similares às das estruturas acima do solo, foram reproduzidos em monumentos talhados na rocha.

Deveríamos então abandonar o termo, como alguns sugeriram? O problema que levanta tal proposta é que rejeitar "megalito" é ignorar a verdadeira materialidade que se esconde por detrás deste. Em primeiro lugar, está o uso de lajes "extravagantemente grandes" como Childe as descreveu (Childe, 1957: 213). Uma segunda característica é o uso (muito frequente) de blocos não trabalhados, utilizados mais ou menos como foram encontrados na sua geologia natural (fig.1). Esta é a característica que está por detrás dos títulos antigos tais como o famoso "Rude Stone Monuments" de James Fergusson (1872) ou "Rough Stone Monuments and their Builders" (1912) de Eric Peet's.

A arquitectura megalítica da Europa Ocidental está, de facto, longe de ser oportunista, mas, pelo contrário, está baseada num uso e manipulação altamente sofisticado de uma escolha particular de materiais. Como Fergusson observou, em relação aos blocos megalíticos, "com as mais raras excepções, eles preferiam-nos intocados por um cinzel e muito raramente foram usados propriamente num sentido construtivo. Em quase todas as circunstâncias procurou-se obter o fim desejado, através da massa e da expressão do poder" (Fergusson, 1872: 40). Este não foi o trabalho de comunidades que não tinham ainda aprendido o construir de outras maneiras; isto é-nos mostrado pelo uso de impressionantes paredes de pedra seca lado a lado com construções megalíticas em vários monumentos. Pelo contrário, revela-nos as atitudes destas sociedades perante os materiais que usavam. Padrões de desgaste em chapéus e ortóstatos indicam frequentemente que estes foram levados de afloramentos rochosos ou pavimentos expostos. Em alguns casos, os blocos podiam até já estar deitados, separados da massa de matéria-prima, por processos naturais: os glaciares erráticos da Europa do Norte são um exemplo óbvio. Em outros casos, as fissuras naturais e as linhas de clivagem de afloramentos rochosos fizeram com que a recolha dos blocos fosse uma operação relativamente fácil, além de terem tido um papel decisivo na determinação da boa forma e tamanho. Além disso, uma vez soltos, os blocos eram frequentemente sujeitos a pouco ou nenhum trabalho de aperfeiçoamento ou suavização de arestas; eram somente reunidos e incorporados na estrutura desejada, fosse ela um alinhamento ou uma sepultura com câmara.

 

Monumentos megalíticos das planícies do Norte da Europa

Os monumentos megalíticos das planícies do Norte Europeu, desde Mecklenburg, a oriente, até Drenthe, no ocidente, fornecem uma visão particularmente boa no que toca à procura e manipulação de grandes blocos de pedra.

À primeira vista, as planícies do Norte da Europa, parecem uma zona onde seria pouco favorável encontrar uma intensa construção megalítica, visto que carecem de afloramentos significativos de formações geológicas adequadas. No entanto, aquilo que existia em abundância era blocos erráticos de origem glaciar transportados para sul pelas placas de gelo e deixados em moreias, ou em depósitos de argila, quando os glaciares derreteram. A distribuição de blocos erráticos estava longe de ser uniforme e a localização das sepulturas megalíticas parece estar intimamente ligada com a disponibilidade de grandes blocos de pedra. No Norte da Holanda, os investigadores chegaram à conclusão que a origem da pedra utilizada nos hunebedden holandeses se encontrava a não mais de 300 metros do monumento (Bakker e Groenman-van Woatering, 1988), e portanto o transporte a partir de longas distâncias não foi necessário.

Um traço característico dos blocos erráticos usados nestas sepulturas megalíticas da Europa do Norte é o emprego de blocos partidos ao meio. Em 1879, o Reverendo William Lukis escreveu sobre os hunebedden holandeses que

"Em quase todos os hunebedden várias pedras extraídas artificialmente foram utilizadas tanto para suportes como para pedras de cobertura, com o objectivo de produzir uma superfície interna plana. As pedras, sendo a maioria de natureza estratificada, fizeram com que a clivagem não fosse uma operação difícil. Eu não consegui encontrar nenhuma evidência dos meios pelos quais a operação foi concluída". (Lukis 1879,50)

Hoje, contudo, a divisão destes blocos erráticos, é atribuída na sua maioria   à acção dos glaciares e não a intervenções humanas (Bakker, 1992: 25; Gehl in Schuldt, 1972: 110-111). Enquanto que os construtores partiram certamente pedras mais pequenas para a construção de paredes de pedra seca entre os grandes blocos, geralmente eles não parecem ter quebrado as pedras maiores, visto que apenas em casos excepcionais foram encontradas marcas de cunhas: só existe um exemplo na Alemanha do Norte, e mais quatro no Schleswig-Holstein (Bakker 1992); mas a listagem destes casos específicos sublinha a raridade de tais evidências.

As pedras aparentam ter sido colocadas nas tumbas, sem nenhum afeiçoamento adicional.

• para criar um topo nivelado sobre o qual os chapéus pudessem assentar, os construtores variavam a profundidade dos alvéolos, escavados para receber os ortóstatos; só em muito poucos casos existem provas de que os topos das pedras tenham sido intencionalmente regularizados (Bakker, 1992: 26-27).

· as extremidades irregulares foram acomodadas pela construção de pequenas extensões de muros de pedra seca entre os grandes blocos; novamente, as extremidades das pedras não foi afeiçoada. Em alguns casos, o contraste entre painéis de pedra seca e blocos megalíticos seria realçado por diferenças de cores.

· a divisão destes blocos, deu-lhes uma superfície exterior áspera e bulbosa, e um alisamento suave na face interior: virtualmente em todos os casos, a superfície suave da pedra é virada para dentro, no caso de ser um corredor ou uma câmara, ou para fora, no caso dos kerbs ortostáticos que delimitam as mamoas (Fig.2). A suavidade das superfícies é notável: no hunebed de Eext, Van Giffen sublinhou que algumas eram tão suaves como se tivessem sido polidas (Van Giffen, 1927: 45). Por conseguinte a aparência desta superfícies deve ter tido um significado particular, e a sua presença nos corredores, câmaras e kerbs destes monumentos, colocou um ênfase especial no elemento ostentação.

Por agora, estabelecemos três características chave acerca dos blocos de pedra utilizados na construção das tumbas megalíticas das planícies do Norte Europeu:

· primeira, que eles são construídos de blocos erráticos de origem glaciar, a única fonte de grandes blocos de pedra disponível nesta região;

· segunda, que os blocos que foram usados foram divididos em dois, provavelmente por acção glacial ou erosiva, apesar de talvez com algum contributo humano.

· e terceira, que com raras excepções foi a face interior, mais suave, que foi apresentada ao espectador.

Qual era a importância deste uso dos blocos erráticos? Porque será que os construtores destas tumbas procuraram incorporar os mais importantes elementos megalíticos com a mínima modificação da sua forma natural? Podemos nós procurar descobrir a razão para o uso destas pedras nesta forma específica?

Uma forma de explorar mais profundamente estas questões é pensar mais detalhadamente em como estes blocos megalíticos foram eles próprios seleccionados e usados.

a) o uso de muros de pedra seca: uma característica recorrente destes monumentos é o uso de paredes de pedra solta para preencher os espaços entre os grandes blocos erráticos (Fig.3). Visto que as formas irregulares dos blocos erráticos não formam naturalmente uma junta unida, o uso de tal enchimento era de esperar. Existem provas, contudo, de que o muro de pedra seca foi concebido de forma a evidenciar o contraste entre os espaços de pedra seca e os blocos megalíticos: para dar enfâse ao tamanho e à forma dos últimos.

· seis sepulturas de corredor dinamarquesas têm casca de vidoeiro enrolada entre as camadas de pedra seca; visto que materiais orgânicos como estes raramente se preservam, e os exemplos sobreviventes têm uma ampla distribuição geográfica, presume-se que era uma característica comum na construção megalítica dinamarquesa (Dehn e Hansen, 2000);

· em outras tumbas dinamarquesas, encontra-se giz esmagado no meio das fiadas de pedra. Tal como a casca de vidoeiro, este podia ser uma intenção decorativa - linhas claras contra a pedra escura;

· em Mecklenburg, um contraste de cores foi conseguido através do uso de arenito vermelho nos muros de pedra seca, contrastando com o granito dos blocos erráticos (Gehl in Schuldt, 1972).

O cuidado com que o murete de pedra seca está assente em volta dos contornos irregulares dos blocos erráticos sublinha a noção de incorporação: os grandes blocos de pedra estão a ser encaixados na estrutura que está a ser construída à sua volta. São as grandes pedras que desempenham o papel principal no processo de construção. Para além disso, estes grandes blocos recebem um ênfase visual adicional pelo contraste com os painéis intercalados de pedra seca, que em alguns casos eram diferenciados por enchimentos coloridos entre os espaços ou pelo uso de pedras de cores diferentes.

b) pedras gémeas: uma outra característica significativa no uso de glaciares erráticos é a presença de "pedras gémeas", i.e. duas metades da mesma pedra. Torben Dehn   e Svend Hansen observam que pares de pedras podem ser encontrados em quase 20 % de todas as sepulturas megalíticas dinamarquesas e uma prática semelhante é representada pelas "pedras espelho" dos megalitos de Mecklenburg (Dehn e Hansen, 2000; Schuldt, 1972). As pedras gémeas estão normalmente usadas como ortóstatos e muito frequentemente colocadas frente a frente na entrada do corredor. Alternativamente, elas podem estar opostas uma à outra, ou lado a lado, na câmara. Em Ørnhøj, no Norte da Jutlândia (fig.4), as pedras gémeas estão colocadas de cada lado da entrada do corredor. Contudo, uma vez que eram mais altas que todas os outros ortóstatos da câmara, elas só podiam ser incorporadas inclinadas para a frente de forma a que assentassem na extremidade do chapéu. Uma noção de assimetria é introduzida pela forma como uma das pedras é colocada com a sua extremidade mais estreita virada para cima e a seguinte para baixo i.e. invertida (Dehn e Hansen, 2000: fig 18.9).

A presença dessas pedras gémeas não nos deveria, de certa maneira,   surpreender. Elas provêm directamente da natureza do material; quer tenham sido divididos por acção glacial ou por mãos humanas, as metades complementares deveriam, com muita   frequência, encontrar-se próximas uma da outra na paisagem.

O que nos dá bases para futuras reflexões é a maneira reconhecível pela qual elas são incorporadas nas sepulturas dinamarquesas, seguindo princípios de aparelhamento e assimetria. Mais uma vez, isto chama a nossa atenção para o significado que as formas e as qualidades   das pedras individuais podem ter tido para os construtores pré-históricos.

c) covinhas: mais provas são fornecidas pelas covinhas esculpidas em alguns dos blocos incorporados nas sepulturas. Em Mecklenburg, Schuldt encontrou covinhas em 58 sepulturas de um total de 1145; no Schleswig-Holstein os números são mais pequenos mas a proporção é semelhante: 21 tumbas de um total de 400 têm covinhas (Hoika, 1990). A maioria encontra-se em chapéus ou ocasionalmente em kerbstones . Na discussão desse fenómeno, Hoika sublinha a dificuldade de datação de tais gravuras e nota que num conjunto de situações, escavadores descobriram que o chapéu da câmara provavelmente não estava tapado por terra, depois de a mamoa ter sido concluída. Isto significa que a superficie do chapéu, na qual as covinhas aparecem por regra, pode ter estado acessível muito depois de a estrutura da sepultura ter sido erguida. Em alguns casos foram encontradas gravuras mais elaboradas, como em Herrestrup na Zealand onde o chapéu apresenta representações de navios da Idade do Bronze e cruzes cristãs (Fig.1).

Isto faz-nos recuar directamente aos debates do século XIX sobre se as sepulturas megalíticas eram cobertas por mamoas ou se as estruturas megalíticas eram deixadas à vista. O consenso actual é a favor da cobertura com mamoas, na maioria ou mesmo em todos os casos. Esta interpretação é confirmada com três exemplos onde o topo do chapéu deve ter estado sem dúvida inacessível a gerações subsequentes visto que um monumento posterior foi construido por cima: em Hüsby e Bunsoh, que estão sobrepostas por mamoas da Idade do Bronze inicial; e em Harrislee, com uma cobertura do Neolítico final (Hoika, 1990).

Embora seja possível que em algumas - e de facto talvez na maioria - destas ocasiões as covinhas tenham sido gravadas em blocos erráticos antes destes terem sido incorporados nas sepulturas megaliticas. Se os construtores de túmulos procuravam preferencialmente tais pedras, não pode ser determinado sem a realização de trabalhos de busca de blocos sobreviventes marcados e não marcados. Contudo parece uma vez mais que na utilização de blocos erráticos em sepulturas, os construtores estavam a trazer pedras que estes consideravam ter um significado especial, e que esse significado podia já se encontrar materializado em alguns casos pela gravação de covinhas em blocos erráticos na paisagem.

 

A imagem mais geral

Na maioria das restantes áreas da Europa ocidental, os materiais utilizados na construção de monumentos megalíticos proveio não de blocos erráticos mas sim de afloramentos rochosos. Estes materiais podem ter-se apresentado sob diversas formas: como blocos soltos já destacados naturalmente da sua geologia de origem, através de processos erosivos; como afloramentos erodidos e fissurados, dos quais podiam ser extraídos blocos   com relativa facilidade; ou como depósitos enterrados que tinham de ser obtidos através de extracção de pedra.

O último destes, a extracção de pedra, parece ter sido incomum; embora ocasionalmente tenha sido registado. De forma geral, os construtores destes monumentos parecem ter obtido os seus blocos megalíticos ou sob a forma de blocos já soltos ou então de afloramentos rochosos onde o esforço requerido era relativamente pequeno.

Este é o caso, por exemplo, dos "dolmens de portal" do Sudoeste Britânico e do Sul da Irlanda. Em Poulnabrone e em outras sepulturas de Burren no oeste irlandês, as formas das lajes sugerem claramente o padrão das fissuras naturais da pedra calcária local. Em Carreg Samson, no Sudoeste de Gales, Frances Lynch notou que o chapéu pode ter sido um bloco errático desenterrado do solo do sítio sob o qual a sepultura foi construída (Lynch, 1975:16).

Na Bretanha, estudos feitos por Pascal Sellier sobre as superficies alteradas dos menires de Kerlescan, sugerem que estes tenham sido extraídos de um aforamento muito próximo do local onde foram erguidos; Sellier foi capaz de provar que apenas um esforço modesto foi necessário para soltar as pedras da sua fonte geológica (Sellier, 1995). Elas foram erguidas sem mais nenhum afeiçoamento aparente.

Em Portugal, Walter Vortisch observou que as formas dos ortóstatos e dos chapéus das sepulturas de Vale de Rodrigo eram directamente explicadas pela maneira como tinham sido extraídas do afloramento rochoso (Vortisch, 1999). A posição original dos blocos pode ser determinada a partir dos seus planos convexos ou pela morfologia dos lados paralelos. Faces achatadas correspondiam às clivagens naturais da rocha-mãe; faces arredondadas são as superfícies dos afloramentos rochosos que sofreram uma erosão natural através dos elementos atmosféricos. Os grandes chapéus de faces paralelas podem ter sido extraídos horizontalmente através da exploração dos planos de clivagem natural. O topo inclinado obliquamente do ortóstato do monumento 3, corresponde à extremidade erodida naturalmente do afloramento do qual foi extraído. Vortisch illustrou a sua observação diagramaticamente, com o esboço   de um afloramento rochoso existente perto de Vale de Rodrigo, mostrando o tipo de fissura que teria facilitado a extracção de tais blocos (Vortisch, 1999: fig.6).

Assim, os monumentos de Vale de Rodrigo estão construídos essencialmente com blocos naturais não modificados que eram facilmente visíveis e de fácil extracção na geologia local. Tal como nos hunebedden holandeses, os construtores simplesmente juntaram blocos naturais não trabalhados e arranjaram-nos naquilo que frequentemente são monumentos sofisticados de tamanho considerável. Para além disso, estas sepulturas portuguesas parecem ter incorporado pedras naturais de uma maneira particular e essencialmente similar à do Norte da Europa; as faces visíveis ao espectador eram em ambos os casos as superficies de clivagem, formadas no Norte da Europa pela fractura dos erráticos e, em Portugal, pela fractura da rocha-mãe.   Em Portugal, algumas destas superfícies eram, num certo sentido, artificiais, criadas através da remoção das lajes a partir do afloramento; por outro lado, eles também podem ser considerados "naturais" visto que correspondem a fendas e fissuras existentes. O que é surpreendente contudo é o paralelismo entre a manipulação dos blocos megalíticos nestas duas regiões amplamente distantes da Europa Ocidental.   Em cada caso eles indicam uma relação particular e extensiva entre as comunidades humanas e os materiais que elas seleccionavam para a construção destes monumentos. Embora "megalíticos" aqui implique um significado que vai para além do mero tamanho das pedras e inclua a maneira específica em que elas foram utilizadas e, nomeadamente, a ausência de talhe e afeiçoamento extensivo.

 

Conclusão

Estas observações podem servir para devolver ao termo "megalítico" algum do significado especial que o uso de pedras grandes parece indicar.

Em muitos casos, pode ter havido um elemento de oportunismo no que toca ao uso de materiais que eram facilmente alcançáveis. A dificuldade em mover e manipular   elementos tão grandes e pesados deve contudo acautelar contra explicações baseadas na lei do menor esforço, no caso da arquitectura megalítica. É significativo que as gerações seguintes não tenham achado a arquitectura "megalítica" a forma mais fácil de construir.

Além do mais, enquanto que a maior parte das estruturas megalíticas foram construídos a partir de elementos extraídos das proximidades (Owen-Williams e Thorpe, 1990; Kalb, 1996), alguns dos exemplos mais espectaculares estão envolvidos no transporte de blocos a distâncias muito maiores (10 a 12 km no caso de Grand Menhir Brisé : Le Roux, 1997; 30 km para os sarsens de Stonehenge; e 130 km para as pedras azuis de Stonehenge (Green, 1997). Estes casos confirmam o significado especial ligado às grandes pedras pelas sociedades da Europa ocidental durante o 5º e o 4º milénios AC. O argumento é ainda mais sublinhado pelos milhares de pedras erguidas tanto como menires isolados, como em círculos, alinhamentos e outras formações. Um "culto de pedras" parece ser a conclusão inevitável, quer em relação a "antepassados"( Parker Pearson e Ramilisonina, 1998 ; mas ver Whitley, 2002) quer a altares e lugares de poder na paisagem (Colson, 1997; Mather, 2003).

Foi aqui dado um ênfase especial à extracção de blocos "naturalmente" disponíveis e no seu uso sem afeiçoamento posterior. Enquanto que pedras não trabalhadas são comuns nas estruturas megalíticas da Europa Ocidental há contudo excepções significativas. Em numerosos monumentos megalíticos as pedras foram alisadas e afeiçoadas de forma intensa e as superfícies por vezes gravadas e decoradas. As sarsens de Stonehenge foram picotadas e afeiçoadas, e apresentam curiosos padrões de "flautas" que um autor comparou à representação de casca de carvalho, ou noutro caso, de vidoeiro (North, 1996, 285). Os primeiros menires decorados do sul da Bretanha também foram afeiçoados e suavizados e não nos devemos esquecer das superfícies talhadas de Newgrange, Knowth e Gavrinis, com a sua "arte megalítica" nem as entradas tipo postigo e os blocos cuidadosamente unidos de algumas tradições de sepulturas regionais, tais como os "dolmens angoumoisins" da   França ocidental. Pedras não trabalhadas não são um aspecto universal das construções megalíticas; mas permanece a situação de que em muitas regiões da Europa Ocidental e do Norte o uso de pedras não trabalhadas é altamente significativo e uma prática muito difundida.

Se foram as qualidades visuais e tácteis das pedras que tinham grande significado, ou as fontes donde elas vieram, é difícil de determinar. A criação de padrões específicos ou   contrastes de cor ou forma sugere que a aparência das pedras foi muito relevante mas estas qualidades visuais também teriam servido como pistas em relação ao seu local de origem (Bradley, 2000: 90, 96; Scarre, no prelo).

Assim, pode ter sido a origem das pedras particulares, numa perspectiva mitológica ou cosmológica, que foi de importância chave. A dispersão de grandes blocos erráticos ao longo da fronteira de argila e moreias da Europa do Norte pode muito bem ter sido vista à luz de algum acontecimento distante ou sobrenatural e pode ter sido isso que investiu as pedras com o seu significado particular.

Que elas tinham significado é mostrado pela forma como eram cuidadosamente utilizadas em estruturas megalíticas, os espaços   entre elas fechado por paredes de pedra seca. Algumas já apresentavam covinhas a marcá-las como especiais. A incorporação de tais pedras em tumbas megalíticas ecoa talvez a reutilização de menires decorados e não decorados nas sepulturas do Sul da Bretanha. Em certo sentido, todas elas podem ser consideradas como "pedras troféu", não apenas materiais de construção convenientes mas elementos do mundo natural ou cultural que se encontravam   já dotados de significados e qualidades especiais. Os significados podem ser irrecuperáveis hoje em dia; mas a materialidade dos blocos megalíticos fornece provas para uma compreensão parcial desta tradição cultural tão difundida.

 

Fig. 1 - Sepultura megalitica de Herrestrup na Zealand (Dimamarca) com gravuras de barcos da Idade do Bronze e cruzes cristãs no chapéu. Gravura de Fergusson Rude Stone Monuments (1872).


Fig. 2 - Hunebed D53 em Havelterberg (Drenthe, Holanda), mostrando a localização deos blocos erráticos partidos com a face lisa para o interior. Foto de Van Giffen (1927).


Fig. 3 - Sepultura 3 em Burtevitz on Rügen (Alemanha). Enchimento de pedra seca entre as lajes megalíticas está cuidadosamente ajustado à volta dos contornos dos grandes blocos erráticos. De Schuldt (1972).


Fig. 4 - 'Pedras gémeas' na sepultura de corredor dinamarquesa de Ørnhøj no Norte da Jutlândia. (Adaptado de Dehn & Hansen 2000).

 

 

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